Aposentadoria sexual?

Moacir Costa
  É comum as pessoas se mostrarem preocupadas com a aposentadoria, principalmente quando a maior parcela da nossa população recebe uma quantia irrisória, motivo mesmo de vergonha e insegurança. Eu gostaria de salientar que mesmo tendo a certeza de uma aposentadoria insuficiente é sempre oportuno pensar, qual ou quais serão as mudanças que inevitavelmente irão ocorrer no estilo de vida da pessoa que se aposenta.
  Tem sido comum observar principalmente entre os homens que passaram dos 55/60 anos e estão aposentados, as alterações de humor, irritabilidade, apatia que começa a surgir a partir de 6 meses após a aposentadoria. Antes disso, a sensação é de lua de mel, de descompromisso com horários, para dormir ou acordar, as surpresas em pagar meia entrada no cinema, etc.
  É importante lembrar que a maioria dos homens nessa idade não foram educados para tirar maior proveito do lazer e das atividades sociais, pelo contrário, aprenderam a se dedicar somente ao trabalho, passaram a maior parte da vida falando de preocupações e algumas conquistas profissionais.
  As mulheres são bem diferentes: quando se aposentam aproveitam o tempo livre para leitura, trabalhos manuais, pintura e muita conversa afiada. Nesse aspecto as mulheres são imbátiveis a ponto de tornar um assunto ou tema comum em algo interessante.
  Esses aposentados gastam a maior parte do seu tempo dentro de casa, assistindo TV, esquecendo até de tirar o velho pijama. É nesse clima monótono e repetitivo que muitas pessoas carregam a sua aposentadoria como se fosse um fardo pesado que provoca falta de entusiasmo e baixa estima. Esses homens perdem o contato com a vida, se mostram sexualmente incapazes, devido o agravamento da depressão e das doenças que começam a surgir nessa fase da vida (hipertensão, diabetes e doença prostática).
  É natural que a sexualidade deles entra em queda livre e isso deixa-os angustiados e mais tristes. É necessário uma avaliação médica de preferência com urologista para verificar a integridade ou não da próstata e avaliar o nível de testosterona que é responsável pelo desejo sexual.
  Após 60/70 anos, a queixa mais comum nos homens é a falta ou manutenção da ereção. As mulheres, aparentemente quietas sexualmente, quando têm um companheiro respondem de forma afetiva e sensual ao namoro. Com o surgimento de novos medicamentos para a disfunção erétil tem se tornado mais fácil a retomada da autoconfiança e do prazer, tornando a vida a dois mais gratificante. Pelo visto é possível evitar a aposentadoria sexual.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo
n Caro leitor Caso tenha dúvidas sobre Sexo ligue grátis para 0800-770-6543, de 2ªà 6ª, das 10 às 18h. O atendimento é realizado por médico ou psicólogo. Querendo saber mais acesse o site: www.projetoamarbem.com.br


O homem e o mito

Luiz Carlos Ferraz Manini
  A cassação de Roberto Jefferson (PTB) não trouxe nenhuma surpresa ao povo brasileiro, que, se bem informado, já saberia de antemão que a cabeça do deputado poderia (e com certeza iria) rolar. No entanto, se mesmo o mais mortal dos cidadãos estava cônscio deste destino, o que fez com que o deputado não renunciasse e garantisse seus direitos políticos, agora suspensos por alguns anos?
  Um livro de Raoul Girardet nos traz certa compreensão do ocorrido. Em seu ‘‘Mitos e Mitologias Políticas’’, o estudioso francês aponta algumas construções simbólicas muito utilizadas no cenário político. Em especial na era contemporânea, que após a Revolução Francesa criou a instância política enquanto reguladora de todos os conflitos da vida. Ao invés de apelarmos para a tradição ou a religião, apoiamo-nos no império da lei para dirimir pendências.
  Através da utilização de mitos como a conspiração ou da idade de ouro, retirados da cosmologia judaico-cristã, os homens públicos constróem seus impérios no âmago do Estado. O que nosso colega trabalhista Jefferson fez não foi nenhuma novidade, nem imprudência, mas um golpe de perícia para, de certa forma, mitificar-se e tornar-se, em certa medida, indelével na memória do povo.
  Sua participação em todo o esquema de corrupção foi altamente documentada e corroborada por outros elementos que também tinham seus nomes envolvidos em tais armações: porém, adiantou-se e passou de réu a acusador, supostamente entregando todo um mecanismo de compra de votos e de propinas em troca de apoio político praticado pelo alto escalão do governo.
  Com seu nome diretamente envolvido em todos os escândalos, era somente uma questão de tempo para que se abrisse um processo de cassação contra os envolvidos, e neste ínterim seu nome seria o primeiro a figurar. Porém, deixou-se ser castigado, trazendo à baila o mito de Cristo, que, entre outras divergências com a sociedade de seu tempo, foi crucificado por ter entrado em conflito com os sacerdotes judeus que exigiam a cobrança de dízimos e controlavam uma generosa parte da economia da região. Fora levado à cruz por colocar-se contra o poderio econômico abusivo dos sacerdotes.
  Jefferson faz o mesmo: deixa-se tornar mártir, permite que o carreguem e o preguem na cruz da justiça, e entra para nosso imaginário como aquele que foi calado por dizer a verdade e por não compactuar com as desonestidades, apelando para uma construção simbólica que o promove a uma vítima da verdade.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


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