ESPAÇO ABERTO
Comer lentilhas no ano novo
Abraham Shapiro
Leio várias explicações sobre o costume de comer lentilhas na noite da virada do ano. Querendo dar uma justificativa plausível, muitos reportam-se à história bíblica de Esaú e Jacob e do conhecido - e mal entendido - episódio da troca da primogenitura de Esaú por um prato de lentilhas. Li besteiras incríveis em relação ao fato. Uma delas dá conta de que Esaú entregou o seu direito natural de herdar os bens - que eram muitos - e as bênçãos de seu pai, Isaac, a seu irmão, só por causa de sua crença em que um prato de lentilhas o deixaria mais rico. Mentira. Pura besteira desinformada.
A venda da primogenitura entre os irmãos bíblicos nada tem em relação ao ano novo e muito menos com a superstição infundada de que as lentilhas relacionam-se à prosperidade. De acordo com o grande exegeta Judeu, Rabi Shimon Bar Yitschak, o Rashi, que viveu há novecentos anos, Jacob fazia um guizado de lentilhas por que é um costume Judaico comer ovos e lentilhas quando se retorna de um enterro para casa. Tanto um como outro são similares a um círculo e o luto é uma roda que dá volta ao mundo. Outro significado: as lentilhas são perfeitamente circulares e fechadas, não têm boca, por isso, lembram ao enlutado que deve guardar silêncio absoluto durante os três primeiros dias de seu luto, não respondendo nem mesmo ao cumprimento das pessoas.
Conforme a tradição, Esaú e Jacob voltavam do enterro de Abraham, seu avô. Jacob - bom cozinheiro que era - preparou o guizado de lentilhas vermelhas para seu pai, Isaac, como manda a tradição. Apenas isso.
Esaú, cuja bênção paterna sobre sua primogenitura o investiria da incumbência patriarcal de render sacrifícios a Deus, proclama ao irmão: Eis que caminho para a morte. Faz-me engolir, por favor, desta comida vermelha. As leis dos sacrifícios eram extremamente severas. Qualquer erro mínimo era drasticamente punido com morte. Esaú tinha tanta consciência de suas maldades que estava convicto de que certamente morreria no exercício de suas obrigações ou negligência. Tratou imediatamente de desfazer-se de sua primogenitura a troco, tão somente, de seu paladar. Em outras palavras, encarou sua primogenitura como algo vil, desprezível.
Como vemos, lentilha e prosperidade nada têm em comum sob a ótica bíblica. Apenas com o luto, com a morte. Portanto, não é um alimento de bom augúrio para se comer em um momento de elevados desejos em relação à vida, às pessoas e o tempo porvir.
Quanto à prosperidade, o povo Judeu tem o costume de comer romãs, abóboras e cenouras em seu Rosh Hashaná, o ano novo israelita, que acontece em setembro ou outubro. Mesmo assim, anteriormente à ingestão de cada alimento, os votos ditos em voz alta mencionam tão somente prosperidade de boas ações, caridade e atos de justiça. Nada a ver com dinheiro.
Abraham Shapiro é consultor em Comportamento Organizacional e Liderança. Dúvidas: [email protected]
Um adeus sem aplausos
Gaudêncio Torquato
As contas de 2005 exibem um enorme débito de atores e instituições para com o país. Sob o prisma político, 2005 deixa a desejar. A entrevista-bomba de Roberto Jefferson sinalizava um ciclo de grandes eventos. No início da crise, há 7 meses, as perspectivas apontavam para a cassação de 30 parlamentares. A conta registra: 2 cassações, 2 absolvições e 4 renúncias. Muito pouco. O ano foi ruim na esfera dos projetos de lei. O pior dos últimos 10 anos. Aprovaram-se apenas 75 matérias. As CPIs trabalharam bem, mas não sabem como chegar ao fim. De 0 a 10, a nota é 4 para a esfera política.
No âmbito do Executivo, o ano também apresentou parcos resultados. O País patinou. A administração foi caótica. Poucos ministros sobressaíram, particularmente Antonio Palocci, da Fazenda, Celso Amorim, das Relações Exteriores, Furlan, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Roberto Rodrigues, da Agricultura. Mas este, coitado, ficou refém da febre aftosa. Mais da metade do Ministério de Lula é um imenso espaço em branco. Estradas esburacadas, crescimento pequeno do PIB, saúde devastada e identidade social do governo completamente destroçada. O Fome Zero ganha zero de nota. O Bolsa Família oxigena o pulmão social, na medida em que distribui bolsas para cerca de 8 milhões de famílias. O programa, porém, é assistencialismo puro. De 0 a 10, a nota é 3 para o Executivo.
O Poder Judiciário passa a idéia de ter sido mais ágil. A Justiça está querendo se aproximar da sociedade, abrindo suas portas, facilitando a chegada dos cidadãos a seu Templo. Como um todo, o Juciário merece nota 7,5.
Se há um fenômeno que merece elogios é a organicidade social. A sociedade está atenta. Temos cerca de 500 mil organizações não governamentais, entre as quais 300 mil catalogadas pelo IBGE. Essas entidades de intermediação social estão dando respostas mais satisfatórias às demandas dos grupamentos sociais que a representação popular no Parlamento. O Brasil começa a abrir os horizontes da democracia participativa. Por isso, a esfera social ganha a nota 10.
E aqui vai uma projeção. Quem estiver pensando que a campanha eleitoral de 2006 será semelhante a de 2005 cairá do cavalo. A sociedade está mais atenta às falsificações. Não mais aceita comprar gato por lebre. As campanhas serão mais objetivas, mais enxutas, mais transparentes e com diferencial no discurso. O candidato terá o desafio, ainda, de comprovar a viabilidade do que está prometendo.
E o que será do PT? Em 2002, o partido fez a maior bancada federal, elegendo 91 parlamentares. E conseguiu maioria na Assembléia Legislativa de 6 Estados. A previsão para 2006 é ruim para o PT. Calcula-se que o partido perderá uns 20 milhões de votos, devendo eleger uma bancada de 50 parlamentares. A não ser que o Partido consiga passar uma cera brilhante na estrelinha, passar água benta na imagem destroçada e ressuscitar como Lázaro. Ou seja, o PT precisa operar um milagre para voltar, no curto prazo, a ter a mesma força de outrora. Por último, uma mensagem de otimismo aos leitores pelas palavras do profeta Zaratustra: Mil caminhos existem, que ainda não foram palmilhados, mil saúdes e ocultas ilhas da vida. Ainda não esgotados nem descobertos continuam o homem e a terra dos homens. Felicidades, properidade e paz!
Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político.
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