Aftosa e autonomia tecnológica

Sérgio Roberto Dotto
e Florindo Dalberto
  Se há ou não focos de aftosa nos rebanhos do Paraná, uma coisa é certa: a economia do Estado perdeu e continuará perdendo muito. E o debate também. Monótono como em outras situações semelhantes no passado, oscila na dobradinha vacinação e fiscalização e não avança para questões de fundo e de longo prazo. Raramente se discute, por exemplo, a necessidade de arranjos institucionais mais avançados na área de ciência e tecnologia para a agropecuária.
  O Paraná concentra uma fatia significativa do agronegócio brasileiro. Considerado juntamente com seu desdobramento de transformação - a agroindústria - o setor é responsável por quase metade do PIB estadual. Não é demais lembrar que a manutenção dessa posição demanda contínuas e crescentes respostas tecnológicas para garantir alto nível de eficiência. A competitividade de nosso agronegócio depende de investimentos estratégicos em conhecimento científico e tecnológico - pesquisa, habilitação de pessoal, laboratórios, sistemas de fiscalização, etc. - que significam, em última instância, criar a capacidade de se antecipar a ocorrências indesejadas (como a aftosa e a iminente gripe aviária) e, mais importante, de lidar com situações que exigem conhecimento especializado. Novos desafios técnicos se impõem continuamente.
  O problema da aftosa, entre outros (como a recente recusa de soja pela China, por exemplo), enseja um ótimo ‘‘gancho’’ para repensar nossas instituições e nossa competência científica no agronegócio. O Iapar, por exemplo, é reconhecidamente um instituto de importância estratégica, mas há muito tempo requer um reordenamento para que continue a dar respostas efetivas. Outro exemplo é o das nossas universidades estaduais: elas têm ótimos quadros e cursos nas ciências agrárias, mas que operam de forma desarticulada, se perdem em brigas corporativas e geram impacto apenas pontual.
  Com um agronegócio tão importante, o Paraná pode continuar com a fragilidade tecnológica e institucional que temos hoje? Eis o ponto. A resposta não depende apenas do governo. Requer uma gestão compartilhada, um pacto em torno de um projeto de futuro que tenha na questão tecnológica sua marca de emancipação. Afinal, um Estado sem capacidade tecnológica perde autonomia, e fica à mercê do conhecimento e interesses de outras unidades da federação, do governo federal e até de outros países.
SÉRGIO ROBERTO DOTTO é presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Londrina e FLORINDO DALBERTO é presidente da Associação do Desenvolvimento Tecnológico de Londrina e região (Adetec)


Defesa do patrimônio público, um direito

João Chiminazzo Neto
  A Associação Brasileira das Concessionárias de Rodovias (ABCR) ocupa este espaço para se defender de acusações publicadas no editorial desta Folha de Londrina em 09/12. Visamos especificamente esclarecer que em nenhum momento a ABCR atuou de forma a ‘‘impedir movimentos populares’’ contra o pedágio. Aparentemente o acusador não obteve informações suficientes sobre o episódio desta semana, em que setores da imprensa flagraram uma reunião com o objetivo de organizar invasões às praças de pedágio no Paraná, sob o pretexto de pressionar pela redução das tarifas. Vamos aos fatos.
  Houve uma reunião com o objetivo de organizar invasões. Não é nossa conclusão. É da imprensa da capital, que testemunhou e entrevistou participantes, que por sua vez confirmaram o teor dos discursos. Somente no dia seguinte ao da reunião, em meio à repercussão negativa do flagrante, surgiu a versão de que se estava produzindo uma ‘‘caminhada pacífica’’ de protesto.
  O editorial encampa a versão de que o movimento em questão é apoiado por cerca de 200 entidades da sociedade civil, inclusive de fora do Estado. Mais uma vez, essa é a versão do organizador. A ABCR estranha que jamais tenha sido contatada por qualquer uma dessas entidades. E pergunta à Folha: quais são essas duzentas pessoas jurídicas? Como são financiadas? Precisamos saber, pois em seu nome tal movimento exige saber ‘‘a verdade’’ sobre o pedágio. A ‘‘verdade’’ está nos números, nas planilhas, que por sua vez estão à disposição de qualquer cidadão comum ou entidades sociais, no DER.
  A ABCR não buscou delações para chegar aos nomes dos organizadores de tal movimento. Eles são os mesmos de outras ocasiões. Em menos de quatro anos as 27 praças de pedágio foram invadidas cinco vezes. Destas ocupações resultaram depredações e acidentes. Com base nesses antecedentes, e alertada por pessoas e entidades convidadas a participar do próximo ato (mas que não aceitam tal estratégia) a ABCR achou por bem se precaver. O anúncio cifrado, por mais ‘‘ridículo’’ que soe, serviu bem a seu propósito, que foi o de revelar os bastidores dessa movimentação. Finalmente, repudiamos o caráter de ‘‘ranço ditatorial’’ às nossas atitudes, apesar de identificar tal traço numa manifestação parcial sobre um tema tão complexo.
JOÃO CHIMINAZZO NETO é diretor regional da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias no Paraná (ABCR-PR)
Nota da Redação:
A Folha respeita a opinião da ABCR mas mantém sua posição em relação ao pedágio, na forma como ele é cobrado. Lamentamos que o artigo do seu presidente, João Chiminazzo Neto, não responda à crítica referente aos preços, publicada na mesma edição (coluna Informe Folha). Foi dito que o pedágio cobrado em Ibiporã é de R$ 8,60 - equivalente a quase 4 dólares enquanto nos Estados Unidos cobra-se, em média, 40 centavos de dólar (R$ 1,00).


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