ESPAÇO ABERTO
Plástica e a redução de cicatrizes
Ruth Graf
A cirurgia plástica na atualidade vem se preocupando com o aprimoramento das técnicas e, em conseqüência desta melhoria, as cicatrizes têm se tornado menores com o objetivo de oferecer ao paciente resultados compatíveis com cada organismo. O cirurgião plástico se preocupa com a forma principalmente e, se dentro deste parâmetro ele consegue reduzir a extensão das cicatrizes, o resultado final poderá ser melhorado. Deve existir então uma harmonia entre forma e cicatriz. Se, por exemplo, uma mama está bonita, mas um pouco flácida, devemos nos preocupar com a forma dentro de uma cicatriz reduzida, pois não valeria a pena uma pequena modificação na forma deixando uma cicatriz extensa. Por outro lado, se a paciente apresenta mamas muito grandes e para a redução seja necessária a utilização de uma cicatriz maior em favor da sua forma final, esta será aceitável. Assim, a harmonia entre forma e cicatriz deve ser respeitada.
A redução das cicatrizes em mamaplastias tanto redutora como de aumento vem sendo discutida em todos os congressos nacionais e internacionais. Na mamoplastia redutora, as cicatrizes passaram de T invertido para vertical (sem a cicatriz horizontal) e para periareolar (somente ao redor da aréola); e na mamoplastia de aumento, isto é, na colocação de prótese de silicone, as cicatrizes podem ser no sulco infra-mamário, na aréola e na axila. Quando há a necessidade de levantar as mamas além do uso das próteses, a cicatriz pode ser ao redor das aréolas ou associada a uma cicatriz vertical.
Todos esses tópicos foram discutidos no II Curso Internacional de Cicatrizes Reduzidas em Cirurgia Plástica, que ocorreu recentemente em Curitiba. Tivemos a participação de 200 cirurgiões plásticos do Brasil e da América Latina e de convidados brasileiros e internacionais, dentre eles, Elizabeth Hall-Findlay, do Canadá, Claude Lassus, da França, Aldo Mottura, da Argentina e Arturo Prado, do Chile. Tivemos seis cirurgias realizadas ao vivo no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, durante todo o sábado, dia 1º de outubro, em pacientes carentes, onde os cirurgiões acima citados, mais os brasileiros, João Carlos Sampaio Góes, de São Paulo, e Ruth Graf, de Curitiba, demonstraram suas técnicas próprias em mamas com cicatrizes reduzidas. Houve uma integração muito grande entre o centro cirúrgico e o auditório no Hotel Holliday Inn de Santa Felicidade, onde os participantes assistiam às cirurgias, faziam perguntas e tiravam suas dúvidas em cada cirurgia demonstrada.
Durante estes eventos científicos há momentos de integração entre colegas de mesma área de atuação com um crescimento muito grande da especialidade. E um evento desta grandeza ocorrendo em Curitiba nos dá um orgulho muito grande e torna gratificante nosso trabalho dentro da cirurgia plástica.
RUTH GRAF é presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (Regional do Paraná)
Espiritualidade, melhor que cultura
Walmor Macarini
Se a pessoa for bem educada e culta, tanto melhor, mas se apenas esses atributos forem desenvolvidos e não o da espiritualidade, o indivíduo terá avançado pouco e não obterá a sabedoria que o faça consciente da razão de sua existência, conhecedor de si mesmo e, por extensão, feliz. Espiritualidade não significa religiosidade, porque esta se vincula a dogmas, diferentes em cada religião e por isso geradores de dissidências.
Espiritualidade é um elevado estado de consciência, que transcende o apego a um credo, que como diz o nome é uma crença, portanto passível de converter-se em descrença. Espiritualidade é o alcance da plenitude do entendimento, que não dá margem a dúvidas e a retrocesso, afasta fanatismos e idéias de pecado e de presenças demoníacas, situando todas as pessoas como iguais, sem perturbações quanto à doutrina que cada qual professe. Espiritualidade não é cultura, mas descoberta. Depois que se a alcança, não há retorno.
É equívoco acreditar que os problemas sociais e existenciais se revolvam apenas por via da educação e da elevação do nível cultural de um povo. Se houvesse necessidade de optar entre uma civilização educada e culta e uma sem esses atributos mas espiritualmente evoluída, esta última hipótese seria a preferencial. Nações indígenas de grande sabedoria, obviamente não conheciam letras.
Cultura é também a educação de berço que uma pessoa recebe e segue, mas refiro-me especificamente à convencional, aquela de saber coisas, de muito ler, de acumular conhecimentos sobre arte, história, filosofia, ciência, humanidades, que às vezes levam o indivíduo ao endurecimento, à exacerbada materialidade e ao ateísmo. Einstein era um cientista, mas sobretudo um místico. Situava-se na sua intuição e não apenas no intelecto a fonte onde ele ia beber.
Quando foram enredados a entrar na grande guerra, seduzidos pelo discurso de um homem, os alemães formavam um povo alfabetizado e de considerável cultura. Esses conhecimentos não os haviam preparado para uma solução sábia dos problemas da Alemanha que não fosse o morticínio. De nada lhes adiantou serem alfabetizados e cultos. Todos sabemos que os norte-americanos têm uma grande bagagem escolar, no entanto são amantes de guerras e cultores da violência, da dominação, da ingerência em outras nações.
O povo europeu, o mais alfabetizado e culto do mundo, é muito mais frio e racional, e com mais elevado grau de neuroses, do que a gente brasileira, que é no geral pouco letrada, não muito culta e sofredora, pelas suas carências sociais. Verdade que, se é religiosa, só aos poucos vai avançando em espiritualidade, mas nesse campo está adiante de muitos povos.
Retomando o fio da meada, se é necessário alfabetizar e semear cultura, fundamental é a busca do despertamento para valores infinitamente maiores, como o do reencontro da espiritualidade, que é inerente a todos, mesmo os aparentemente cruéis. Ela não está nas alturas nem é muito encontrável no interior dos templos, mas está dentro de cada um.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina
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