ESPAÇO ABERTO
Desarmamento: de que lado você está?
Manoel Idalgo
Disse Jesus: Deixo-vos a paz, eu vos dou a minha paz, não da maneira como o mundo oferece. Mas qual a diferença da paz de Jesus com a Paz que o mundo oferece?
Hoje fala-se muito da necessidade de uma Cultura de Paz. Isto significa uma vida sem violência, uma sociedade fraterna. O mundo quer impor a paz através de armas, Jesus propõe uma sociedade pacífica através do amor. O mundo quer ter paz pela força, Jesus oferece a paz pelo perdão. De que lado você está?
Não existe arma capaz de conquistar a paz. Porque a paz é uma conquista do coração. Você já viu alguém obrigar o outro a amar? Você já viu alguém apaixonar-se pela força? Isto não é possível. Pelo contrário, quando alguém sente-se oprimido, o amor fica mais distante. Assim acontece quando alguém quer utilizar-se de armas de fogo para combater a violência. Ela torna-se maior ainda.
Quando Jesus foi ameaçado de morte, um dos seus discípulos pegou a espada para defendê-lo, e ele disse: Guarde a espada, quem usa da espada morrerá pela espada. Quando se pensa utilizar a violência para combater a violência, o problema aumenta, é como uma bola de neve.
A única arma para combater a violência é o amor, a fraternidade, a justiça pacífica. Não adianta dizer que devemos estar prevenidos, porque a única força que nos previne contra a violência é um coração aberto ao diálogo, a compreensão, ao perdão e a vontade de uma vida junto com Deus.
Você é contra ou a favor de armas de fogo para se ter paz? É o mesmo que perguntar: é possível combater o mal com o mal?
Ouça o que diz a Sagrada Escritura: O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas é justiça e paz e alegria no Espírito Santo. E como diz o próprio Jesus: Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados Filhos de Deus.
MANOEL IDALGO é pároco da Paróquia Nossa Senhora dos Migrantes do Jardim Novo Bandeirantes em Cambé
A aftosa e o desarmamento
Wilmar Sachetin Marçal
Pode parecer paradoxal, mas os recentes episódios de febre aftosa bovina e o iminente referendo para a decisão do comércio de armas no Brasil tem muitos aspectos em comum. Ambos expõem duas situações previsíveis para muitos brasileiros, exceto para o governo federal que, ao que parece se omite, fingindo ter tudo sob seu controle. Não é difícil perceber que nessas duas situações, o Brasil será sempre escravo de um algoz implacável: sua localização geográfica.
Há um extensa área territorial, compartilhada com países sem leis e repletos de contravenções, como o Paraguai, por exemplo. A fronteira é seca, sem qualquer controle e facilmente vulnerável às ações de contrabando, seja de animais, seja de armas. Outro aspecto que vem sendo ocultado pelo governo federal diz respeito aos interesses dos países de primeiro mundo, em frear algumas de nossas exportações, pelo ranking que ocupamos no mercado internacional.
Nossa carne bovina incomoda países da Europa e Oriente Médio. O Brasil, segundo o IBGE detém hoje o maior rebanho comercial de bovinos para corte do mundo. Nossa fabricação bélica causa indisposição nos americanos, que querem, a todo custo, recuperar um forte mercado que nosso país conquistou nos últimos anos, ou seja, uma exportação de 70% das armas produzidas aqui.
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O que é importante neste momento é esclarecer a opinião pública sobre os reais interesses do desarmamento e da inexpressiva falta de recursos para a política de controle da aftosa em nosso rebanho. O governo federal precisa agir com firmeza, falando a verdade e evitando que o país se torne refém de seus próprios erros. Precisa se assessorar melhor, com pessoas capacitadas, preparadas tecnicamente, sem compromissos de seus assessores com dízimos partidários.
Ao invés de estabelecer políticas verdadeiras de desenvolvimento, o governo, muitas vezes, repete a retórica hipócrita de que a culpa é dos outros, dos fazendeiros no caso da aftosa e das facções criminosas no caso das armas. Seria muito mais salutar que, antes de incentivar o referendo de domingo, investisse mais em educação e segurança, parando definitivamente com o discurso enganoso do programa fome zero.
Os crimes vão continuar e o governo vai ficar numa situação muito cômoda, seja qual for o resultado, repetindo a máxima: o povo decidiu. É mais fácil falar mal da sociedade organizada, como são os pecuaristas, do que assumir que o montante destinado para o controle da febre aftosa foi irrisório. Para comentar qualquer assunto a respeito desses duas atuais situações, o governo deveria primordialmente ter também duas iniciativas básicas: assumir sua incompetência técnica e lavar bem suas mãos sujas de corrupção, incluindo todos seus imorais asseclas.
WILMAR SACHETIN MARÇAL é diretor do Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Londrina





