A fé remove montanhas?

Se alguém disser que a fé remove montanhas não está simplesmente dando asas a um ditado popular, mas enfatizando um texto bíblico. O que não se justifica é interpretar o texto ao pé da letra. É provável que nenhuma montanha seja removida pela força da fé, mesmo que se interprete literalmente o texto bíblico. Fatos extraordinários dessas proporções nunca ocorreram, nem mesmo no tempo de Cristo. Transportar literalmente uma montanha seria um desafio às leis naturais estabelecidas por Deus?

A força de vontade, a fé e o pensamento positivo em determinadas situações, não têm valor algum se não estiverem em harmonia com as técnicas necessárias. Imaginamos alguém precisando atravessar um rio cujas águas turbulentas oferecem perigo. Nessa circunstância, ele pensa positivamente, e, após algumas reflexões de fé, atira-se às águas. O caso é semelhante a um empreendedor autoconfiante, cheio de fé, que entrou num negócio, com escassez de recursos financeiros, sem planejamento e sem auxílio da ciência moderna. Nessa somatória de inconsistências, ele se envolve no erro mortal daquele que se atirou nas águas violentas do rio, sem conhecer as técnicas de natação.

Qualquer empreendimento direcionado pela fé, sem os treinamentos necessários, sem projetos e sem definição das metas de produção não pode prosperar. Se não tiver em mãos os números de um levantamento estatístico que possam equacionar produção e consumo, esse empreendimento, provavelmente, estará fadado ao fracasso.

Ninguém pode interpretar um texto, bíblico, sem reportar-se ao sentido figurado das palavras utilizadas pelo autor, como força de expressão, sob pena de cair no erro do indivíduo que confiou na fé, quando deveria abraçar-se a um pau de jangada na tentativa de atravessar o rio. Quando Jesus falou da fé que move montanhas, Ele o fez simbolicamente. Na verdade, falava da remoção dos problemas diários que, para serem removidos, precisa-se da fé, aliada à força do trabalho com determinação e habilidade, pois, não há nenhuma necessidade do exibicionismo de remover montanhas pela força da fé. Na verdade, há um distanciamento entre a palavra e seu sentido figurado; entre a habilidade e a inexperiência; entre a fé e a capacidade técnica de solucionar o problema. Não se pode exigir de um simples auxiliar de serviços os acabamentos da arte final computadorizada, só porque este auxiliar tem muita fé.

Se alguém tem muita fé, entretanto, edifica sua casa na areia, como esta casa resistirá aos ventos? Qualquer empreendimento em que não houve uma coordenação dinâmica e não se aplicou com inteligência as modernas técnicas de produção, com certeza, a fé ficou prejudicada.

NELSON ARAÚJO DE OLIVEIRA é professor aposentado em Londrina

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