Ansiedade sexual dos pais

Moacir Costa
  Qual a importância que você dá às tradicionais brincadeiras de médico? Aqueles jogos ingênuos da infância que para o adulto vêm carregados de grande sensualidade? Como agir diante de uma brincadeira que seu filho faz com uma menina? Os pais costumam ficar de antena ligada, e extremamente angustiados, quando o jogo é feito entre crianças do mesmo sexo. Mas assim que o menino começa a se interessar pelo outro sexo, os pais sentem como tivessem recebido um prêmio. É uma conquista. Porque são homens que, em geral, tiveram uma sexualidade empobrecida, carregada de conflitos e acabam buscando a realização através dos filhos, é o chamado ‘‘comportamento homofóbico’’, fonte de sofrimento de muitos homens. É bom saber que a percepção da criança não tem, nessas circunstâncias ainda, nenhum sentido erótico. Ela brinca porque sente cócega, tem uma sensação agradável, mas difusa, e uma curiosidade permanente em conhecer o corpo. Bem diferente do que sente o adulto, que já tem um amadurecimento neurológico e psicologicamente disponível, às vezes mal utilizado.
  A brincadeira de médico ou qualquer outra representação que a criança faça, como se vestir de enfermeira ou militar, é a forma que ela tem de testar suas hipóteses enquanto futuro homem ou futura mulher e a oportunidade de começar a desenvolver a sua identidade sexual. Esses jogos passam a ter uma importância na sexualidade que irá se desenvolver na adolescência e na vida adulta. É importante os pais entenderem que esses jogos infantis não levam a nenhum distúrbio e não representam nenhum desvio sexual para a vida futura. Mas quando a criança é reprimida ou proibida de expressar suas vontades, aí sim, pode ter problemas mais tarde. Criança que não brincou, certamente vai apresentar maiores dificuldades no seu relacionamento social e afetivo. Como ela ficou curiosa e insatisfeita, terá muito mais chances de se tornar um adulto inseguro, sempre interessado em olhar pelo buraco da fechadura, idealizando uma situação que nunca conseguiu desfrutar.
  Ainda que a criança brinque com outras do mesmo sexo, o temido troca-troca, não terá nenhum dano psicológico e nenhum bloqueio sexual. Essa experiência, comum no sexo masculino, não é vivida com constância pelo feminino, já que as mulheres têm maior dificuldade em tocar a área genital. Isso não quer dizer que as meninas não sintam curiosidade. As de hoje são mais precoces, mesmo porque os meios de comunicação estimulam a conquista e a nudez. A televisão, por exemplo, estimula constantemente a criança a imitar os adultos. As meninas aprendem e incorporam muito cedo uma postura mais sensual, deixando de lado a sua natural espontaneidade. O sonho é desfilar como modelo ou ser atriz e alcançar o sucesso a qualquer preço. Os jogos e brincadeiras têm um papel significativo na formação da personalidade e no desenvolvimento emocional da criança. Entretanto, é bom lembrar que os adultos que conseguem brincar eroticamente apresentam uma diminuição da sua ansiedade e tem uma garantia maior do prazer.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo


O beijo que não aconteceu

Mary Neide Damico Figueiró
  Por meio da novela América, pudemos acompanhar a história de Júnior, o garoto gay, filho da viúva Neuta. Para os últimos capítulos, estava previsto um possível beijo entre ele e seu primeiro namorado, o que acabou não acontecendo. O beijo na boca é uma possibilidade de manifestação de amor e carinho entre as pessoas. Nas décadas de 60 e 70, o beijo na boca era considerado um ato indecoroso e reprovável, seja em local público, ou na TV. Com tempo, ele passou a ser praticado livremente, e os adultos (nem todos, infelizmente) aprenderam a encará-lo sem maldade e tabu.
  Foi bom não ter acontecido o beijo entre o casal gay, na novela, pois ainda não era o momento. As pessoas, em sua maioria, não estão preparadas para esta cena e a novela, até o ponto em que foi, trouxe grandes contribuições para a questão da homossexualidade. Mostrou a luta de Júnior e o seu sofrimento por não aceitar sua orientação sexual e por viver escondendo uma parte importante de sua pessoa. Ensinou que o sentir atração por pessoas do mesmo sexo é inerente à personalidade do indivíduo, que não é uma questão de opção e que ser homossexual não diminui em nada o indivíduo. Deixou claro o quanto o fato de nossa sociedade mostrar-se preconceituosa com esta questão dificulta, sobremaneira, a vida das pessoas que se descobrem homossexuais.
  Vimos o esforço de Júnior, em vão, para apaixonar-se por uma garota. A figura de Elis, a mulher com quem se casou para disfarçar sua orientação sexual, teve um papel fundamental: ela lhe deu apoio emocional, ajudando-o a compreender o que se passava consigo próprio e incentivando-o a ser ele mesmo. Educadores podem exercer o papel amigo e orientador dos garotos e garotas em dúvida com sua orientação sexual, desmistificar a homossexualidade e promover o respeito à diversidade sexual. O êxito da vida acadêmica de cada estudante está atrelado à qualidade das relações humanas no espaço da escola.
  Diante do assunto ou de pessoas homossexuais, a maioria fica constrangida e, para resolver isto, foge do contato com elas e evita pensar a respeito. Isto só intensifica o preconceito. Atualmente, a vida exige de nós, com urgência, que estejamos abertos a rever nossos conceitos e que busquemos compreender a diversidade sexual como inerente à condição humana. A mudança de atitudes é um processo moroso e para que ela aconteça é preciso, primeiramente, que os comportamentos que se queira instalar aconteçam várias vezes. Muitos comportamentos que antes eram tidos como perversões, hoje são encarados como possibilidades. Assim como o beijo na boca, heterossexual e em público, custou para ser assimilado pela cultura, acredito que o beijo entre iguais também o será, pois, como todo ser humano, os homossexuais também têm o direito de manifestar seu amor e carinho.
MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é psicóloga, doutora em Educação, especialista em Educação Sexual pela Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana e professora do departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina


- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup