A poeira e o micróbio

Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
  O ano de 2006 se inicia. Realmente, é um novo ano. No entanto, existe a possibilidade de 2006 ser 2005, 2004, 2003, 2007, 2008, 2009,..., para algumas pessoas. Então, quer dizer que para elas se utiliza as frases: ‘‘Feliz Ano Velho’’ e ‘‘Feliz Ano Futuro’’?
  Ao se analisar o significado de ‘‘Ano Novo’’, corre-se o risco de não se chegar a lugar algum. Essa expressão contém muitos significados. Por exemplo, para quem não acredita em simbolismos mágicos, 2006 é apenas um ano cuja numeração é diferente dos anos anteriores. Para quem acha que a mudança só virá ano que vem, 2006 assume o significado de ano novo e, conseqüentemente, vida nova. Para quem não espera o ano chegar e resolve precocemente iniciar as mudanças, 2006 representa o momento em se colhe os frutos. E, para outros, 2006 é interpretado como uma reprise dos outros anos, ou seja, sem nada de novo e de consistente para se acrescentar.
  Às vezes, a expressão ‘‘Ano Novo’’ pode se tornar um clichê, que se torna repetitivo e perde seu significado, visto que nele predomina uma idéia que é imposta, o que contribui para que não haja espaço para questionamentos acerca dessa ordem pré-estabelecida.
  Um exemplo interessante a respeito disso são os diferentes calendários que alguns povos utilizam, o que representa a materialização do tempo, um conceito abstrato. Se essas civilizações compartilham o mesmo momento de existência (leia-se ‘‘ano’’), por que não poderiam vivenciar esse momento segundo suas crenças? Percebe-se que usar a expressão ‘‘Feliz Ano Novo’’ não engloba povos que ainda vivenciam um momento passado, nem tampouco os que ainda vivenciam um momento que está por vir. Nem sempre o momento presente é a regra.
  Então, o que se deve desejar para 2006? Poderia se começar assim: ‘‘Feliz Ano Velho, pois esquecer-se dos erros e das promessas pode prejudicar o perdão e os projetos que tornem 2006 um Ano Novo e livre dos empecilhos que atrapalharam os sonhos de 2004 em se tornarem realidade em 2005; e Feliz Ano Novo, pois se trata de um novo momento da evolução da humanidade, marcada pela oportunidade de se desconectar de preconceitos, medos, mentiras, buscando aperfeiçoar crenças, compreender melhor a si e o mundo para, por fim, ser o agente que transformará 2006 e que será transformado também por outros homens. Que 2006 seja, dessa forma, a ponte entre passado e futuro e, dependendo do resultado da obra, o momento presente será a materialização desse tempo. Quanto aos dois filhos da humanidade, a poeira e o micróbio, desejo-lhes sucesso em sua missão de guiar os homens; à poeira, a lembrança do passado não como algo pegajoso, mas persistente em lembrar às novas gerações de suas experiências; e ao micróbio, a recordação de que o desconhecido ainda virá, e que, apesar de ser algo invisível e que acaba sendo considerado insignificante, não deve ser deixado de lado, visto que é uma oportunidade para o ser humano despertar suas potencialidades. 2006, 2006, 2006, 2006,..., realmente, que seja marcante.’’
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de medicina da UEL


Construir a pátria

Gaudêncio Torquato
  Os países são expressões geográficas e os Estados são formas de equilíbrio político. A Pátria, porém, transcende esse conceito: é sincronismo de espíritos e corações, aspiração à grandeza, comunhão de esperanças, solidariedade sentimental de uma raça. Enquanto um país não é Pátria, seus habitantes não formam uma Nação. Este breve resumo, pinçado de um dos mais belos ensaios morais sobre a mediocridade, de autoria de José Ingenieros, serve como lição aos nossos governantes na abertura deste ano, que abrirá grande espaço para confabulações politiqueiras, interesses venais e promessas enganosas embaladas nas cores do patriotismo, no fluxo das composições que alimentarão uma das mais ferrenhas disputas eleitorais da atualidade.
  Construir a Pátria para se alcançar o estágio avançado de Nação se configura como o primeiro dever do homem público. A idéia pode até parecer despropositada aos porta-vozes da politicagem e demagogos que fartam os apetites com a exploração do sentimento cívico das populações. Mas a verdade é que, depois de 506 anos do Descobrimento, a Pátria brasileira é apenas arremedo de um bom conceito. Basta observar a deficiência das estruturas públicas. Um poder sem moral se instala nos ambientes. As fontes éticas se esgotam. As injustiças ganham corpo, escudadas no desleixo e na incúria de administrações, na irresponsabilidade de governantes, na desobediência às leis e no acesso desigual dos cidadãos à Justiça.
  Os traços da civilização brasileira carregam uma dose elevada de tintas da barbárie. A modernidade que se vê ao redor, nos grandes centros e até no interior do País, simbolizada por avanços da tecnologia, não consegue passar a borracha no Brasil do analfabetismo funcional (que atinge 38% dos brasileiros), do território violento, das riquezas devastadas pela ambição, da desintegração de padrões de relacionamento social e do solapamento de valores fundamentais, como o culto à família, o cumprimento do dever, o respeito às tradições e a defesa do bem comum.
  Para corrigir o conceito urge refundar a República corrompida. A assepsia deve ser geral. A começar pelo Poder Executivo, cujas atitudes devem guiar-se pela idéia de um projeto de longo prazo para o País. O corpo parlamentar há de aceitar a concepção de que mandato ganho nas urnas pertence ao povo, não a ele.Os quadros do Judiciário hão de lembrar que ‘‘os juízes devem ser mais reverendos que aclamados e mais circunspectos que audaciosos’’, elegendo a integridade como virtude. Se os Poderes cumprissem as funções que lhes são atinentes, o País avançaria, e muito, em 2006. As leis seriam mais obedecidas. As instituições, mais respeitadas. A cidadania ampliaria seus foros. Teríamos campanhas mais éticas e menos extravagantes. Discursos sérios. Eleições mais limpas.
  Os políticos brasileiros precisam trabalhar para, em 2006, diminuir as distâncias que separam território, País, Pátria e Nação.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista e professor titular da USP e consultor político


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