ESPAÇO ABERTO
Ser ou estar voluntário?
Rosa Yoko Okabayashi
Comemoramos hoje o Dia Internacional dos Voluntários criado pela ONU. Gostaríamos de prestar uma homenagem a todos aqueles que dedicam algumas horas ou dias por semana, mês ou ano, doando parte de seu tempo, de seus conhecimentos, suas habilidades ou recursos materiais ou financeiros para aquela parcela da população menos favorecida. Vivemos hoje uma complexidade moderna, combinando de um lado, características estruturais de desemprego, de violência, de concentração de renda, de pobreza e exclusão e, de outro, as consequências dos ideários neoliberais que podemos traduzir na área social, como o enfraquecimento do Estado, dado à necessidade de redução de gastos em serviços de saúde, educação, assistência social, transporte e outros. Nesse panorama, temos milhares de desassistidos que vivem (ou sobrevivem) graças à rede de solidariedade da sociedade civil, que presta os mais diversos tipos de serviços no sentido de amparar, acolher e doar. Queremos dar visibilidade à ação desses milhares de brasileiros voluntários e parabenizá-los pelo seu idealismo, pelo seu pragmatismo, pela sua solidariedade.
Todavia, é preciso que estejamos atentos no sentido de não confundirmos ser voluntário com estar voluntário. No primeiro caso, ser voluntário, identificamos aquela pessoa que faz do voluntariado, um exercício de cidadania, doa espontaneamente algo de si, por entender que está fazendo a sua parte enquanto cidadão. O ato de doar-se provém de um sentimento intrínseco de solidariedade, mas não se deixa sobrecarregar com ações que deveriam dividir com a coletividade. O ser voluntário contribui com a sua ação voluntária, mas não perde de vista a perspectiva que é do coletivo, que é da instituição ou do Estado. Baseia-se em pressupostos que o lançam na busca da real efetivação de direitos. E quem pode garantir direitos a esses milhares de desassistidos, não é o voluntariado em si, não é a rede de solidariedade civil ou as ONGs, mas o Estado através de políticas públicas.
E o que seria, na nossa concepção, estar voluntário? Estar voluntário seria um estado, uma condição. O ato da doação provém de outros interesses que não, o da humanização, da solidariedade, do fortalecimento, da cidadania. O suposto voluntário utiliza-se desta condição para fins exclusivamente particulares, pessoais ou profissionais. Neste dia 5, quero particularmente, parabenizar a Associação dos Voluntários do HU pelos relevantes serviços prestados à comunidade nesses últimos 26 anos e todos aqueles voluntários que atuam no Hospital Universitário (HU) e Ambulatório do Hospital de Clínicas (AHC), tendo em vista somar esforços aos da equipe profissional, contribuindo assim, para um atendimento mais humanizado.
ROSA YOKO OKABAYASHI é assistente social e presidente da equipe coordenadora do programa de serviço voluntário no Hospital Universitário de Londrina
A busca da serenidade
José Trigueirinho
No decorrer da vida podemos perceber que para estarmos sadios é importante cultivar a serenidade. Mas como conseguir isso? Como não nos deixar afetar pelo que sucede à nossa volta? Primeiro, temos de tomar consciência de que serenidade é um estado interno e, portanto, nada que esteja fora de nós deve ser empecilho para o manifestarmos. O mundo é o nosso campo de trabalho para testar o grau de serenidade que podemos atingir e, ao mesmo tempo, um estímulo para robustecê-la. Quando adquirimos neutralidade diante dos acontecimentos e seguimos nosso caminho sem dispersão nem desordem, não nos abalamos com circunstâncias. Vários fatores podem contribuir para nos tornarmos serenos, e um deles é a superação do medo.
Se compreendemos que a chamada morte é apenas um despojamento dos corpos materiais que usamos em nossa passagem pelo mundo físico, o medo vai desaparecendo e a serenidade pode instalar-se. Outro fator que nos ajuda a desenvolver a serenidade é estabelecer um ritmo ordenado e harmonioso em nosso dia-a-dia. Isso nos fará menos ansiosos para que as coisas comecem ou terminem segundo nossas expectativas, quase sempre sem fundamento real. Assim, podemos canalizar a atenção, o pensamento e o sentimento para o momento presente e não para um futuro que imaginamos. É a partir daí que a rotina diária não mais nos incomodará e, finalmente, poderemos perceber que a vida jamais termina.
O modo mais seguro de alcançarmos a serenidade é o alimento de nossa consciência humana, exterior, com nossos níveis espirituais, nossa alma. Condições propícias para isso são criadas quando aperfeiçoamos o nosso caráter, até mesmo no que diz respeito a certos costumes. Nosso cérebro precisa tornar-se adequado para esse alinhamento. Podemos prepará-lo ao retirar de nossos hábitos o uso do álcool e do fumo e ao levar em conta que a alimentação gordurosa e o excesso de açúcar também prejudicam o seu funcionamento. Também devemos prover suficiente repouso ao corpo, pois períodos de esforço prolongado impedem que o cérebro tenha a prontidão necessária para registrar o que a alma tem a dizer.
Se reservamos um momento durante o dia para estar em quietude e praticarmos esse aquietamento sem nenhuma busca de resultados, um dia nos daremos conta de que nossa mente ficou mais calma, mais concentrada e, por fim, nos encontramos serenos. Devemos saber que a compreensão do sentido da imortalidade, a vida ritmada, o alinhamento com a alma, tudo isso ocorre conforme o serviço que prestamos neste mundo. Mantermo-nos conscientes de que nossa vocação mais íntima e profunda é servir desinteressadamente, predispõe-nos à serenidade. Reconhecemos que não estamos no mundo simplesmente para fazer as coisas da forma egoísta, nem para fazê-las melhor que nossos semelhantes. Esse serviço é um portal para a serenidade. É que, quando temos uma meta espiritual altruísta uma meta evolutiva e quando nos dispomos, com todo o nosso ser, a cumpri-la, a vida diária se torna prolongamento da calma interior.
JOSÉ TRIGUEIRINHO é escritor e filósofo, com 74 livros editados sobre espiritualidade e coordena o Centro Espiritual Figueira, em Minas Gerais





