ESPAÇO ABERTO
Nossa pobre língua portuguesa!
Alex Soares de Almeida
Vou contar uma rápida história: quando trabalhava no jornal Panorama, estando em Paissandu, em conversa com o então prefeito, fiz ver que o nome da cidade se grafava com cê cedilha (Ç). Inclusive, me vali de uma gramática da biblioteca. Dias depois, o nome da cidade havia mudado para Paiçandu. O que é louvável.
Agora, não bastasse a invasão de nomes estrangeiros, principalmente em inglês errado, vêm agora uns pais da pátria de Foz do Iguaçu querendo mudar a grafia do nome da cidade.
A mais elementar regra de ortografia diz a respeito do Ç: Emprega-se em vocábulos de origem indígena, árabe, africana ou exótica: Paraguaçu, caiçara, muçulmano, sanhaço, babaçu, miçanga, paçoca, açude, araçá (Paulo Sérgio Rodrigues, Técnicas de Redação); Emprega-se Ç a) nas palavras de origem árabe, tupi ou africana: açafrão, açúcar, muçulmano, araçá, paçoca, Juçara, Piraçununga, caçula, miçanga (Ernani Terra, Curso Prático de Gramática); Emprego do SS ou Ç: usa-se Ç nos vocábulos de origem tupi-guarani ou africana: Iguaçu, Juçara, miçanga, paçoca, Paraguaçu (...), muçurana (Luís Agostinho Cadore, Curso Prático de Português); C ou Ç: (...): em vocábulos indígenas, africanos e alienígenas (...): miçanga, Paiçandu; guaçu, taquaruçu (Alex Soares de Almeida, Apostilex).
E tem mais: como é que vai ficar o adjetivo que indica de ou pertencente ou relativo a, ou nascido ou habitante de Foz do Iguaçu? Iguassuense? O correto até hoje é iguaçuense.
E tem mais: -açu [do tupi wasu} el.comp. que entra na formação de muitas palavras indígenas = grande, vasto, considerável: (...) Equiv.: -guaçu, -uaçu, conforme o nosso Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, no Novo Dicionário da Língua Portuguesa
No mais, confira, guaçubirá, guaçubóia, guaçucatinga, guaçurete. Aí estão meus argumentos e como para bom entendedor meia palavra basta, espero que seja o suficiente, principalmente, para os que desejam a mudança.
Espero também que a tal reforma or-tográfica não vingue e, se vingar, que não chegue a igua$$u. Em tempo: Professora, por que nós aprende ingreis? Porque portugueis nóis já sabe!
ALEX SOARES DE ALMEIDA é gramático, professor e jornalista em Londrina
A nação de homens sem pátria
Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
Manifestações, gritos de ordem, enfrentamento com a polícia, depredações e fúria. Tudo isso aconteceu durante a vinda de Bush à Cúpula das Américas. Este episódio apenas confirma que os Estados Unidos não são uma nação muito popular atualmente. No entanto, não são o único inimigo para o mundo, pois há um ser perverso e oculto que pode ser mais poderoso que o império ianque.
Imagine a seguinte cena: imigrantes provenientes do mundo subdesenvolvido resolvem entrar ilegalmente no país tupiniquim. Como conseqüência, o desemprego se agrava (em decorrência da busca de mão-de-obra barata), o sistema de saúde e de educação precisa se adequar à nova demanda, surgem conflitos sociais (em vista de os imigrantes se tornarem moradores de áreas pobres, o que aumenta a possibilidade de ingressarem no crime ou de serem marginalizados pelos brasileiros natos) e o próprio brasileiro precisa se adequar aos novos costumes, às novas crenças, enfim, a essa incompreensível realidade trazida pelos imigrantes.
Esse cenário fantasioso para os dias atuais mostra que depositar toda a culpa pelos males globais em uma nação é o caminho para ocultar as imperfeições dos outros. Critica-se os americanos pelas atitudes rígidas e discriminatórias para conter a imigração ilegal para seu território, mas os mesmos críticos esquecem-se da forma como os diferentes (leia-se favelados no Brasil, curdos no Oriente Médio, judeus na Europa, aborígenes na Austrália, negros no Sudão) são tratados em seus países. Além disso, passar-se por justo e considerar o outro como o extremo oposto é uma forma de ser semelhante àquilo que se combatia. Por exemplo, os Estados desenvolvidos não concordaram com o Protocolo de Kyoto e foram chamados de egoístas, pois só pensaram nos empregos de seus trabalhadores. O interessante é que boa parte do coro partiu de Estados em desenvolvimento, como China e Índia, famosos pela elevada taxa de poluição industrial e isentos de participarem do Protocolo. Quanto ao Brasil, basta lembrar-se da Amazônia.
Com relação ao famigerado inimigo oculto citado no primeiro parágrafo, acredito que você já deve saber de quem estou falando. Sim, é ele. O nacionalismo. Ele é o responsável por essa incompreensível competição, intriga e egoísmo que parte das nações. Munido de gritos imperativos e de atos autoritários, bem como de etnocentrismo indireto ou explosivo, o nacionalismo acaba sendo o articulador do processo de alienação do povo, já que fomenta o irracionalismo. Assim, não se estimula a reflexão, mas o instinto de sobrevivência baseado exclusivamente na visão de mundo de cada povo. Na próxima vez que se for protestar contra alguém tido como carrasco, cuidado para não se tornar o próprio e acabar, por fim, contribuindo para o ciclo vicioso da dicotomia bem versus mal.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina em Londrina
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