Reflexão sobre a realidade educacional

Renato Cristopher Santos
  O sistema capitalista voltado para sua ótica de expropriação não poderia deixar de fora um setor como a educação, tão fundamental para o desenvolvimento. O sucateamento desse setor ocorre em todos os níveis e, dessa forma, em última análise, as escolas públicas acabam produzindo cidadãos que caem no mercado de trabalho totalmente despreparados para o enfrentamento das dificuldades impostas por tal mercado.
  A idéia de livre concorrência contamina o meio estudantil de forma que os jovens pensam que, se não encontram um emprego depois de terminar os estudos, a culpa cai nos ombros deles mesmos, ou ainda a culpa é pelo fato de que sempre existe uma grande concorrência na busca pelo primeiro emprego.
  Idéias como essas, aliadas à falta de experiência profissional, frustram os nossos jovens. O problema não está nessa linha do pensamento liberal. Recorre-se, portanto a Gilberto Freyre e seu raciocínio acerca dos problemas educacionais brasileiros, colocando-os como de primeira grandeza.
  Na realidade, a falta de oportunidade ocorre por dois motivos básicos: a falta de políticas públicas voltadas para a capacitação do jovem através de cursos profissionalizantes e a falta de investimentos no setor da educação, dando ênfase no que tange à qualidade do ensino, em especial.
  Esta última deve ser empregada através da contratação de mais professores para a rede pública, investimento na reciclagem constante desses profissionais e disponibilização de maiores recursos para o acesso ao material de pesquisa dos professores e alunos.
  Dessa maneira, tanto a inserção no mercado de trabalho pós-estudos, quanto à entrada na universidade pública se tornam mais real, ou seja, mais próxima de uma realidade tão cruel enfrentada pelos alunos de forma inconsciente e não discernida pelos mesmos.
  A chave para uma sociedade mais igualitária e fraterna, com menos desigualdades sociais e até mesmo menos violência, está nas mãos do governo e deve ser utilizada no setor educacional, pois somente com investimentos nesse setor é que os nossos jovens poderão ter um acesso com maior garantia às ocupações pertinentes a esta realidade social e excludente.
RENATO CRISTOPHER SANTOS é cientista social em Londrina


A insana luta das concorrências

Walmor Macarini
  O que é o denominado concorrente senão um ser humano igual a mim? Por que é que, se estamos no mesmo ramo de negócio, eu tenho de detoná-lo? Somos parceiros e devemos é partilhar experiências e conhecimentos, afinal lidamos com a mesma freguesia. Mas as escolas de formação empresarial ensinam a detonar o que chamam concorrência. Qualquer ensinamento acadêmico nessa área aponta todas as armas na direção dela.
  Mas quem são os ditos concorrentes? Seriam bárbaros, extraterrestres dominadores, vírus temíveis, seres medonhos oriundos dos umbrais? Não. Eles são seres humanos. Co-irmãos. São filhos iguais aos nossos filhos, pais e mães iguaizinhos aos nossos, são pessoas exercendo a vida da mesma forma que nós. Essas escolas de terrorismo ensinam técnicas, que apregoam como avançadas, visando o que? Visando que uma empresa arrebente a outra que atue no mesma atividade.
  Devo dizer que, como empresário que fui e como profissional, fiz inúmeros cursos desse gênero, no passado. O único do qual tirei proveito foi o de relações humanas no trabalho. O mais eram técnicas de derrubar o tal concorrente ou ludibriar o consumidor, através de artifícios. Cito, por minha conta, o do tipo R$ 99,99. Não compro em loja que se utiliza desse ardil e que pensa em me seduzir ao preço de 1 centavo – na verdade uma declaração de que o freguês é bobo.
  Também considero uma inverdade a loja afirmar que o preço a prazo é o mesmo do preço à vista. Sabe-se que esta é uma artimanha para ganhar, principalmente, na especulação financeira. É uma forma de agiotagem. Não compro onde o primeiro argumento é o R$ 0,99, o ou o defeito do produto similar do vizinho, ou o canto da sereia do preço idêntico a prazo e à vista. As agências de propaganda não deveriam produzir anúncios com tais apelos, nem os que falem de concorrências. Por que não ater-se apenas a exaltar as excelências do produto?
  Concorrência é produzir bem, e sempre melhor, visando o barateamento do produto e a satisfação do cliente, mas sem visar a aniquilação de ninguém. Não há que competir, mas partilhar experiências. Assim, todos ganhariam, e o mundo seria melhor. Porque a concorrência estribada na litigância leva às guerras. Todas as guerras são oriundas de pequenas concorrências, que vão se expandindo até transformar-se em confronto de nações. A competitividade só é boa quando visa melhorar o produto, mas que isto não seja para prejudicar os parceiros do ramo e sim beneficiar o consumidor.
  Se todos os que produzem café buscassem trocar informações entre si, no sentido de fazer o melhor, só haveria café bom. O café passaria a ser sempre a lembrança de algo bom. Se uma região fabrica bom sapato, por via da permuta de experiências entre todos os fabricantes, esse sapato será glorificado por quem for calçá-lo, e todo produto oriundo desse ponto será referência de coisa boa. Nem precisará de marca, bastará a origem. Para ganhar não é preciso subtrair de ninguém. Ou esse ganho não será duradouro, pela razão de estar contaminado por um vício.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


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