O ambiente e o modelo agrícola no Paraná

Luiz Eduardo Cheida
  ‘‘A gente não se liberta de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau’’ (Mark Twain). O modelo de desenvolvimento agrícola do Paraná deu certo. Somos apenas 2% do território nacional e respondemos por mais de 23% de sua produção de grãos. Para tanto, desmatamos 96% do território; jogamos dentro dele, a cada ano, 40 milhões de quilos de agrotóxicos (66 quilos por minuto) e nos tornamos os campeões nacionais de câncer de fígado e de pâncreas. Nas lavouras de fumo, a taxa de suicídio entre adultos jovens, a taxa de câncer entre crianças de até 10 anos e o índice de lesões neurológicas, é excepcionalmente maior que em outros locais do Estado.
  No Arenito Caiuá, a concentração de nitrato em lençóis freáticos, já supera em até 80 vezes o máximo permitido. A perda de solo, em que pesem nosso pioneirismo e êxito no manejo de solo, continuam inaceitáveis (só o rio Ivaí carreia ao rio Paraná mais de 2 milhões de toneladas de solo ao ano). Nesta década, o número de espécies ameaçadas, dentre elas, nossa árvore-símbolo, passou de 167 para 344. Para completar, 70% das propriedades rurais são pequenas, e tem renda média mensal de apenas R$ 800,00, segundo o IPARDES e o IBGE. A baixa renda agrava os problemas ambientais. O que faz, um agricultor cortar a mata ciliar para vendê-la como carvão? O que o impele a dilapidar a propriedade, às raias da insensatez, senão a necessidade de sobreviver?
  Ambiente equilibrado não se coaduna com acumulação a qualquer custo. Tampouco, com miséria. Ambos, o excessivo querer e o nada ter, são inimigos do equilíbrio ambiental. O modelo agrícola do Paraná deu certo. Mas, é preciso perguntar: para quem? Até porque, rápida análise já acusaria a brutal interferência no ambiente, um inaceitável complexo de doenças daí decorrentes e a pauperização de boa parte dos agricultores. Um modelo agrícola ambientalmente questionável, economicamente injusto e socialmente excludente. Deu certo para quem?
  Entretanto, parece que a voz da razão começa a ser ouvida. Um número cada vez maior de agricultores está convertendo suas propriedades para modelos ecologicamente viáveis. Em 2004, já eram 4 mil deles, em 12 mil hectares a uma produção de 66 mil toneladas. E, a um crescimento do setor de 20% ao ano. O governo impele o setor, financiando propriedades com R$ 6.000,00 caso converta-se a práticas ecológicas; iniciando a Merenda Escolar Orgânica, ao comprar de produtores certificados. A meta é alimentar um milhão e trezentas mil crianças ao dia. Mercado garantido, menos agrotóxico, saúde às crianças.
  Não vamos, porém, ser ingênuos. Trata-se da substituição de um modelo. Que só se faz através do confronto de idéias. Para vencer é preciso vontade mas, sobretudo, tenacidade. Como contra um vício: degrau por degrau. A Natureza também age assim. Não custa imitá-la. Afinal, queremos mais do que nunca que o modelo de desenvolvimento agrícola do Paraná dê certo. Para todos.
LUIZ EDUARDO CHEIDA é secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná


Direitos Humanos

Elza Correia
  São 57 anos de existência da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948. No período de sua criação o contexto era do nazismo contra judeus, comunistas, ciganos e homossexuais; lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki. A elaboração da Declaração foi uma resposta a estas atrocidades e a partir dela foram adotados inúmeros tratados internacionais com o objetivo de proteger os direitos fundamentais do ser humano. Globalização, atentados terroristas, discriminação de raça e etnia, de gênero, de classe social e econômica, fome, miséria, desemprego, fazem parte do contexto mundial na atualidade. Isto nos faz refletir sobre os avanços e sobre o muito que ainda temos a conquistar. Não podemos deixar de reconhecer que um dos legados mais importantes do século XX foi a elaboração de um conjunto de normas internacionais que contemplam a ação humanitária, o estatuto dos refugiados, o direito penal e os direitos humanos.
  É o conjunto destas normas, tratados, leis, que se aplicadas de forma eficaz, podem garantir os direitos humanos. Infelizmente, é neste ponto que ainda encontramos falhas e onde devemos concentrar nossa luta. Dentre todos os direitos humanos a questão de gênero que perpassa tantos outros direitos sistematicamente desrespeitados - raça e etnia, trabalho, saúde, desemprego - é especialmente marcada neste período através da campanha ‘‘16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres’’. Essa Campanha foi criada pelo Centro Global para a Liderança da Mulher em 1991 e conta com a participação de 1.700 organizações em cerca de 130 países, que realizam um conjunto de ações e manifestações públicas pelo fim da violência contra as mulheres, entre os dias 25 de novembro, proclamado pelas Nações Unidas como Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
  No Brasil, os eventos começam mais cedo, no Dia da Consciência Negra, 20 de novembro. Além dos movimentos sociais, de mulheres e de direitos humanos e do poder Legislativo, a Campanha também tem apoio do Executivo Federal. Uniram-se à iniciativa a Comissão de Direitos Humanos e a Ouvidoria da Câmara dos Deputados, além da Rede Feminista de Saúde, que integra mais de 180 organizações não-governamentais. A escolha da data da campanha se deu justamente com o objetivo de estabelecer esta conexão entre violência de gênero e direitos humanos. Por isso aproveitamos esta data para através deste artigo divulgar uma vez mais, a urgência do envolvimento de toda a sociedade na luta contra todos os tipos de violência, em especial a de gênero, ponto fundamental na garantia dos direitos humanos.
ELZA CORREIA é deputada estadual (PMDB) e presidente do Conselho Estadual das Mulheres do Paraná


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