Sedução e conquista
Moacir Costa

A necessidade de sexo é uma força tão poderosa dentro do ser humano quanto a de respirar e de comer. A diferença é que, no caso do sexo, não é nada fácil encontrar satisfação. É preciso envolver-se num jogo extremamente complicado, que se inicia com a escolha de um parceiro e prossegue cheio de rituais. É aí que a arte da sedução e conquista entra em campo. Seu objetivo final: ter intimidade sexual com o parceiro escolhido. Mas o lance final só terá sucesso conforme a sucessão dos movimentos intermediários: como escolher o parceiro disponível, atrair-lhe o interesse, manter o clima de atração, sugerir-lhe a idéia de sexo e, por último - e mais importante para o sedutor em potencial - despertar-lhe o desejo de fazer amor.
As maneiras de atrair um parceiro sexual têm muito a dizer sobre as pessoas. Para uns, a fase mais excitante da sedução é a caça e não a conquista: preferem prolongar ao máximo o desejo enquanto fazem o cerco ao amante. Estas pessoas tendem a se mostrar muito autoconfiantes, aumentando as chances de êxito. Já as pessoas que se consideram pouco atraentes encontram dificuldades maiores. Antes de mais nada, elas têm de acreditar em si próprias para depois persuadir o objeto de seu total desejo a imitá-las. O que em geral acontece é que cada pessoa costuma usar uma tabela secreta para medir a intensidade dos atrativos sexuais, e vai atribuindo uma pontuação de acordo com esta tabela tanto para si mesmas como para os parceiros em potencial.
Mas como saber se o objeto do desejo está interessado e disponível? O primeiro passo para descobrir é ficar atento aos sinais, bastante instrutivos, que provêm de uma cuidadosa leitura da linguagem corporal: as mensagens inconscientes ou não-verbais dos seres humanos. Por exemplo, duas posturas básicas costumam ser adotadas na linguagem corporal aberta e na fechada. A postura fechada mais comum é a de alguém com os braços cruzados, indicando que não está interessado em conversar ou aproximar-se das pessoas ao seu redor. Numa postura aberta, ao contrário, o objetivo é mostrar-se mais disponível para o outro: se está de pé, vai colocar a mão sobre os quadris; caso fique sentada, certamente, apoiará bem as costas, com o braço sobre o espaldar da cadeira. Uma leitura mais sutil dos sinais, como os gestos durante a conversa, ou o tom de voz na exposição dos sentimentos, oferece de forma quase instantânea uma avaliação sobre a disponibilidade do outro para um encontro. Mas se esta disponibilidade estende-se ao terreno da sedução, trata-se de um julgamento bem mais complexo.
Mostrar-se demasiado disponível, sempre à mercê dos desejos do parceiro, pode resultar tão ineficaz quanto parecer que está rejeitando qualquer aproximação maior. À medida que a aproximação evolui, o radar deve continuar antenado aos sinais de rejeição ou de aceitação. A sedução e a posterior conquista é um jogo que envolve duas pessoas e não possui regras fixas. Um fator reconfortante para o futuro sedutor é que a maioria das pessoas gosta de fazer sexo apesar das suas ambivalências.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo e autor do livro ''Quando o sexo é maior que o prazer'' (Editora Prestígio/Ediouro)

Iguaçu ou Iguassu?
Reinaldo Mathias Ferreira

Arthur de Azevedo (1855-1908) escreveu, ainda no século XIX, o conto ''Plebiscito'', através do qual a palavra ficou familiar nos meios escolares. No Brasil, já tivemos plebiscitos. No mais recente, o povo foi chamado para decidir a forma de governo que desejasse. Agora, houve um referendo para que o povo decidisse a favor ou contra a fabricação e o comércio de armas. Tanto no plebiscito quanto no referendo, todos são obrigados a votar, e a decisão se dá por maioria simples de votos. Entretanto, certos assuntos não podem ser simplesmente decididos pelo voto, pois exigem estudos técnicos e pareceres de autoridades da área. Não se irá propor em plebiscito ou referendo, por exemplo, se devemos ou não pagar impostos nem se queremos ou não que a Presidência da República compre avião novo. Pelo voto da maioria simples, sem os conhecimentos técnico-científicos e a análise de causa e efeito, correríamos o risco de ver a Lei da Gravidade definitivamente revogada.
É o caso da grafia de Iguaçu. O vereador Djalma Pastorello, sensível aos apelos do turismo, quer que o nome indígena seja escrito com duplo ''s''. E até conseguiu convencer alguns de seus pares, sendo o projeto aprovado por 8 votos a 4. Lemos, nesta Folha de 16/11, que o prefeito Paulo McDonald Ghisi, após consultar a população, vai vetar o projeto porque 91,3% dos votantes (não obrigados a votar) assim o desejam. Não se pediu, nas diversas discussões, o parecer das autoridades no assunto, entre elas a Academia Brasileira de Filologia, a Academia Brasileira de Letras, os colegiados universitários, a Funai (que deve cuidar não só do índio como pessoa, mas de sua cultura). Não se levou em conta que a grafia com duplo ''s'' era um erro de ortografia do período pseudo-etimológico que se corrigiu com a reforma ortográfica aprovada pela Academia Brasileira de Letras, cujo texto faz parte dos dicionários. Com ela, ficamos livres de escritas como poncto (ponto), chrystal (cristal), Nictheroy (Niterói).
Louvável o veto do prefeito, mas podia bem ter-se baseado em pareceres de autoridades para agir com argumentos confiáveis e seguros. Vetando para atender a uma consulta pública, deixa aberto o caminho para a prometida derrubada do veto. Não nos causa estranheza também que alguma palavra francesa tenha até três acentos? Ou que no inglês não há acento? Ou que no alemão pode existir trema em letra que não seja ''u''? Ou que logo depois da fronteira o nome tem ''z'' no lugar do ''ç''? Nem por isso vamos mudar a história dessas línguas para facilitar a comunicação e, consequentemente, incrementar o turismo. O povo iguaçuense talvez tenha manifestado o medo de um dia ser iguassuíno (com duplo ''s'' para evitar um hífen entre os radicais).
REINALDO MATHIAS FERREIRA é professor e escritor em Londrina

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