ESPAÇO ABERTO
O vil metal
Christian Steagall-Condé
O consultor Abraham Shapiro acerta quando enfoca a palavra proibida e banida das universidades (no artigo E por falar em dinheiro, Folha 28/11) como se fosse espécie letal de indesejável carcinoma o qual, pela nossa natureza, teremos que conhecê-lo, cultivá-lo e, estranhamente, desenvolvê-lo, algum dia: o tal de Dinheiro, aqui grafado com maiúscula.
Algum ano do século passado. Local: simpática edificação em madeira no Campus Perobal da UEL, em algum centro acadêmico. Mote: reunião para decidirmos o que decidir, durante greve já decidida, propostas várias dos administradores-de-me-sadas, exceto aquelas relacionadas a trabalho, o que hoje chamamos pomposamente de em-preendedorismo. Minha vez de falar (lembrei-me de Paulo Francis e seu todo jovem é idiota): Pessoal, tem coisa no currículo virei-o do avesso e não há nada que nos fale de Dinheiro. Gargalhadas gerais, inclusive minhas, continuei: Temos que ter aulas de Dinheiro ou algo assim, o canudo vai chegar e mal sabemos o peso de um tijolo. Novas gargalhadas. Ouvi a frase questão de ordem, compa-nheiro, saí e fui carpir o meu café.
Mais tarde, pude compreender que nossa sui generis formatação nacional latina e, por conseqüência, católica (de tosca e favelizante fachada), parece ter incutido em nosso DNA um distanciamento seguro com as questões do Diabo, digo, Dinheiro, quando ele ocorre na vida dos brasileiros quer por sorte, herança, talento, acaso, persistência, imaginação, afinco, visão, oportunidade ou pitadas de um pouco disto tudo recombinados, parece sempre algo constrangedor e não são poucas as pessoas prósperas e de meu conhecimento as quais, no íntimo e no particular, não fazem a mínima idéia de como é que aquilo pode ocorrer em suas vidas (exceção feita aos creus de infatigável plantão, religando-se em esferas metafísicas e tirando do homem a responsabilidade em seu destino), restando-lhes usufruí-la enquanto podem e ao melhor modo, segundo convenções atualmente em voga.
Um pouco de Dinheiro (essa formidável energia fabricada e transformada pelo e para o homem em forma de papel colorido), se e quando falado no momento certo de nossas formações juvenis, poderá até mesmo reconfirmar a importância insubstituível do ser no lugar do ter, uma vez que poderemos entender melhor do que se trata e qual é a sua real serventia. Caso contrário, ficaremos sempre a reboque da história e reféns das circunstâncias (quando não de abjetas religiosidades), mal exigindo nossas insípidas cidadanias as quais, pasmem os inocentes, passam também por questões do injustamente rotulado vil metal.
CHRISTIAN STEAGALL-CONDÉ é arquiteto e designer em Londrina
Lula: uma esperança, uma fraude
Agnaldo Kupper
Fundado em fevereiro de 1980, no Colégio Sion, cidade de São Paulo, pregando moratória da dívida externa, estatização dos setores essenciais e reforma agrária, o Partido dos Trabalhadores, justamente em suas bodas de prata (2005), mostra ser uma das maiores fraudes da história contemporânea. E dói-me admitir. A figura de Luiz Inácio Lula da Silva sempre se confundiu com a do PT e a trajetória deste partido foi, aparentemente, recheada de coerência.
Mas o que levou Lula à vitória em 2002? A resposta não requer muitas explicações: o Plano Real faz desabar a inflação no país, mas conduziu-nos, definitivamente, ao neoliberalismo. Resultados: a dívida interna brasileira saltou de 154 bilhões de reais em 1995 para 881 bilhões em 2002; os bancos tiveram suas rentabilidades triplicadas nos oito anos de governo FHC; a dívida externa de 145 bilhões de dólares (1998) saltou para 240 bilhões em 2002; o desemprego teve sua taxa elevada em 45% nos dois mandatos tucanos; o país saiu da posição 69 para a 73 em IDH; a violência urbana atingiu índices alarmantes; o avanço do MST assustou e caracterizou-se como movimento social consistente e de grande penetração.
Assim, Lula, ao receber 53 milhões de votos contra 33 milhões dados a Serra, venceu muito mais pelos comprometimentos deixados pelo governo FHC do que pela competência petista. Eleito, Lula assumiu em 1º de janeiro de 2003. Seus principais desafios: enfrentar a alta de juros, desmantelar a fome, fugir do FMI, acalmar o MST, minimizar a crise social.
Mas começou nomeando Henrique Meirelles (associado aos banqueiros) para a presidência do Banco Central. Justificativa: acalmar o mercado financeiro. Mais: ao elevar a taxa de juros, anunciou sua política monetária ortodoxa. Para desespero dos radicais de esquerda, o governo encaminhou ao Congresso as reformas tributária e da previdência. Para aprová-las, barganhas e favorecimentos. O Fome Zero, com apoio popular a princípio, virou motivo de zombarias. Em 2005, explodiu a crise governamental, com acusações de corrupção envolvendo congressistas, no famoso mensalão, como citou o então deputado federal fanfarrão Roberto Jefferson (PTB-RJ).
No que crer? Talvez Lula tenha sempre agido, juntamente com seus companheiros, da forma como age como presidente. Uma fraude que dói, fragilizando ainda mais a democracia brasileira, recheada de votantes, de desrespeito às minorias e maiorias e de partidos frágeis que tramam. A eleição de Lula, para muitos (inclusive a mim), significaria a mudança de rumos ou o posicionamento do país para um projeto mais próximo aos interesses dos cabras. Não o foi, não o será.
O sonho dos petistas honestos foi golpeado. O silêncio destes demonstra tristeza e decepção. O PT e Lula não contribuíram com a busca de utopias. Ao contrário, fazem-nos acreditar ser tolice buscá-las. Assim, anos serão necessários para que seja recuperada a idéia de luta por uma sociedade mais justa e menos hipócrita. Eis o maior pecado de Lula.
AGNALDO KUPPER é professor de Sociologia e História em instituições de ensino médio, cursos pré-vestibulares e ensino superior em Londrina
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