A indignação de Gabeira

Omar Taha
  O episódio recente da indignação do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) em relação à conduta do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), repercutiu de forma irrepreensível. Naquele momento Gabeira conseguiu expressar de forma direta o pensamento de boa parte da população traduzindo os sentimentos da maioria, em relação às condutas do presidente da Câmara Federal frente à acusações de corrupção generalizada naquela Casa.
  A conduta de Gabeira é emblemática e não é a primeira vez que isso ocorre. Algumas vezes ridicularizado devido às posições polêmicas, outras vezes endeusado como legítimo representante de minorias, o Fernando Gabeira teve participações importantes em momentos decisivos da história do País. Num primeiro momento, participou da luta armada contra a ditadura militar, tendo inclusive atuado como um dos agentes no seqüestro do embaixador americano no Brasil Charles Elbrick em 1969, inclusive, segundo jornalistas da época, tendo sido o responsável pelo lúdico bilhete escrito pelos seqüestradores que em troca exigiram a libertação de uma série de prisioneiros políticos, dentre eles o atual ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu.
  Num outro momento decisivo para a história do País, a fase de anistia e coroamento da abertura política, fim dos anos 70, Gabeira retorna ao Brasil, desfila de tanga de tricô em Ipanema e lança um livro que representa o pensamento das minorias da época: ‘‘O que é isso Companheiro’’, onde trata de temas complexos para uma sociedade recém-emergente de um processo político ditatorial como o homossexualismo frente ao esquerdismo, a descriminalização das drogas, a obsolescência do pensamento maniqueísmo tradicional de esquerda, dentre outros.
  Estas passam a ser suas bandeiras e, sempre ligado a pequenos partidos, como o PV - Partido Verde -, passa a ter uma atuação destacada na Câmara Federal, em sucessivas reeleições. E, após o apoio à eleição de Lula, sempre com algumas ressalvas, o deputado Gabeira recicla novamente suas idéias, enfrenta o presidente da Câmara de dedo em riste ameaçando cassá-lo e concede uma entrevista à ‘‘Folha de S.Paulo’’ onde revê uma série de posições políticas, dentre estas a própria possibilidade de um grande processo de articulação de setores de centro esquerda, a desmistificação de que só existem parlamentares honestos nos partidos de esquerda, dentre outras posições.
  Estas e outras posições fazem com que devamos estar atentos aos movimentos de Gabeira. Sua postura sinaliza a possibilidade de uma nova geração de políticos no País, mais antenados, conectados com a realidade atual onde a velocidade dos fatos e a volatilidade de conceitos éticos afeta rapidamente a sociedade como um todo.
OMAR TAHA é médico em Londrina


Cavalo de Tróia
Jorge Luiz Ampessan
  A Ilíada, um dos épicos de Homero, narra a guerra que causou a destruição de Tróia lendária, por volta do ano 700 a.C. no estreito de Dardanelos. A lenda do conflito entre ‘‘Aques’’ (da direita) e ‘‘Troianos’’ (esquerda) pela posse da cidade de Tróia (hoje Brasília - Congresso Nacional).
  Hoje, século XXI, ano 2005, comemora-se vinte cinco anos do Partido dos Trabalhadores que, analogicamente ao Cavalo de Tróia, penetrou no Poder Executivo para que fossem derrubados os banqueiros, os corruptos, os anões do orçamento público e os aliciadores de campanhas eleitorais, entenda-se ‘‘empreiteiras’’.
  No decorrer do processo em que foi montado o Cavalo de Tróia, supostamente tínhamos os ‘‘melhores guerreiros’’ para travar batalhas e instalar a ética e a moral de como deveria ser conduzido o lema ‘‘Ordem e Progresso’’ no Brasil. Mas esqueceram de fazer uma seletiva de pessoas idôneas.
  Com a vitória em suas mãos e embriagados com o poder, acabaram sendo contaminados ou contaminaram-se por ‘‘cupins, ratos e raposas’’ (políticos com fins individuais e não sociais) e tiveram como resultado as ‘‘malas, as caixas e cuecas’’ infectadas pela ganância. Isto acontece pelo fato de não existir punição exemplar, e porque no âmbito da sociedade prevalece a ‘‘Lei de Gerson’’.
  Como é possível um representante do povo entrar na esfera política possuindo um capital particular de ‘‘x’’ valor e, no decorrer do mandato, este mesmo valor é transformado em uma progressão geométrica exorbitante sem que haja uma fiscalização? Isso é normal?!
  Para que possamos destruir os eventuais ‘‘Cavalos de Tróia’’ na política brasileira, deve-se fazer uma reforma política com competência. Do contrário, teremos sempre os João Alves, PC Farias e Marcos Valério em governos paralelos.
  Lembrem-se de que os alicerces para construir nas próximas eleições os eventuais ‘‘Cavalos de Tróia’’ são: saúde, educação e segurança!
  Enquanto não tivermos verdadeiros políticos na sua essência, como representantes do povo e não representantes de ‘‘caixa 2’’, não serermos independentes e estaremos sempre submissos a outros países.
JORGE LUIZ AMPESSAN é professor em Arapongas

- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup