O eleitor corrupto

Elias Mattar Assad
  Estão expostas algumas chagas nacionais com utópicas propostas de resolução de quinhentos e tantos anos de problemas acumulados. Eclodem espetáculos processuais judiciais e parlamentares, prisões, sugestões para reformas disto ou daquilo, referendo popular, entre ‘‘messianismos’’ outros, em espécie de ‘‘novo preparo’’ para vivermos, em breve, um mundo melhor.
  Tarefa fácil aos parlapatões falar de ‘‘futuro’’ para enfurecidos e desilidudidos eleitores do presente. O porvir, por si só, entorpece evocando esperança, que é a felicidade em perspectiva e não há ser humano que não a tenha. Bastam algumas encenações dessa ordem, como ‘‘anestésico’’, quando momentos de escolha se aproximam. A verdade do hoje é incômoda e não se apresenta como assídua freqüentadora dos meios eleitorais e midiáticos. Vozes do povo nem sempre refletiram acertos. Lá pelas tantas, escolheram Barrabás.
  Muitos cientistas e analistas políticos estão ansiosos a imaginar o que vamos ter no horário político, em rádios e televisões, nas proximas eleições. Que propostas, discursos, argumentos persuasivos, com que caras e expressões virão, mais uma vez, esses hábeis senhores feudais e seus discípulos? Será que nosso modelo democrático refletirá a vontade popular? Em bom direito, fraude, dolo, simulação, coação e erro nem sempre figuraram como elementos que viciam atos jurídicos em geral. Votar é um ato humano, como qualquer outro, sujeito aos mesmos
problemas.
  Ao contrário do que muitos apregoam, o dinheiro do referendo foi muito bem investido. Por ele ficou demonstrado que o brasileiro, aos poucos, vai descobrindo que uma grande rede de televisão é apenas uma empresa de comunicação, que artistas de novelas, humoristas (que, aliás, estão nos fazendo rir e chorar menos que as personalidades), cantores e compositores, são apenas isto! Ficou evidenciado, enfim, que a grande massa está se politizando, refletindo e colocando o governo e o Estado nos seus devidos lugares.
  Precisamos evoluir ainda mais. As autoridades responsáveis pelos processos eleitorais, continuam minimizando os fatores capazes de viciar impunimente quaisquer pleitos, que são os eleitores corruptos, corrompidos e seus mercenário intermediários. Misteriosamente intacto o relevantíssimo tema das condutas daqueles que vendem seus votos em troca de valores, favores ou dos que aceitam tais propostas, em meio a nossos folclóricos mercadores denominados ‘‘cabos eleitorais’’, que leiloam seus apoios e garantem aos candidatos que angariam um número x de votos.
  Curiosamente, tais imoralidades sempre restam impunes quando são mais perniciosas que as condutas dos políticos ‘‘compradores’’. Precisamos bons semeadores, boas sementes e solo fértil para boa colheita. Tudo o que deriva de métodos criminosos, não produz bons resultados.
ELIAS MATTAR ASSAD é advogado em Curitiba e presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas


Manifesto de um contribuinte

Gilberto Tanaka
  Como contribuinte que paga seus impostos, sinto-me no direito de explanar minha indignação com o momento crítico em que se encontra a política brasileira. A corrupção, que manchou na história a imagem deste governo, custou ao país o montante absurdo de 380 bilhões de reais no ano passado. Trata-se do seu dinheiro, trabalhador brasileiro extorquido diariamente pela voracidade da arrecadação estatal, que está sendo tragado para o bolso de políticos inescrupulosos, no meio do turbilhão de denúncias que agitam o Congresso Nacional.
  O gigantismo da participação do Estado nos negócios, aliado a um sistema burocrático, tornam o país um ambiente propício para a corrupção. Ainda, os gastos públicos desenfreados, reflexo direto da má-administração do governo, servem de desculpa para justificar uma carga tributária insana de 37,5% do PIB. Afinal, alguém tem que pagar as contas. Para se ter uma idéia, somente na administração federal encontramos mais de 19.000 cargos de livre nomeação, pessoas contratadas sem a necessidade de concurso público, recebendo salários de até R$ 7.500,00.
  A conexão entre gasto público desenfreado, carga tributária elevada e corrupção é evidente. Quanto maior a gastança do governo, mais elevada será a necessidade de arrecadação e, conseqüentemente, o ambiente para a corrupção em todas as esferas estará favorecido. A corrupção reflete-se tanto na atuação de alguns fiscais do governo que atuam em prol de determinadas empresas, quanto nos políticos dentro do Congresso Nacional, agindo na surdina e de forma impune.
  Não quero ser visto como mais um cavaleiro quixotesco, na obra divina de Cervantes, guerreiro solitário lutando contra gigantes imaginários, num ato de loucura desbravada. A luta contra a corrupção interessa a todos nós. A vitória contra esse mal, depende daqueles que tiverem a coragem de levar adiante esta bandeira.
GILBERTO TANAKA é advogado tributarista em Londrina

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