Lula, mais do mesmo

Adriano Nervo Codato
  Os pronunciamentos do presidente Lula, as declarações sobre as virtudes da própria ética e os desafios que lança ao vento diante de todas as evidências sobre como funciona o sistema político brasileiro puseram em questão seu papel na crise atual.
  Em fins de julho, Alain Touraine solicitou que se preservasse sua figura e seu simbolismo político, apesar de tudo e de todos. No mês seguinte, José Arthur Giannotti escreveu um longo artigo lamentando sua falta de liderança e a ocupação da cena política por dois atores (no sentido dramático do termo): Jefferson e Dirceu. A histrionice do primeiro e a frieza calculada do segundo serviriam de moldura para expor a mediocridade de Lula. O cientista político João Ubaldo Ribeiro denunciou seu ‘‘des-preparo’’ para a função presidencial e sua ‘‘igno-rância’’ de qualquer coisa. Afinal de contas, qual a função da mais importante liderança do País?
  Não há dúvida que Lula fala. E muito. Muito freqüentemente de improviso. Nessas ocasiões, ensaístas e jornalistas sublinham, com certo contentamento, seus solecismos. Esses tropeços na linguagem culta vêm acompanhados de metáforas descabidas e de uma fieira de obviedades. Se Lula é um exemplo perfeito de incorreção vocabular, como explicar que seu discurso ainda faça sentido para alguém?
  As taxas de popularidade do presidente, embora declinantes, demonstram que o erro desse elitismo atávico está em desconhecer os mecanismos de funcionamento do campo político. Os truísmos e as constatações triviais de Lula são o máximo que todo político está condenado a dizer. O campo político é um microcosmo que, através de suas regras de competição pelo poder e luta por mais visibilidade, cria e impõe, a quem participa dele, uma visão de mundo mediana que termina por repelir os extremismos. Toda ideologia vem assim camuflada por um repertório de máximas. Por isso mesmo as obviedades fazem parte da retórica política.
  Não se poderia esperar do presidente da República alguma grande explicação da crise (função dos intelectuais). O que se ouve então de Lula nada mais é que a reprodução da retórica do ‘‘bom senso’’. Esse discurso, que não é nem consciente nem intencional, é tanto o efeito objetivo do campo político, quanto o veículo das concepções econômicas neoliberais que circulam por aí como verdade irrecorrível. Daí que eloqüente mesmo tenha sido a manchete de capa da ‘‘Folha de S. Paulo’’ no mesmo dia da primeira coletiva de imprensa do presidente em abril deste ano: ‘‘Palocci nomeia [para o Ministério da Fazenda] ex-assessor de Malan’’. Diante disso o resto é conversa fiada. Ou num registro mais polido: ‘‘words, words, words’’.
ADRIANO NERVO CODATO é professor de Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR) em Curitiba



A urucubaca de Lula

Luiz Carlos Hauly
  Ou o governo federal vive realmente sob o signo da urucubaca, como justificou recentemente o presidente Lula num de seus antológicos discursos, ou tem muita culpa no cartório. A primeira hipótese, a de o governo viver constantemente conflagrado por pragas de procedência esotérica, não condiz com os fatos e os personagens que, no plano material, incorporam os infindáveis males das quais nosso chefe de Estado tanto tem se queixado. E que personagens são esses? Infelizmente para o presidente Lula, esses personagens são ou foram até recentemente membros do seu governo e/ou do seu partido, ocupando nas duas instâncias postos de direção, o que avalia a convicção de que foram merecedores de estrita confiança do presidente e de seus prepostos.
  O primeiro desses personagens é Waldomiro Diniz, o poderoso subchefe da Casa Civil flagrado cobrando proprina de um empresário do ramo de loterias. A fila que o precede, da cúpula do PT, ministros e diretores de estatais, parece aumentar de tamanho a cada dia. No meio deles surgem ainda, em pele e osso, os publicitários Marcos Valério, que assumiu a ingrata tarefa de irrigar sem limites os cofres do PT e dos partidos aliados, e Duda Mendonça, que admitiu ter recebido do PT R$ 10 milhões devidamente convertidos em dólar numa conta mantida em Miami.
  Para complicar ainda mais - e aí, neste caso sim, aproximar o reino do material ao do imaterial de maneira vertiginosamente comprometedora para o PT - há o espectro cada dia mais imortal do prefeito assassinado de Santo André, o petista Celso Daniel. E eis que agora ressurge o lobista Rogério Buratti - ex-assessor de confiança de Antonio Palocci quando prefeito de Ribeirão Preto - para avalizar a denúncia do economista Vladimir Poleto, outro ex-homem de confiança do ministro da Fazenda. Denúncia, apresentada de forma meticulosa por seu formulador, de que o governo cubano doou US$ 3 milhões para a campanha eleitoral que conduziu Lula à Presidência da República! A denúncia seria um espanto se não tivesse sido precedida de tantas outras no âmbito administrativo e ético que, infelizmente para os que acreditam na promessa de renovação dos costumes políticos feita por Lula e seu partido, vem se confirmando de maneira inexorável. Aceitar dinheiro de um governo estrangeiro é um crime de lesa-pátria, e a administração Lula enfrenta a denúncia de prática deste crime pela terceira vez.
  O governo Lula já foi acusado de receber US$ 5 milhões da organização narco-guerrilheira Farc, da Colômbia, e US$ 2 milhões do governo da Coréia do Sul. A apuração das denúncias não prosperou por simples pouco caso dos atores políticos. A oposição não pode - e acreditamos não irá - fechar os olhos, o coração e os ouvidos a esta gravíssima denúncia porque, do contrário, correrá o risco de atrair para si os mesmos sentimentos que estão se disseminando na opinião pública em relação às urucubacas do governo Lula - descrédito e desprezo.
LUIZ CARLOS HAULY (PSDB-PR) é membro da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados


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