ESPAÇO ABERTO
Línguas estrangeiras nas escolas
Telma Gimenez
Depois de tramitar por quase 5 anos no Congresso Nacional, foi assinada, em 5 de agosto, a Lei 11.161 que torna obrigatória a oferta da língua espanhola nos currículos plenos do ensino médio. Embora a matrícula seja facultativa, a medida foi festivamente celebrada pelas editoras espanholas no Brasil, conforme mostram as reportagens nos jornais. Não é de se espantar, considerando o mercado de livros didáticos que se abre com esta iniciativa.
Desde os tempos do Império que as línguas estrangeiras têm ocupado espaço no currículo escolar. De uma época em que conviviam diversas línguas passamos à atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, que torna compulsória uma língua estrangeira moderna de 5ªa 8ªséries e no ensino médio acrescenta ainda a possibilidade de uma segunda língua estrangeira, dependendo das condições da escola.
Como a língua pode ser escolhida dependendo da região do país, teoricamente poder-se-ia optar por qual língua estrangeira estudar. Se houvesse comprometimento com o plurilingüismo, as escolas ofertariam várias línguas estrangeiras. Não é, porém, o caso. Desde a década de 70, a língua inglesa vem ocupando espaço cada vez maior nas escolas, em função de sua valoração pela sociedade em geral. O próprio ministro da Educação, Fernando Haddad, reconhece que o inglês tem sido prioridade em virtude da situação em que se encontram o mundo e a ciência.
Talvez para contrapor-se a essa hegemonia e estreitar laços com a América Latina, em consonância com a política externa brasileira atual, cria-se agora a obrigatoriedade de oferta da língua espanhola. Se isto representar um passo adiante para tirar do papel o compromisso com o plurilingüismo, a medida deve ser realmente celebrada. No entanto, devemos acompanhar, com preocupação, os desdobramentos da implementação da lei, pois as políticas lingüísticas raramente seguem os interesses maiores da população.
TELMA GIMENEZ é professora do departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Estadual de Londrina
Ética, mídia e espetáculo
Clodomiro José Bannwart Júnior e
Stela de Castro Bichuette
Oswald de Andrade, na obra Serafim Ponte Grande, registrou uma frase que merece destaque: E vejo tudo lucidamente. Sou o crítico teatral de minha própria tragédia. Essa mesma frase se aplica à situação vivida semana passada pelos passageiros do avião da BlueJet. O pouso arriscado da aeronave teve ampla cobertura da mídia, o que permitiu às pessoas a bordo testemunhar aquilo que se transformou em espetáculo. Viajantes e tripulação ocuparam, ao mesmo tempo, a posição de protagonistas e de espectadores da própria sorte. Sem querer satanizar a mídia, é interessante notar sua capacidade de transformar personagens em espectadores e realidade em espetáculo ou vice-versa.
Ainda há poucos dias, caso semelhante aconteceu em São Paulo. Um programa de auditório colocou no ar, ao vivo, o drama de uma família refém de assaltantes. O mais impressionante é que a equipe de reportagem disponibilizou um celular aos criminosos para contato com o apresentador. Pôde-se, então, assistir à negociação entre apresentador e bandidos. Não se quer julgar o preparo técnico do apresentador para ocupar tal função, o que se quer é destacar, mais uma vez, que os personagens deste drama puderem em tempo real assistir a si mesmos, da sala de TV, palco do espetáculo.
A proporção descomunal de espetáculo fabricada pela mídia abrange os eventos planetários, incluindo, as viagens do papa, as copas do mundo e os jogos olímpicos, até acontecimentos como os ataques de 11 de setembro, as guerras no Afeganistão e no Iraque, as secas e as enchentes, e, agora, os furacões Katrina e Rita nos EUA. A par desses fatos verifica-se um fenômeno que vai além da simples transformação do real em espetáculo: ocorre também a mobilização orquestrada pela mídia que conduz as ações dos indivíduos para fins diversos.
Recentemente, a terrível catástrofe provocada pelas ondas gigantes causou comoção em todos os cantos da terra. Não desconsiderando a ajuda humanitária, o espetáculo midiático, somado ao teleassistencialismo e aos apelos de solidariedade com as vítimas, nos conduziram aos postos de arrecadação, instalados em todos os cantos, para a prática de um ato de generosidade. Porém, continuamos indiferentes perante a realidade daqueles que permanecem nas ruas, nos semáforos e nas favelas de nossas cidades. Parece que o espetáculo criou mais força para nos sensibilizar do que a própria realidade cotidianamente experimentada. Se isso ocorre de fato, então temos de rever nossos valores. É possível que a nossa concepção ética não esteja mais alicerçada em valores reais, mas reciclada nas leis do espetáculo, do show e da simples distração midiática que orquestra nossas atitudes a seu bel-prazer. Talvez, não sejamos mais críticos de nossas próprias ações.
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR e STELA DE CASTRO BICHUETTE são, respectivamente, professor do departamento de Filosofia e mestranda em Letras na Universidade Estadual de Londrina
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