ESPAÇO ABERTO
Desarmamento e violência
Luiz Carlos Ferraz Manini
A velha máxima de que contra fatos não há argumentos parece cada vez mais distante de nós. Não há fato que não seja uma construção relativa a um sistema de pensamento particular, o que implica dizer que um único acontecimento possui no mínimo duas versões. Existem tantas realidades diferentes quantos cidadãos no mundo.
Porém, o que nos interessa de fato é a questão do desarmamento, cuja execução traz consigo a idéia de uma diminuição da violência, uma vez que poríamos fora de circulação uma grande quantidade de armas que promovem atos de disparate. No entanto, a questão parece ir um pouco mais além do que isso.
Em primeiro lugar, todas as armas são fabricadas de modo legal; quanto a isso, não há dúvida. O que muda com a questão do desarmamento não é a fabricação, e sim o comércio de armas de fogo. Estas deixarão de ser acessíveis ao cidadão que poderia adquiri-la no mercado formal, registrando-a e portando para sua segurança (o que é muito discutível). Apesar disso, as apreensões de armamento junto a criminosos dificilmente mostram uma quantidade de armas leves, como as vendidas nas lojas especializadas, maior do que aquelas que são de uso exclusivo do exército ou da polícia. Estas, nenhum cidadão de bem compraria em uma loja, não sendo possível ao bandido roubá-la. Estas vêm por meio do comércio ilegal, de importação criminosa, sobre a qual o a proibição terá efeito zero.
Em segundo lugar, o desarmamento vai tirar o suposto meio de proteção do sujeito comum; no entanto, numa situação em que poderia ser instado a utilizá-la, este indivíduo dificilmente conseguiria fazê-lo, já que possui uma vida estabelecida, com parâmetros e planos dos quais não abriria mão, mesmo amparado pelo mecanismo da legítima defesa. Já o delinqüente que se encontra na situação de utilizar uma arma de fogo não tem as mesmas preocupações, pois se apela para tal meio, é porque já não tem nada a perder.
O que de fato nos preocupa é que o desarmamento da população civil não vai reduzir a criminalidade, nem mesmo a violência. Não estamos trabalhando para dissolver suas causas profundas, como a extrema desigualdade social, a manutenção de uma sociedade de consumo que transforma produtos supérfluos em necessidades e também uma cultura de violência, banalizada como meio comum para o alcance de qualquer objetivo. Mais do que a violência física, precisamos acabar com a violência simbólica, que torna o consumo um status social; que transforma homens em seres que estão muito aquém de qualquer noção de dignidade; que transforma pobreza, cor de pele, nível de instrução em situações risíveis, como as perpetradas em rituais tão banais como as famosas piadinhas de mau gosto.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História
em Londrina
Ser criança
Gabriel Evandro Moreira Novaes
Hoje, mais uma vez, cheguei tarde em casa e fui ver meus filhos dormindo. Olho para os seus rostos despreocupados. Em seus olhos fechados, vejo o sono dos justos, o sono da infância e, perdido neste olhar, tento lembrar-me quanto tempo faz que não durmo assim. Não consigo me lembrar. Mas da minha infância, ah meu amigo, desta eu me lembro bem.
Raras são as pessoas que não estampam no rosto aquele sorriso espontâneo, meio envergonhado e meio atrevido, quando recorda ou fala da sua infância. Não existiam preocupações. Aliás, existia sim: livrar-se da tarefa da escola o quanto antes para sobrar mais tempo para as brincadeiras. Parecia haver uma época para tudo: época de pião, época de pipa, de bolinha de vidro, de estilingue, do futebol, dos carrinhos de rolimã, a sim quase me esqueço do bétis. Quem nunca jogou bétis, não sabe o que perdeu! É lógico que eu falo pelos meninos.
Outras brincadeiras aconteciam com a ajudinha lá de cima, pois era só chover que novas brincadeiras apareciam, é lógico que não escapávamos de umas broncas e até umas chineladas da mamãe. E existiam brincadeiras atemporais: esconde-esconde, passa-anel, cirandas de roda, mãe-da-rua, pé-na-lata, entre muitas outras. Não falei? Acabei de viajar no tempo e estou aqui parado em frente à porta do quarto de meus filhos, rindo sozinho.
Você já parou e pensou que para uma criança não existe tempo ruim. Tudo o que é novo chama a atenção delas, e assim continua por um bom tempo até o momento que este novo passa a agredir alguém. Por que nós, depois de adultos, não conseguimos lidar tão bem com a novidade? Será que esta novidade é que nos agride, e por isto encrencamos com nossos filhos, irmãos mais novos, sobrinhos? Ou será que simplesmente perdemos o desafio de ser criança?
Perdemos o ímpeto de conhecermos o novo, de buscar resolver os problemas de maneira simples e não demonstramos mais a alegria que antes fazia parte do nosso semblante? Já repararam que, depois de um tempo ficamos extremamente nervosos quando somos chamados de infantis ou mesmo de criança? Talvez sejamos imaturos, mas que bom seria se fôssemos criança novamente.
Depois que fechamos e acortinamos uma janela, deixamos de ver e de sentir o sol, a chuva, o luar, os cheiros. E logo nos acostumamos com isto. ...lá fora está chovendo.
Devagar, tiro meus sapatos, e já com alguma pressa abro a porta e saio na chuva. Deixo que ela lave um pouco do meu ser adulto e, entre chutar uma poça de água aqui e outra ali, espero que ela traga de volta um pouco da minha infância. Feliz Dia das Crianças a todos.
GABRIEL EVANDRO MOREIRA NOVAES é graduado em História pela Universidade Estadual de Londrina
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