ESPAÇO ABERTO
Osmar Serraglio: parlamentar notável
René Ariel Dotti
O artigo de Alberto Dines, publicado dia 31 pela imprensa nacional sobre previsões para 2006, provocou o texto de hoje. O lúcido escritor e jornalista comenta o antagonismo entre as expressões annus mirabilis (o poema de John Dryden, 1631-1700) e annus horribilis. E observa que cada Annus Mirabilis pode ser visto ou previsto como Annus Horribilis, dependendo do observador: se as cuecas recheadas de dólares são de companheiros, trata-se de verdadeiro milagre - poderia ser muito pior. Mas para as almas menos militantes a coisa pode ser considerada como calamitosa e humilhante. O fato é o mesmo; diferente é a percepção. (Bolas de cristal).
A matéria denuncia que o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPI dos Correios - uma das mais agradáveis surpresas nesta temporada de tremendas decepções humanas e políticas, saiu da Câmara para procurar, no Palácio do Planalto, apoio capaz de garantir-lhe os R$ 3,5 milhões devidos a cada parlamentar para investimentos em suas bases eleitorais. Mas só foi recebido por um funcionário do terceiro escalão. Conclusão de Alberto Dines: É evidente que o mesmo governo que indicou Osmar Serraglio para a relatoria da mais importante CPI das últimas décadas não está satisfeito com o seu desempenho rigoroso e imparcial. E faz questão de demonstrá-lo. Nenhuma novidade. Surpreendente é a necessidade de um parlamentar que conduz com tanta competência as investigações sobre o maior escândalo parlamentar de todos os tempos ser obrigado a percorrer a humilhante via-crúcis para garantir sua sobrevivência política e os votos para o próprio mandato.
Continuam os comentários: a) pelo trabalho republicano, o deputado Serraglio não precisaria de verba para escola, creche, estrada vicinal ou outro benefício popular a fim de voltar à Câmara ou chegar ao Senado: b) assim aconteceria numa democracia plena, numa república decente e numa sociedade capaz de valorizar os atributos pessoais dos representantes do povo; c) não é o caso do Brasil; d) um novo mandato estaria em risco se o parlamentar não cumprir o seu papel no jogo que nivela o baixo e o alto clero.
Penso, porém, que a carreira política de Osmar Serraglio está em notável ascensão. Todo o Brasil passou a admirar a dedicação, o equilíbrio emocional, o senso de justiça, a humildade e o zelo no mandato ético e corajoso.
Há poucos dias, na histórica Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, numa concentração do movimento Da indignação à ação eu presenciei o entusiasmo cívico da imensa assistência ao recebê-lo e aplaudi-lo em pé.
René Ariel dotti é advogado e professor universitário
Um pouco além das coisas do mundo
Walmor Macarini
Viemos a este planeta por razões específicas. Uma delas divinizá-lo e dar-lhe sustentação de luz. Por isso não podemos perder nossa identidade transcendente, a supra-física, na verdade a única porque eterna. Há portanto que não fixar-se apenas nas coisas desta vivência terrena que, embora longa na contagem dos dias, dos séculos e dos milênios que temos experimentado nas muitas passagens por aqui, é ainda efêmera e de pequeníssima duração se pensarmos a eternidade.
No começo deste ano, tudo o que se leu e ouviu das pessoas sobre os projetos da etapa que começa se relacionam somente com as conquistas do mundo. Os jovens falam em concluir cursos, especializar-se, exercer uma profissão. Os adultos pedem saúde, paz familiar. Outros brincam com a sorte de ganhar uma fortuna na loteria. Não se ouviu ninguém dizer que, neste ano novo, deseja servir mais, agradecer mais, confratenizar-se mais, espiritualizar-se mais.
Parece que a existência se resume em alimentar-se, manter o corpo físico, agradá-lo de diversas formas por via de bens sempre adquiridos com dinheiro. Isto está explícito nos anseios manifestados. Nada contra os prazeres da vida e é preciso cultivá-los e viver intensamente todos os momentos mas por que não dedicar, também, alguma atenção para algo tão relevante como o crescimento espiritual?! Isto não significa correr para dentro de uma igreja e tornar-se um beato. Porque tal será, ainda, apenas uma busca de religiosidade e não de espiritualidade.
E o que é espiritualidade? É o entendimento de que não somos deste mundo e que nossa trajetória por aqui é apenas um período de aprendizado, de purificação, de resgate, de missão. Porque nossa realidade não é a que vemos no espelho quando nos miramos, mas algo de imensurável magnitude que nos conecta com as mais elevadas dimensões. Se ficamos apenas pensando em nos aperfeiçoar nas especialidades passageiras do mundo, vamos permanecendo neste vale de lágrimas por mais tempo e criando raízes profundas, que dificultarão nossa ascensão a planos mais altos. Há moradas infinitamente melhores que esta.
Raramente se ouve, entre os anseios humanos, o desejo de tornar-se mais útil aos semelhantes, de abandonar vícios nocivos, maledicências, apegos doentios, que nos tornam tão amargos quando poderíamos ser belas pessoas. Poucos planejam dedicar-se mais à iluminação de si mesmos e este é o caminho onde estão todos os portais da evolução, que facilitarão também as coisas terrenas. Sim, se estamos nesta dimensão, temos de ter os pés no chão, porém cada indivíduo pode dedicar um tempo e voltar-se também para a conscientização de sua natureza divina a realidade perene. Esta também precisa ser cuidada, para que sua chama não se atrofie e ele não seja arrastado para profundezas de escuridão, de onde não é tão fácil sair.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina
.
- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].





