ESPAÇO ABERTO
Ainda o vestibular da UEL
Geraldo Luiz de Souza
Neste domingo teremos o início da segunda fase do vestibular da UEL. Muitos questionamentos foram levantados a respeito da prova de Conhecimentos Gerais, porém a COPS restringiu-se a admitir um único erro em seu gabarito provisório. É preciso que se reconheça que este vestibular apresentou sérios problemas em sua concepção bem como em sua execução. Em várias oportunidades já se disse que as inciativas da UEL em dar um novo enfoque ao vestibular são muito bem-vindas e influenciam diretamente o conteúdo e as estratégias didático-pedagógicas das escolas da região. Numa perspectiva mais interpretativa e relacional em detrimento da simples memorização, questões muito interessantes têm sido elaboradas. No entanto, alguns aspectos merecem questionamentos.
A abordagem dos conteúdos ao privilegiar textos por demais acadêmicos impossibilitou que os vestibulandos pudessem realizar a prova devido à preocupação com o tempo. Para um acadêmico talvez fosse possível cumprir tal tarefa, mas não para um aluno do Ensino Médio. Muitas questões eram específicas demais. Não tem sentido numa prova de Conhecimentos Gerais duas questões abordarem a concepção de um mesmo pensador sobre determinado tema ou ainda querer que o vestibulando domine conceitos específicos de um assunto. É descabido também o tratamento privilegiado dado às Humanidades em detrimento de outras áreas do conhecimento. Não é justo numa prova que se dispõe a avaliar múltiplas habilidades e conteúdos restringir-se a possibilidade do candidato mostrar seus conhecimentos e habilidades também em outras áreas do conhecimento.
Há, porém, um problema muito mais grave na condução do vestibular. Numa prova eliminatória é preciso um cuidado redobrado para que o candidato eliminado não tenha dúvidas quanto a sua eliminação por não ter atingido o desempenho esperado. Infelizmente também neste aspecto a COPS falhou. A falta de rigor e objetividade na elaboração das questões permite questionamentos de conceitos e até de gabaritos, cujas interpelações têm sido respondidas de maneira autoritária apelando para possíveis deduções que o candidato deveria fazer. É contraditório que a mesma COPS que alardeia sua preocupação com a capacidade do aluno em elaborar soluções diferentes para uma situação não reconheça que determinada solução possível não tenha sido contemplada entre as alternativas apresentadas e, portanto, anule a questão.
Outro problema foi a incapacidade de perceber que os treineiros (alunos que realizam o vestibular, mas sem possibilidade de matricular-se na universidade por não terem concluído o Ensino Médio) deveriam ter sido identificados como tal e não arrolados com os demais candidatos. Assim, candidatos que não poderão matricular-se estão concorrendo e outros que poderiam matricular-se terão que esperar mais uma ano. A falha é até admissível, mas tentar justificá-la ou minimizá-la é inaceitável.
GERALDO LUIZ DE SOUZA é professor de História e Filosofia em Londrina
Outro estudante para outra universidade
Rodrigo Mioto dos Santos
A prova de Conhecimentos Gerais aplicada pela UEL na primeira fase do vestibular gerou diversas críticas. Foi acusada de demasiadamente extensa, ser para o terceiro grau (nível superior) e de valorizar as humanidades, em especial a Filosofia. Ocorre que nos últimos anos a UEL vem inovando ano após ano seu processo vestibular, tornando-o algo que cada vez mais pede (exige) um ser pensante, com capacidade de crítica perante atos e fatos. Todo o assombro (e a correspondente crítica) que o Vestibular 2006 causou fornece-nos um dado interessante: a UEL vem alcançando os resultados a que se propõe, em especial, o de trazer para dentro de seus muros um outro estudante.
O modelo de cursinho pré-vestibular com salas de aula abarrotadas por centenas de alunos, de marcar um x correto, da fórmula decorada por macetes está falido! Para prestar UEL ele não serve mais. É evidente que a prova pode conter um ou outro problema, que uma ou outra questão tenha sido mais exigente do que deveria, mas o que não se pode negar é que acusar a prova de extensa e filosófica, em boa medida consiste num recurso lingüístico para ocultar o fato de que a maioria esmagadora dos concluintes do Ensino Médio hoje não gosta nem de ler nem de pensar.
A verdade é que compreender o tempo e suas infinitas relações com o social (como algumas questões exigiram) é algo que exige um tipo especial de reflexão, pouco comum ao jovem de hoje. O vestibular da UEL a cada dia contribui mais para o desaparecimento de um modelo de ensino onde as informações são guardadas nos moldes de uma conta bancária através da memorização linear de pedaço por pedaço dos conteúdos (conforme o Projeto Político Pedagógico Institucional da UEL). O documento ainda afirma que considerando o efeito retroativo do vestibular, principalmente no ensino médio, a UEL deliberou por uma nova estrutura de processo seletivo para ingresso nos cursos de graduação. E conclui: Com esta nova estrutura espera-se que a escola de ensino básico redirecione as tarefas de ensino-aprendizagem para formar cidadãos e não apenas transmitir informações como, na maioria delas, tem sido feito.
Percebe-se, pois, que o Vestibular 2006 não é por acaso. A UEL vem atuando em dois importantes flancos: de um lado, alterou seu modelo de vestibular; por outro, iniciou (e na maioria dos cursos já concluiu) uma reformulação dos projetos pedagógicos de cada um de seus cursos de graduação, adequando-os a uma outra pedagogia. Se tudo isso surtirá os resultados desejados (ainda) não é possível afirmar. Contudo, é inegável que a UEL vem, dia após dia, despejando caminhões de areia nas engrenagens do sistema tradicional de formação educacional, razão pela qual merece - além de uma ou outra merecida crítica - os mais sinceros e profundos elogios.
RODRIGO MIOTO DOS SANTOS é bacharel em Direito pela UEL e mestrando de Filosofia e Teoria do Direito na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
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