Enade e a avaliação institucional

Maria Aparecida Vivan de Carvalho
  A propósito de avaliar a qualidade da educação superior, utilizando-se de método amostral, o governo convocou universitários, ingressantes e concluintes, para participar do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).
  Como procedimento obrigatório, num compasso insustentável de manipulação por não haver emissão do diploma, há os que participaram efetivamente, os que boicotaram e que zeraram a prova, com fins de anatematizar o processo, por motivos diversos: defesa, revolta, constrangimento, desconhecimento, afrontamento. Independente da opção é fundamental que haja consciência do significado deste exame para as instituições de ensino superior e para os próprios estudantes.
  O fato é que, como parte do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), o Enade não tem valor afastado de uma prática de auto-avaliação e de avaliação por pares, num sério e democrático processo permanente de avaliação institucional, sob o risco de manter-se como instrumento fragmentado, individualista, competitivo, punitivo ou de premiação, de ranqueamento, em íntima vinculação com a destinação de verbas.
  Parece válido presumir que por trás deste instrumento padronizado de avaliação esconde-se um caráter antidemocrático que define a dimensão dos currículos, agride e coloca na corda bamba a autonomia didático-científica, tem profundas implicações na vida das instituições com efeitos políticos assentados em proposições estatísticas. Avaliações pontuais (estudantes do primeiro e do último ano) não contribuem para o conhecimento e a compreensão das experiências vividas na universidade. É preciso haver um acompanhamento do progresso do estudante e reflexão sobre o seu desenvolvimento educacional.
  Portanto, em instituições onde há sintonia entre o Enade e a avaliação institucional cabe clamar por agilidade na entrega dos resultados e por uma análise interpretativa minuciosa, cujos elementos podem contribuir para o acompanhamento dos estudantes na trajetória universitária, além de oportunizar preciosos estudos sobre a atuação e o papel da instituição.
  A verdade é que, num futuro não tão distante, seremos vítimas de campanhas publicitárias de instituições privadas e públicas, com publicização dos resultados do exame e pontuação das melhores e das piores, muitas delas preocupadas exclusivamente com rótulos e reputação e com a impressão de uma boa imagem. Avaliar continuamente o estudante, ética e legitimamente, com respeito às especificidades institucionais é assumir um compromisso com a promoção da qualidade da educação neste espaço privilegiado de formação profissional e formação do cidadão.
MARIA APARECIDA VIVAN DE CARVALHO é professora do departamento de Anatomia da Universidade Estadual de Londrina


Macróbios e imaculados

Gaudêncio Torquato
  Na campanha presidencial de 1919, Rui Barbosa, do alto da capacidade de ilustrar com imagens a cena brasileira, descrevia a ‘‘crise de febricitação’’ vivida pelo país, para indagar se a vitória seria dos micróbios ou dos fagócitos, células que engolem os germes homicidas. A democracia social do grande tribuno - construção de casas para operários, limitação do trabalho de menores, jornada de 8 horas, proteção do trabalho das mulheres, licença maternidade, acidentes de trabalho e seguro obrigatório, entre outros temas - ganhou nos grandes centros urbanos, mas os votos do interior, mais numerosos, derrotaram o velho baiano, de 70 anos. O Brasil padece, hoje, dos mesmos sintomas febris de 86 anos atrás. E os efeitos do estado crítico se farão sentir na disputa eleitoral de 2006, em cujo clima emergirá a mesma dúvida do passado: os macróbios - aqui entendidos como decrépitos mentais - ganharão de perfis imaculados?
  Mais que luta entre atores e partidos para chegar ao poder, o pleito de 2006 porá um ponto final no capítulo da história brasileira iniciada nos anos de chumbo. O ápice da mobilização libertária se deu com a eleição de Lula, ícone da resistência, cuja origem pobre amplificou a vitória do partido que simbolizava a ética na vida pública. E aí o PT foi flagrado na maior armação partidária da era republicana, ao tentar ‘‘institucionalizar’’ práticas imorais históricas e ‘‘partidarizar’’ a estrutura do Estado. Ao manchar o slogan ‘‘a esperança venceu o medo’’, a lama petista maculou símbolos da resistência, como José Dirceu, respingando na imagem do próprio Lula. Assim, a crise política, arrastando-se até as margens do pleito, abrirá uma encruzilhada onde figurantes que ganharam musculatura nas penumbras da ditadura travarão a última batalha. De um lado, o PT, ameaçado de ser escorraçado do centro do poder, depois de pelejar três décadas para aí chegar; de outro, a oposição, cujo ajuntamento maior se abriga nos espaços do PSDB e PFL.
  O pleito presidencial será iluminado pelas luzes do referendo. A população gostou de votar de maneira autônoma. É razoável supor que o fator racional balizará a eleição, fazendo-se presente na avaliação dos perfis. Os candidatos passarão por quatro filtros: político, econômico, cognitivo e organizativo. Pelo primeiro, o candidato terá de tecer uma rede de alianças capaz de aumentar a capilaridade junto à população e ganhar visibilidade nas mídias; o segundo abrigará a massa financeira para a tarefa de buscar votos, na esteira de denúncias sobre ‘‘recursos não-contabilizados’’ de campanhas; o terceiro consistirá na formulação de um discurso eficaz, gerador de empatia e confiança; e o último será a montagem de estrutura e a mobilização de partidos e quadros. O tom maior, porém, será dado pela carga de angústias e expectativas, fruto da violência, do desemprego e da precariedade dos equipamentos urbanos e dos serviços públicos. O eleitor tende a eleger aquele que melhor der respostas às carências do bolso, da cabeça e do coração. E que seja mais imaculado e menos macróbio.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor na Universidade de São Paulo e consultor político


- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup