ESPAÇO ABERTO
Uma lição do não!
Manuel Joaquim R. dos santos
Fui votar neste referendo como a grande maioria. Sem saber o porquê e indignado com a petulância do governo em empurrar inoportunamente um tema tão oblíquo para nossa decisão. Enquanto isso, em Brasília, o odor de pizza fica cada vez mais forte e os desmandos da política econômica seguem o rumo traçado há três anos, em busca do tal superávit, e deixando investimentos em áreas fundamentais para um segundo plano.
Foram mais de 400 milhões de reais para este evento democrático! Aliás, a democracia foi salva mais uma vez pela consciência de um povo que fez a abstenção ficar no patamar dos 20%. A mobilização nacional em torno do espinhoso tema das armas e de seu comércio foi inócua e repleta de má-intencionalidade por parte de quem o propôs.
O estatuto do desarmamento se levado a sério e cumprido, fará tudo aquilo que os defensores do sim tanto desejavam com o seu voto. Hoje no Brasil, ao contrário do que se pensa, não é fácil possuir uma arma. Aqui, como em outras áreas, conseguimos um patamar de maturidade e responsabilidade invejável aos olhos do mundo. O problema está, como sempre, na incapacidade do Estado em fazer cumprir a lei. Tendo vencido o sim, o país seria confrontado mais uma vez com essa incapacidade e displicência e geraria a inevitável sensação de tempo e dinheiro perdidos com o referendo. O não pelo menos nos poupou desse amargo sentimento! A informalidade e a clandestinidade, leitos por onde correm os caudais dos tráficos mais variados, protegeriam o comércio das armas de fogo e obrigariam a gastos astronômicos e constantes para o seu combate. Desperdícios estes, que o cidadão comum imediatamente reclamaria em melhor aplicação na Segurança Pública.
A inocuidade se reflete também na ausência total de oportunidade para uma discussão deste teor. Em que pese um bom debate sobre números e estatísticas, a insegurança geral que assola os brasileiros, impotentes perante o aumento da criminalidade e a desproporção encontrada entre o marginal e o agente de segurança, não cria o mínimo de condições para uma decisão deste porte. O não veio da pele! Ele é epidérmico; negou os princípios mais elementares do cidadão brasileiro. (Quem em sã consciência é a favor das armas, para combater a paz?!) Ele rompeu os valores básicos e rasgou a Bíblia e a religião e ignorou o apelo de bispos, padres e pastores! O não não é nosso, não é de nossa índole, mas ele combateu com a sua ilógica e irracionalidade a proposta escabrosa e imbuída de impertinência que o governo nos obrigou a engolir.
A resposta foi, portanto, proporcional à demanda e a vitória esmagadora dos que aceitam o comércio de armas no Brasil, foi um não contundente a quem quis mais uma vez se omitir, desviando o foco do problema e o empurrando para quem já sobrecarregado de impostos a ele o confia! O não foi sim oportuno!
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é pároco em Porecatu
A violência nossa de cada dia
Maria Aparecida Vivan de Carvalho
Após o bombardeio diário de informações, muitas delas forjadas e distorcidas através de propagandas para o referendo, a pretexto da democracia, fomos todos obrigados a ir às urnas no domingo passado. Venceu o não! Ilusão pensar que este resultado tenha um significado palatável ou que caso o sim vencesse poderíamos estar dando um passo a caminho da não-violência.
Por semanas o ímprobo governo, alguns patéticos políticos e artistas manobraram o desvio da atenção da população para a questão das armas. Enquanto isto a violência continuou a rolar solta pelo país e não foi diferente aqui em Londrina. Conferindo ao processo uma fisionomia democrática, legitimamos com o sim e com o não os interesses burgueses e internacionais.
A violência está presente em nossos dias e é manifestada de inúmeras maneiras. A violência está no desemprego, na fome, na exploração de menores e de mulheres, no descaso dos governantes no combate imediato à corrupção; a violência está no descaso para com os problemas ambientais; a violência está no maltrato de crianças, idosos e animais; a violência está na promoção da competição, do individualismo, da corrida pelo primeiro lugar, atropelando tudo e todos, destruindo valores caríssimos como a amizade e a honestidade; a violência está no desinteresse pela saúde e educação, enfim, na degradação das condições de vida de milhões de brasileiros.
Torna-se um círculo vicioso, massacrante, onde um tipo de violência acaba gerando outra. Entretanto, a violência maior é a do ser humano transtornado para com ele mesmo: a violência da mente que se expande para o corpo de formas variadas, como doenças graves, causadas por angústia e impotência diante dos fatos, o sentimento de mãos atadas, o grito sufocado por alegorias governamentais.
Neste mundo imoral que vivemos, seja reflexo da globalização ou da expansão do mercado, o homem vê-se diante de desafios. Há que se destacar a involução de conquistas do cidadão, como o direito à segurança, num vácuo ético que extirpa de modo implacável o sentido da própria vida.
A farsa do referendo escondeu a verdadeira origem e imagem da violência, mas poderá servir para assumirmos um olhar panorâmico em face do crime e desencadear estudos sobre as possíveis formas de combatê-lo eficazmente.
MARIA APARECIDA VIVAN DE CARVALHO é professora do departamento de Anatomia da Universidade Estadual de Londrina





