Endoscopia pode transmitir vírus da hepatite C ?

Sérgio Ricardo Spinosa
  A possibilidade de transmissão do vírus da hepatite C através da endoscopia foi o tema de uma matéria publicada no dia 19 de agosto pela Folha de Londrina, de um estudo apresentado no I Simpósio Pan-Americano de Vigilância Sanitária.
  O estudo revelou que de 54 pessoas com hepatite C, 25,9% haviam se submetido à endoscopia antes de descobrir que estavam com o vírus, enquanto que de 199 pessoas sem vírus, apenas 11,6 % haviam se submetido ao procedimento, sugerindo que a endoscopia seria mais um fator de risco. A autora relata que visitou 5 centros de endoscopia e verificou que apenas 1 tinha o protocolo de limpeza e desinfecção dos equipamentos, mas não o seguia.
  A própria autora reconhece que não há consenso entre os especialistas da relação entre a endoscopia digestiva e o risco de infecção pelo vírus da hepatite C. No entanto, os resultados não podem ser desprezados, afinal não há vacina e o vírus é extremamente agressivo. Estima-se que das pessoas infectadas, aproximadamente 65% desenvolverão hepatite crônica, cirrose e alguns, câncer hepático. Para a cirrose o único procedimento potencialmente curativo é o transplante hepático.
  Por outro lado, estudos publicados em revistas conceituadas relacionam o risco de infecção pelo vírus C, à transfusão sangüínea prévia, usuários de drogas injetáveis, uso de cocaína intranasal, promiscuidade sexual e piercing. E estudos que pesquisaram especificamente os riscos relacionados à endoscopia, não encontraram nenhuma associação ‘‘quando o procedimento foi realizado de modo apropriado’’.
  As normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária preconizam que é necessário que os endoscópios sejam descontaminados por no mínimo 20 minutos, que pinças de biópsia sejam esterilizadas por mais de 10 horas após cada coleta e que os acessórios de uso único não sejam reutilizados, sem a evidência de que a reutilização é segura. Essas normas precisam ser e são seguidas rigorosamente por profissionais conscienciosos.
  No entanto, os endoscopistas estão sob forte pressão por demandas cada vez maiores, custos cada vez maiores, mas recursos públicos ou dos planos de saúde incompatíveis com as necessidades que prejudicam a qualidade e a segurança dos procedimentos. Há uma batalha silenciosa entre aqueles que fazem endoscopia de modo apropriado e as fontes pagadoras, em que perdem os endoscopistas. Um desgaste desnecessário e na contramão dos avanços científicos e da própria legislação, pois seguir o protocolo de limpeza e desinfecção rigorosamente é garantia de que não há risco de contrair o vírus da hepatite C ou qualquer outra infecção. Afinal, a prevenção é o melhor remédio.
SÉRGIO RICARDO SPINOSA é médico em Londrina


Homeopatia: por que tanta polêmica?

Rosana Mara Ceribelli Nechar
  É com o mesmo sentimento de espanto e indignação em que nós nos encontramos nos últimos meses com a revelação dos bastidores políticos da nossa nação, que me permito fazer algumas reflexões e questionamentos. Mediante a confirmação decepcionante de que os interesses que regem os atos dos seres humanos são (na grande maioria, ainda) de ordem pessoal, e não coletiva, como bradam efusivamente os políticos nos palanques eleitorais, afirmo que nosso espírito crítico precisa ser urgentemente revigorado, enquanto médicos.
  Historicamente, a homeopatia vem sendo combatida periodicamente com os mais diversos argumentos, com publicações agressivas, mostrando claramente que incomoda muito alguns setores. Na semana que passou a revista ‘‘The Lancet’’ publicou um artigo, amplamente divulgado pela mídia, afirmando ter o remédio homeopático eficiência igual ao placebo. Ora, todos os homeopatas sabem que avaliar a homeopatia com os mesmos métodos que avaliam a alopatia é um grande absurdo. Enquanto a metodologia empregada nas pesquisas não respeitar a racionalidade científica própria dessa terapêutica que tem beneficiado centenas e centenas de pessoas, curando, melhorando sua qualidade de vida, agindo profilaticamente, fortalecendo sua imunidade, é claro que os resultados mostrarão que os efeitos são placebos. Os trabalhos respeitáveis que a cada dois anos são apresentados no Simpósio Nacional de Pesquisas Institucionais em Homeopatia estão aí para comprovar a ação real e racional do tratamento homeopático, nos padrões cientificamente corretos e isentos de interesses secundários.
  Quando a própria OMS confirma as ações benéficas da homeopatia, recomendando sua inserção no sistema público de saúde, devemos questionar com que propósito a cada seis meses ocorre um lançamento na imprensa mundial de um trabalho com conclusões errôneas. Será que os resultados estrondosos e a grande procura da população pela homeopatia incomodam tanto assim? Informações tendenciosas e vazias em seu conteúdo devem ser esclarecidas para não permitir que pesquisas duvidosas emitam pareceres em revistas com algum conceito de credibilidade, mas que ainda dependem de colaborações financeiras, cuja origem deve vir a público.
  A homeopatia se baseia em princípios fixos, comprováveis pela experiência clínica. O que vemos acontecer nos últimos anos, no entanto, são medicamentos alopáticos (aprovados em pesquisas consideradas sérias pelas mesmas publicações) rapidamente retirados do mercado pela indústria farmacêutica, alguns com riscos sérios para a saúde dos pacientes. Sendo assim, colegas, não deixemos de lado nosso espírito crítico, pois só assim voltaremos ao caminho dignificante na nossa missão como médicos, que deve objetivar única e exclusivamente a cura e o bem-estar dos nossos pacientes.
ROSANA MARA CERIBELLI NECHAR é médica homeopata em Londrina e membro da diretoria do departamento de Homeopatia da Associação Médica de Londrina

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