PEI: desenvolvendo o potencial intelectual

Carlos Eduardo de Souza Gonçalves
  Mostram-se comuns nas escolas questionamentos que transparecem angústias de bons professores e equipes pedagógicas: ‘‘Como faço para ensinar esse conteúdo para alunos que chegaram nessa série sem dominar conteúdos de séries anteriores? O que fazer com alunos que parecem não querer pensar nem participar das aulas? Devo aceitar diagnósticos de dificuldades de aprendizagem diminuindo conteúdos e exigências, aprovando-os sem pré-requisitos ou superar os rótulos? Se a proposta for superar o diagnóstico, como fazê-lo?’’.
  Procuro aqui apresentar informações que podem nos fornecer algumas respostas dadas pela Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural (MCE) de Reuven Feuerstein. Seu fundamento é de que o ser humano tem a capacidade única de analisar e modificar continuamente a estrutura de seu próprio pensamento, modificando conseqüentemente sua vida em diversas dimensões afetivas, sociais, profissionais e acadêmicas. O indivíduo que apresenta baixo nível de desempenho cognitivo é aqui visto como alguém incapaz de expressar seu potencial interno existente. Uma das principais razões para tal dificuldade está em funções cognitivas deficientes que não se desenvolveram suficientemente por falta de Experiências de Aprendizagem Mediada (EAM) adequadas. O mediador (promotor da aprendizagem que se interpõe entre o indivíduo e o meio que o cerca) é, portanto, o responsável por fazer a ‘‘ponte’’ entre os aspectos socioculturais e o desenvolvimento cognitivo.
  Feuerstein elabora então um programa de desenvolvimento intelectual, o PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental). O PEI reúne 14 instrumentos de intervenção psicopedagógica livres de conteúdos disciplinares que servem como meio para o trabalho do mediador de análise e desenvolvimento de funções cognitivas, promovendo a MCE. Tem também como objetivos promover aquisição de vocabulário, conceitos e operações para resoluções de problemas, criar motivação intrínseca, criar ‘‘insight’’ e pensamento reflexivo e mudar a autopercepção do indivíduo de ser passivo e reprodutor de dados em ser ativo e gerador de novas informações. O PEI se baseia no pressuposto de que todo ser humano, independente de suas limitações, tem potencial cognitivo a ser desenvolvido por meio de adequadas EAM em qualquer idade, estimulando-se também o sentimento de competência, a autonomia e a autoconfiança.
  Por meio da Teoria da MCE e do PEI, podemos concluir que pelo menos duas condições são fundamentais para a aprendizagem adequada: ensinar a pensar de forma eficiente e autônoma; e promover o prazer e a auto-estima pelo ato de pensar.
CARLOS EDUARDO DE SOUZA GONÇALVES é mestre em Educação e Mediador do PEI e psicólogo clínico e escolar em Londrina


Arma ou não, dividindo opiniões

Walmor Macarini
  Conta-se do homem que vivia pelas esquinas a maldizer o batalhão da cidade, até que um dia os comandantes resolveram dar-lhe uma lição. Condenaram-no ao fuzilamento. Seria apenas uma encenação, mas cercada de todos os requintes de realidade. Ia ser ao clarear do dia, conforme a tradição. Amarrado ao palanque, seus olhos nem foram vendados para que ele presenciasse toda a cena. O pelotão perfilou-se e fez pesada descarga. Passada a saraivada, o homem ‘acordou’, pensando já haver passado desta para a melhor. Só constatou que não quando o que deveria ser o chefe, com o dedo em riste bem diante de seu nariz, advertiu-o que desta vez ele tinha se livrado, mas a próxima... De volta às ruas, foi como se nada houvesse acontecido com ele. Pior, foi espalhando pra todo mundo que, além de tudo o que ele vinha dizendo, a tropa estava sem munição.
  Armar os cidadãos ou não, eis a questão. As opiniões se dividem, mas é quase certo que, no referendo do dia 23 os cidadãos votarão pela proibição do comércio de armas de fogo, ou seja, contra o armamento civil. O que irá ocorrer, já se imagina: quem aprecia arma, a manterá em casa, mesmo correndo o risco de prisão inafiançável. Quem não a tem mas gosta, desejará comprar uma, na clandestinidade, até pelo fascínio da proibição. No coldre ou no automóvel, será fácil localizar uma arma, mas como a polícia não poderá invadir domicílio sem ordem judicial, será difícil apreendê-la nas residências.
  Então poderá acontecer de, em caso de revide com arma, e de eventual morte de um assaltante, quem matar valer-se do benefício da legítima defesa – sua ou de terceiros – mas ser preso por posse de arma. Algo inusitado nos anais da criminologia brasileira. Gente do campo defende a necessidade de arma. Porque todo bandido sabe que em casa de agricultor há, no mínimo, uma espingarda. Então, o dilema: se a arma existe e nunca for preciso usá-la, tanto melhor. Mas se for, quem estiver com o dedo no gatilho ficará indeciso: se puxar, pode livrar-se do bandido mas não da cadeia.
  Não há estatística que o comprove, mas supõe-se que a sociedade é que arma o bandido, porque, no assalto a residência, ele busca tudo e também armas. Provável, então, que a maior parte do armamento não-pesado em poder dos delinqüentes tenha essa origem. Arma em casa também pode facilitar assassinatos por desavenças conjugais, ou outras, ou causar acidentes se em mãos de crianças. É comum acontecer. Facas de ponta são também armas perigosas, e seu fabrico deveria ser proibido. Nenhuma faca precisa ter ponta.
  De minha parte, pela crença de que semelhantes atraem coisas afins, penso que arma de fogo atrai o crime, porque ela foi fabricada para matar. Não a criaram para coçar as costas, mas para expelir bala, na direção de um alvo vivo. Desarmar primeiramente o bandido é o ideal. Mas como? Antes, há que identificá-lo, prendê-lo e depois tomar-lhe a arma. E o bandido potencial? Como saber quem o é? Minha comissária de cozinha, já um pouco idosa, simplória e sem muito entender do referendo e de suas implicações, diz que não gosta de pessoa ‘‘desarmada’’ (o seu dizer de gente ruim), e que tem medo, sim, é de ‘‘arma do outro mundo’’.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


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