Religião: construtora de sentido
Alessandra Castanho di Creddo Galletto

As religiões são obras cujas reproduções se pintam com diferentes estilos, cores, quadros, pincéis. Mas todas reúnem a mesma inspiração. Resumem-se nas mais variadas fábulas, personagens, deuses, anjos, demônios e caminhos. É a religião que busca completar o vazio de sentido existencial do ser humano. As pessoas carregam consigo uma concentração de fé e prescisam acreditar em algo, para receberem de volta uma fé renovada do mundo em si mesmos e serem capazes de sonhar. Todas as religiões nos ensinam a interagir com nós mesmos e com todos os outros. Assim, elas se tornam um norte universal que permanece inalterável independente da perspectiva religiosa em que se instalam. Mas o que causa os conflitos entre elas? Se o norte é para todos, por que brigamos entre nós para alcançá-lo? Qual a razão de tantos conflitos? O ser humano é a imagem de Deus, refletida na realidade. Tem capacidade de pensar, sentir e falar. E de compreender aquilo em que acredita.
Existe uma variedade de crenças por causa disso. Cada um escolhe a religião que melhor lhe traz essa compreensão do divino e seu papel no universo. Ela nos motiva a alcançar o transcendente e a interagir com ele em nosso dia-a-dia. E nós, mesmo sendo a imagem concretizada de Deus, possuímos ainda uma parte inconsciente que não se adapta às diferenças entre pessoas. Talvez seja isso o que gera tantos conflitos religiosos. O ser humano ainda é humano antes de Ser. Alguns de nós temos toda a nossa fé concentrada em um objetivo só. Isso nos faz perder a nossa alteridade e cria esses conflitos, esses preconceitos entre diferentes perspectivas religiosas sobre o que é certo e o que é errado. Se cada um de nós pudesse cultivar e cativar os valores que tanto estudamos, examinamos e avaliamos na escola, talvez nas futuras gerações exista espaço para a paz entre nossos filhos, netos e bisnetos. O mundo jamais será perfeito. Mas talvez possamos melhorá-lo até que ele se aproxime disso.
ALESSANDRA CASTANHO DI CREDDO GALLETTO é aluna de 8 série no Colégio Marista de Londrina

Recanto de calmaria chamado Brasil
Walmor Macarini

Nós brasileiros temos que erguer nossas preces em constante agradecimento por vivermos num país livre de desastrosos fenômenos da natureza como os que acabam de ocorrer em Nova Orleans, na Guatemala e no Paquistão. Eu vivi um acontecimento semelhante. Foi em 1992, em Miami, quando ocorreu o furacão Andrew. Faço este relato para dizer da sensação de medo então vivido e porque, naqueles dias, senti mais uma vez o quanto era bom viver no Brasil. Em outras viagens a pontos diversos do mundo sempre tivera idêntico sentimento.
Eu e meu filho, Vandré, retornávamos de um giro pelos Estados Unidos (em parte de automóvel, pagando pedágios de frações de dólar) e cumpríamos na Flórida a última etapa. A angústia começou quinze horas antes do furacão, quando o sistema de alarme coletivo anunciou que todos tinham que descer e sair da cidade. Descer, era para quem estava nos edifícios altos. Voamos escada abaixo (pois o elevador é um risco, nesses momentos). Só então fomos informados do que iria acontecer. O furacão já estava no oceano e chegaria à costa pela madrugada. Como estávamos de carro, seguimos, a partir daí, a lenta e quilométrica caravana de milhões de automóveis, cheios de gente, em fuga para lugar seguro.
Depois de rodar longo trecho, resolvemos entrar num hotel, à margem da rodovia. Não havia vagas, óbvio. Disse que ficaríamos no saguão, não precisaríamos dormir. Meia-noite, o hotel já estava todo ''pregado'' por fora. É um sistema de placas metálicas encaixáveis nas janelas e portas, para que as vidraças não se rompam. Cinco da manhã, o barulho da tempestade era ensurdecedor, embora o olho do furacão estivesse passando fora dali. Foi rápido. Prédios altos não caem, porque construídos à prova dessas turbulências, mas tudo o mais sofreu grandes danos. Quando o dia clareou voltamos à cidade, para ver os estragos. Curiosidade de jornalista. Munidos de identidade profissional, a polícia deixou que entrássemos no núcleo mais conflagrado.
Não há nisso nenhum ufanismo, mas poucas pessoas devem ter visto Miami downtown sem um único cidadão nas ruas, a não ser o pessoal da segurança civil, alguns jornalistas e assaltantes furtivos. Casas flutuantes estavam emborcadas nas marinas, barcos e pequenos aviões de turismo arrastados até o meio das ruas, árvores e postes caídos, um caos. Halls e lojas do primeiro piso, ao longo da Collins Avenue, estavam destruídos, com os vidros estilhaçados e os recintos cheios de lama. Os enlatados dos supermercados ficaram estufados ou estourados. As piscinas estavam abarrotadas de sujeira escura, pedras e destroços. Houve mortos mas felizmente poucos, nesse que não era o primeiro furacão, nem violento como as tragédias que acabam de ocorrer, nem algo como as tsunamis. Filmamos e gravamos tudo aquilo, mas nada publiquei na época porque as agências de notícias já haviam suprido os jornais, como de costume.
Viso, ao narrar isto, que reflitamos um pouco sobre as maravilhas deste país que habitamos que precisa, sim, de grandes consertos, mas aqui não temos essas coisas, nem guerras. (Sem que nos esqueçamos das preces em benefício de tantos flagelados, vivos e mortos, e que ajudemos a quem for possível). Dizem as mensagens que nos chegam das esferas mais elevadas que o Brasil, ''coração do mundo e pátria do evangelho'', foi poupado de muitas tragédias, pelas regências superiores, para que aqui se plantem os alicerces de um novo e maravilhoso mundo, que em breve começará a se desenhar.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup