ESPAÇO ABERTO
Os contribuintes e as CPIs
Telma Gimenez
Talvez, pela primeira vez na história, temos a possibilidade de acompanhar, como a uma novela emocionante, o drama que se desenrola nas CPIs instaladas. Com o auxílio da televisão, grande parcela da população assiste, entre perplexa e desiludida, o desfile (que parece interminável) de falcatruas que são sendo reveladas a cada depoimento. Tem sido uma grande lição de quanto nós, eleitores, nos distanciamos dos que agem em nosso nome. Se já não tínhamos lá muita confiança em muitos políticos, agora parece que a decepção se generaliza e ficamos imaginando quem sobrará - quem conseguirá sair ileso desta história.
Na medida do possível tenho procurado assistir a alguns depoimentos (especialmente quando consigo não me irritar com as perguntas repetitivas, desconexas, de alguns membros da comissão). Uma a uma, se apresentam diante de nós figuras que confessadamente lesaram o fisco. Um deles, o Sr. Duda Mendonça que, a pedido do Partido dos Trabalhadores que o contratou, decide receber via Bahamas por considerar esta sua única opção. O prestigiado publicitário, especialista em marketing político, se confessa incapaz de mentir. Que ironia, se pensarmos que seu ''metier'' consiste em vender imagem e a imagem que nos ''vendeu'' foi a de um partido de homens honestos. Aceitou a proposta indecente como única forma de receber um dinheiro que ainda nem conseguiu ver. Concordou em não emitir nota fiscal - deixou de pagar imposto de renda sobre os milhões recebidos. E ele não está sozinho. Todos que têm seus véus retirados revelam atuar na ilegalidade.
Todo o caixa 2 das campanhas milionárias passou ao largo dos olhos e bocas do ''leão''. Se tudo isto é informal, ''não contabilizado'', significa que existe toda uma fonte paralela de receitas e de despesas. Parece que nenhum deles paga Imposto de Renda. Sobramos eu e você, leitor, para quem esses senhores dizem não poder alterar a tabela de correção. De nós é cobrado o sacrifício para a distribuição de renda, para justiça social, para os programas de governo. Por isso o número crescente de impostos. Enquanto isso, o partido do próprio presidente, segue incentivando e acobertando práticas ilegais. O presidente se diz indignado. Indignados estamos nós, contribuintes. Minimamente, o que esses senhores legisladores deveriam fazer, se tiverem vergonha, é reajustar a tabela do Imposto de Renda.
TELMA GIMENEZ é professora do departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Estadual de Londrina
Primeiro ser, depois exigir
Walmor Macarini
A renovação dos quadros políticos só ocorrerá quando os cidadãos se renovarem. Se mudamos para melhor, todas as coisas ao nosso redor tenderão a melhorar também. Apenas com críticas e manifestações de indignação não faremos um político corrupto ficar honesto. Os políticos são corruptos porque cada indivíduo tem, também, a sua porção corrupta. A corrupção se manifesta por grandes e pequenos delitos, estes às vezes imperceptíveis, e nem sempre envolvem dinheiro e políticos.
Não podemos esperar aleatoriamente que os governantes mudem, porque antes será preciso que a sociedade mude. A sociedade é cada indivíduo, e desse meio sairão os bons políticos. Do meio extraímos o que o meio disponibiliza. Mudar é questão de decisão pessoal. É um processo que não se opera do dia para a noite. Geralmente, o tempo que levou para sermos o que somos é o mesmo que levará para nos tornarmos melhores. O universo não tem pressa, porque não conta tempo. O tempo é um fardo do homem. E uma responsabilidade dele.
Se educamos nossos filhos para a competição predadora e sutilmente a família e a escola ensinam isso estamos preparando cidadãos para a guerra. Assim, se eles se converterem em governantes, não serão coisa boa. De entre nossos filhos sairão os administradores públicos de amanhã. Se os instruirmos não para a competitividade mas para o partilhamento, o intercâmbio de conhecimentos e a solidariedade, então eles serão bons governantes, bons capitães de empresas e bons profissionais. A competição por via da disputa é uma atitude desonesta.
Os homens públicos que aí estão foram todos produzidos por nós. Eles são nós. Então, só começando a mudar nosso comportamento político perante todas as coisas da vida estaremos pavimentando o campo para a construção de uma sociedade mais justa, e dela, então, emergirão os bons cidadãos e os bons homens públicos. Não faremos governantes melhores deixando de votar, nem teremos certeza de sucesso elegendo os melhores. Faremos políticos melhores por via da melhoria do meio social.
Temos de começar pelo começo, não da metade para a frente; nos mudar e ensinar essa prática aos nossos filhos adolescentes, de modo a que ensinem aos filhos deles mais tarde, e assim sucessivamente. Não há outro caminho. Não é fácil ensinar aquilo que não somos, mas será preciso uma tomada de consciência e ensaiar os primeiros passos nesse sentido. Se não começarmos a semear não colheremos. Temos, então, de primeiro ser e depois exigir.
Certo é que viemos percorrendo caminhos de muita licenciosidade individual e de muito descuido com nossos atos. Se fizermos uma retrospectiva sincera, constataremos que as desonestidades nossas de cada dia têm sido frequentes. Porque mentimos muito, no mais dos casos irresponsavelmente, e estamos sempre em disputa com aqueles que imaginamos concorrentes. O mundo será melhor quando a desonestidade e a competição sejam algo desconhecido, por desuso.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





