A galinha dos ovos de ouro

Edson Neme Ruiz
  Temos acompanhado com muita angústia os últimos acontecimentos sobre a suspeita de febre aftosa no Paraná. Além de se encaminhar para uma grave crise econômica e social, os fatos têm demonstrado um absurdo descaso da classe política - principalmente do governo federal - com esta situação. É preciso mais agilidade dos nossos governantes para conhecermos os resultados dos exames conclusivos e, essencialmente, tranqüilizarmos os produtores rurais. O homem do campo, desesperado e em dificuldades, traz muita insegurança àqueles que sobrevivem nas cidades!
  Especialistas em saúde, como infectologistas, patologistas e virologistas, garantem que o consumo de carne bovina, de outros produtos de origem animal e de seus derivados não colaboram na propagação da febre aftosa. Então, por que este grande temor com a doença? Simplesmente, porque ela gera grandes prejuízos financeiros e sociais à agropecuária brasileira, e também porque serve de barreira comercial para as nossas exportações. Portanto, defendemos que este mal seja banido do continente americano! É inadmissível que a área econômica do governo federal destine míseros recursos - e em sistema de ‘‘conta-gotas’’ - para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Como uma atividade extremamente importante para a economia nacional pode ter um orçamento anual de R$ 167 milhões - em grande parte contingenciado, se para realizar um referendo foram gastos mais de R$ 600 milhões?
  Acreditamos que, se o ministro Roberto Rodrigues tivesse uma fatia maior do ‘‘bolo’’ (o retorno dos recursos que o setor agropecuário gera), certamente, outros investimentos em sanidade animal poderiam ser realizados: contratação de mais mão-de-obra para a vigilância das fronteiras secas, dos portos e aeroportos; aplicação de recursos em pesquisas para a descoberta de vacinas menos suscetíveis às variações de temperatura; a possibilidade de efetuar testes por amostragem nos rebanhos brasileiros para o monitoramento da doença e também para checar os cumprimentos de outras normas sanitárias; colaborar em projetos de parcerias com órgãos de vigilância sanitária de países vizinhos; destinar mais verbas para os governos estaduais para a fiscalização e a educação sanitária; entre outras ações. Consideramos um equívoco imaginar que um setor responsável pela geração de 38% dos empregos do país; que mantém o superávit da balança comercial há anos - graças ao bom trabalho dos pequenos, médios e grandes produtores rurais; e que em muitos municípios brasileiros representa a principal atividade econômica; seja visto com pouca relevância pelas autoridades governamentais. Querem matar a ‘‘galinha de ovos de ouro’’ da nação. Se continuar assim, vão conseguir!
EDSON NEME RUIZ é presidente da Sociedade Rural do Paraná e do Conselho das Sociedades Rurais do Estado do Paraná


Brecht tinha razão

Altair Aparecido Galvão
  Imagino que a maioria dos leitores já tenha recebido pelo menos uma ligação telefônica de algum banco oferecendo um cartão de crédito, dizendo que fora selecionado como cliente especial. Quando não é um cartão de crédito, o ‘‘negocio imperdível’’ é um seguro incrível, prometendo que se você morrer vai receber (como?) uma fortuna. Em outras ocasiões, somos bombardeados com ofertas de cheques
‘‘superespeciais’’, que nos dão, até, um prazo de carência para pagar os juros, sempre exorbitantes. Acredito que os marqueteiros desses bancos nos prejulgam, por estatísticas quase sempre duvidosas, como um público-alvo para suas ‘‘rajadas’’ de ofertas que, na verdade, só fazem crescer seus lucros.
  Em meados da década de 1990 os bancos implantaram os PDVs (Plano de Demissão Voluntária), reduziram seus quadros de funcionários em mais da metade, colocando em seus lugares caixas automáticos. Os lucros cresceram substancialmente. E continuam crescendo. O lucro dos bancos em 2004, aumentou 22,4% em relação a 2003. Atualmente, o cliente faz todo o serviço antes executado pelos caixas-executivos e ainda paga por isso. As taxas cobradas variam de banco para banco, mas representam uma boa parte dos lucros bancários.
  Matéria publicada num jornal de São Paulo (2/10) mostra que 43% dos endividados são jovens com, no máximo, 30 anos. Conforme dados de pesquisa realizada pela ACSP (Associação Comercial de São Paulo), consumidores na faixa etária dos 21 aos 30 anos são os que mais têm o ‘‘nome sujo’’ na praça, causado por dívidas referentes a compras em lojas dos mais diversos ramos de atividade. Mas, o que mais compromete a reputação financeira desses jovens é a prática do cheque sem fundo. Nesse item, 47% dos casos têm a participação de jovens com menos de 30 anos. Segundo porta-voz da ACSP, o acesso fácil ao crédito, seja nos cartões de crédito, seja no cheque especial pré-aprovado, é o principal causador desse fenômeno. Uma jovem de 23 anos, por exemplo, declara-se ‘‘falida’’ e dependente de suas próprias dívidas, tanto em bancos como no comércio, pois com o que ganha (cerca de R$ 400 por mês), não consegue saldar suas dívidas, contraídas ao comprar produtos oferecidos por bancos, lojas e financeiras.
  Notamos que entra governo, sai governo, planos econômicos mirabolantes são criados e caem, moedas antigas e novas também são criadas, mas os bancos permanecem firmes e fortes, sempre explorando o cidadão. Dizem até que banco é aquela instituição que nos oferece um guarda-chuva em tempo bom e o retira imediatamente quando esse tempo ‘‘fecha’’. Todo cidadão em sã consciência é contra qualquer tipo de crime, mas sabe-se que grande parte da população ficou ‘‘torcendo’’ pelos assaltantes do Banco Central de Fortaleza. Existe uma frase, creditada ao poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht que diz: ‘‘É crime roubar um banco, mas crime maior é fundar um’’.
ALTAIR APARECIDO GALVÃO é cientista social e mestrando em Geografia em Maringá

- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].


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