ESPAÇO ABERTO
O avá-guarani, o delegado e a Justiça
José Maschio
A cena apareceu no telejornal. O delegado federal foi incisivo: Ou você fala português ou não fala. A observação era para o índio avá-guarani, líder de um grupo que há dois meses e meio ocupa seu território ancestral, o Parque Nacional do Iguaçu. O líder avá iria determinar a saída dos avás do parque, cumprindo determinação de um juiz federal. O líder avá-guarani não falou. Foi humilhante ver o líder de uma nação que já foi grande ser impedido de falar em seu idioma com seu povo. Mesmo que fosse para obedecer à injusta determinação da Justiça da supremacia branca.
O policial federal e o juiz que determinou a saída dos avás do parque podem alegar que obedeciam às leis. E a lei, feita pela supremacia branca, determina que o parque não pode ser habitado pelos seus históricos moradores, os avá-guarani. O parque pode ser explorado comercialmente e terceirizado para atrair turistas, de preferência gringos com moeda forte. Isso pode. É a tal parceria público-privada que agrada aos paladares neoliberais. É o tal do sr. mercado, outra invenção da supremacia branca.
Aos avá-guarani resta a miséria e o aniquilamento lento e desesperado na diminuta reserva demarcada para eles. Afinal, sua cultura não agrega valores econômicos ao Ibama e à Funai. Muito menos à sociedade mercantilista e cada vez mais insensível que temos. Pobres avá-guarani. Primeiro tomamos sua terra. Agora proibimos sua língua.
Mas tem também os ecologistas. Onde estão eles? Antes, quando da reabertura da Estrada do Colono, foram céleres em defender o fechamento da estrada, mesmo com todo prejuízo social para o confinado sudoeste paranaense que isso representou. Ou será que quando falam em defesa do ambiente não sabem que os índios pertencem ao meio? Será que 16 quilômetros de mata que a estrada corta são mais importantes para os nossos ecologistas que toda uma história da nação avá-guarani.
Em breve o Ibama e os mercadores estarão anunciando licitação para um novo e luxuoso hotel - de novo para o usufruto dos gringos endinheirados - dentro do Parque Nacional do Iguaçu. E não faltarão discursos dos ecologistas enaltecendo a sustentabilidade dos parques nacionais. Os avá-guarani? Deixa pra lá... são apenas uns indiozinhos insignificantes....
JOSÉ MASCHIO é jornalista em Londrina
Às voltas com os ciclos cármicos
Walmor Macarini
Os que vendem Jesus nos palcos e, em nome dele, pedem apenas trinta cruzeirinhos como contribuição mensal de cada fiel (na maioria gente pobre), se assemelham àquele que o entregou por trinta dinheiros. Os que o louvam até o ponto da obsessão e pronunciam seu nome a todo instante, às vezes em alto brado e em chorosa súplica, devem ser os mesmos que ao invés de Barrabás o apontaram para a crucificação, com idêntico e ruidoso clamor.
O Jesus do qual escarneceram naqueles dias os mantém cativos por forte laço, porque a dívida contraída foi grande e dela não se livraram. Ainda não o entendem, hoje, como não o entenderam quando ele por aqui andou. Porque não há luz no entendimento dessas pessoas. E quem são elas? Muito possivelmente as mesmas daqueles momentos, e esse carma não resgatado as retêm no círculo do martírio que envolveu o mestre nazareno desde o nascimento até o episódio da cruz.
Essas pessoas, peregrinando por revivências sucessivas sem haverem evoluído, assumiram um débito e a ele estão aprisionadas. Porque perseguiram Jesus em sua infância, o expulsaram e tentaram matá-lo tantas vezes, nos países por onde ele, na sua juventude e na idade adulta, andou e pregou; continuaram perseguindo-o no seu retorno, aos trinta anos, até levá-lo ao sacrifício derradeiro. Assim, até hoje arrastam a cruz dessa dependência. Uma obsessão que as conserva atreladas à mesma roda viva daqueles tempos.
Tais pessoas agarram-se a Jesus, buscam-no como salvador e o idolatram, clamam pelo seu serviço e a ele se entregam, em desvario basta observar os gestos e as fisionomias da mesma forma que o rejeitaram no passado e o enredaram para o Calvário. Antes algozes, agora suplicantes. O idêntico redemoínho. A memória remota as mantém nesse estado de fanática relação. A adoração é uma algema que as atrela, qual cativeiro, porque o entendimento nelas ainda não desabrochou. O divino rabi que não desejaram ouvir, as une a ele, porém obstinadamente.
Não são pessoas que pensam em elevar-se espiritualmente, por via dos ensinamentos do Mestre. Apenas o desejam como salvador ou curador de males físicos. No passado, aqueles que não o identificaram e o trataram com sarcasmo, estavam encobertos pela cegueira; agora, estão acorrentados pelo desfiar desse carma, que os faz, sem que o saibam, adoradores em prostração ao invés de seguidores. As mesmas pessoas, ou as principais delas.
Dois mil anos não são nada. Um contínuo presente. Esse ciclo cármico só cessará pela iluminação, que poderá ser repentina ou demorar ainda. Se Jesus voltasse hoje, em corpo presente, estas pessoas seriam as primeiras a qualificá-lo de impostor, porque ainda não o reconheceriam.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina
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