A empresa nacional está promovendo mudanças radicais na forma de operar seus negócios. Técnicas importadas desembarcam aqui aprovadas e comprovadas. Há empresas que já atingiram grau exemplar na qualidade de seus produtos. Outras estão engatinhando. A maioria ainda longe disso. No entanto, pouquíssimas atingiram a ''perpetuação dos sistemas'', isto é, a garantia real de que os programas irão funcionar para sempre por estarem assimilados aos conhecimentos e atitudes dos trabalhadores. O que impede que o Brasil atinja a perpetuação dos sistemas de qualidade e produtividade? Primeiro, o trabalhador brasileiro é simples por natureza. Ele não gosta de enfrentar dificuldades na execução de tarefas. Procura dar um jeitinho para facilitar. Ele tem criatividade de sobra. Viver e sobreviver no Brasil de hoje é prova cabal de que somos, talvez, os seres humanos mais criativos do planeta. Mas os nossos trabalhadores não têm participação no desenvolvimento e implantação dos sistemas de qualidade. Forçar para que engulam não é garantia de que serão perenizados.
Outro aspecto, a formação cultural de nosso trabalhador é muito fraca. Visitei uma empresa que estava em festa por ter conquistado o certificado ISO. Em pouco mais de dez minutos percebi que a certificação tinha sido obra e graça de poucos. Grande parte dos funcionários é semi-alfabetizada. Caminhando pela linha de produção era visível organização e limpeza. Mas os procedimentos que orientam o sistema em si estavam pendurados nas máquinas sem nenhuma evidência de serem consultados. Aqueles operários não irão lê-los, do mesmo modo que não lêem manuais de eletrodomésticos, jornais ou bulas de remédio. Muitos não sabem ler. Outros sabem, mas não têm boa compreensão do que lêem.
As certificações ISO, Kanban, etc, são técnicas muito simples e já amplamente aprovadas em seus países de origem. A formação cultural e técnica de seus trabalhadores possibilitou o comprometimento de todos. Eles contribuíram ativamente tanto na criação como na implementação. Por isso, são sistemas perpetuados. Nosso desejo é competir com empresas internacionais utilizando as mesmas técnicas. Mas é injusto! Nosso pessoal ainda não teve acesso a condições reais de evolução cultural. Aí está, aliás, a verdadeira razão do desemprego. Falta qualificação. Falta cultura. Só gerar vagas não resolve o problema - a menos que todas as vagas sejam de ajudantes.
Efetivamente temos que transformar o território brasileiro em uma imensa sala de aula. Clubes, empresas, igrejas, associações de bairro, entidades filantópicas, hospitais, Forças Armadas, etc, devem ser estimulados a implantar ações para educar pessoas. O Brasil está demorando muito para ''acontecer''. Sem educação, não iremos concretizar nada de bom. Continuaremos produzindo os mais sofríveis indicadores de qualidade de vida no ranking mundial. O bem-estar de nossos filhos e netos já está seriamente comprometido. Só se ouve blá-blá-blá, discursos inflamados e vazios de políticos que nada fazem. Quando Jânio Quadros deixou o poder, profetizou que, após seu governo e por muitas décadas, a indústria que mais progrediria no país seria a indústria de colchões. Infelizmente ele estava certo. Chegou a hora de produzir despertadores.
ABRAHAM SHAPIRO é especialista em Treinamento e Desenvolvimento Corporativo e Liderança Empresarial em Londrina

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