ESPAÇO ABERTO
Desarmamento: onde começar?
Antônio Gurgel do Amaral Júnior
A questão da crescente violência, razão básica do iminente referendo sobre desarmamento, tem causas mais complexas, que necessitam de abordagem imediata e profunda reflexão.
As crianças e os jovens estão sendo moldados em seu comportamento à imagem e semelhança da insensibilidade, da crueldade e da violência. Onde estão as raízes do problema? A análise não é simples. Todavia destaco aqui uma vertente pouco enfatizada em relação a sua importância, de influência sutil, mas de resultados desastrosos; refiro-me à influência da mídia, no que diz respeito ao seu aspecto ruim, à subcultura que esparrama nos lares. Sabe-se que uma criança norte-americana média terá presenciado até os 18 anos cerca 18 mil assassinatos simulados na televisão. No Brasil, o drama é parecido ou talvez pior. A maioria das crianças passa mais tempo diante da televisão ou do videogame do que na escola ou com seus pais.
Os educadores sabem: o aprendizado se realiza em dois estágios: imitação e identificação. O estudante Mateus da Costa Meira, em 1999, disparou tiros de submetralhadora na platéia de um cinema em São Paulo, matando três pessoas, repetindo as mesmas seqüências do game Duken Nuken. Imitou e se identificou com desastroso êxito.
As crianças em conflito no lar tendem a se identificar com personagens da televisão ou de jogos virtuais. As que têm bons relacionamentos familiares estão mais protegidas contra essa identificação. A violência na mídia gera: medo, que transtorna a vida emocional; dessensibilização, que torna pessoas anormalmente insensíveis com tendência à crueldade; e, o mais emblemático, o aprendizado de comportamentos violentos e de atitudes agressivas. Nas últimas décadas o número de homicídios entre jovens aumentou de modo assustador. Segundo estatísticas, a violência entre jovens quaduplicou.
A violência está nos filmes, novelas, programas apelativos. Até os anúncios diários dos filmes da noite são carregados de violência, sendo difícil impedir que a criança veja. E não me venham com a história do controle remoto! E que dizer dos desenhos animados para crianças? A questão é tão grave, que o apelo deve ser com veemência aos responsáveis: Pelo amor de Deus! Desarmem os desenhos infantis! Desarmem os filmes! Desarmem a mídia! Com tanto substrato para a violência, será difícil contê-la, caso não haja bom senso e disciplina nos meios de comunicação. Se não se contiver essa avalanche de tiros, murros, facadas e sangue que jorram para nossos lares, toda e qualquer lei de desarmamento será um ato de pura hipocrisia.
ANTÔNIO GURGEL DO AMARAL JÚNIOR é médico cardiologista em Londrina
A educação e a onça pintada
José Roberto Reale
Já é tempo de destacar a importância da sala de aula para a formação de cidadãos e a importância da profissão do professor, que forma novas consciências e transforma pessoas. Esse profissional deveria ser um dos mais bem pagos em nosso país. A realidade é bem diferente. Se a educação e o professor fossem plenamente valorizados, o Brasil seria diferente e, com certeza, não estaria na condição de país em desenvolvimento. Enquanto a educação não for valorizada, o país não perderá essa condição de dependência e subserviência às grandes potências. Dentro da sala de aula, desde os primórdios de nosso caminhar, horizontes se descortinam, novos mundos surgem e a esperança de vida melhor é vislumbrada. Segundo dados já divulgados na imprensa, até o início da década de 1970, nosso PIB (Produto Interno Bruto) era semelhante ao da Coréia do Sul. Era a época do milgare econômico em plena ditadura militar.
Em pouco mais de 20 anos, a Coréia do Sul deu um salto fabuloso e por tal razão passou a ser conhecida como um dos tigres asiáticos. Isto é, países orientais que deram um salto de qualidade, semelhante ao do grande felino em dias de caça. E qual foi o milagre? Investimento maciço em educação, desde a base até o ensino superior, à produção teconológica e o desenvolvimento da ciência. De país importador passou a exportador. Vide exemplo das grandes multinacionais daquele país instaladas no Brasil, algumas até patrocinando o maior divertimento do brasileiro: o futebol. Enquanto isso, o Brasil vive de nostalgia. Em todos países desenvolvidos sempre houve uma preocupação com a educação, com o pensar, com a ciência, pois é através dela que surge o progresso. Logo, percebe-se que a educação é a chave para o desenvolvimento e o crescimento de uma nação, única forma a inserir os cidadãos socialmente proporcionando-lhes o exercício de sua cidadania. E isso começa lá da base, na sala de aula.
O ensino fundamental da pré-escola à 8ªsérie deveria ser o mais valorizado, com salários dignos para professores, bibliotecas, laboratórios, computadores, etc. e como diz a professora Samira Kfouri, tendo o aluno como referência e não como ponto de partida. Aqui ainda se valoriza o ensino superior, numa visão neoliberal, onde o telhado é mais importante que o alicerce, criando uma situação cáotica de analfabetos de 3º grau. Nos cursos de Direito, por exemplo, parte dos bacharéis em Direito tem que se submeter aos famigerados cursinhos para poder passar no exame da OAB e só assim poder trabalhar na carreira escolhida.
O desafio de formar cidadãos é enorme. Vai requerer que toda a sociedade participe e exija que a educação seja a ferramenta para o desenvolvimento do Brasil. Significa dizer que precisamos tomar a capacidade de operar essa mudança e com isso mudar nossa própria condição. Como já disse Rubens Alves, o saber tem que ter sabor. Seguindo essa linha de raciocínio, podemos ser uma nova Coréia, um tigre sul-americano e como aqui não existem tigres, talvez uma grande onça pintada do continente.
JOSÉ ROBERTO REALE é procurador do Município de Londrina, professor universitário e pós-graduando em Metodologia do Ensino Superior pela Unopar
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