A crise do PT e a ética

José Mario Angeli
  Reiteradas vezes, a tradição escolástica predominou no PT reafirmando no discurso interno, seja mais à esquerda ou mais à direita, que a crise era de comportamento dos indivíduos. Esta tem sido agravada pelas campanhas eleitorais para Presidência da República assistindo, assim, um processo de destruturação que corrói os fundamentos políticos da militância. O destino do partido encantuou os militantes. As desejadas transformações não aconteceram. O acesso ao poder maior, com a chegada de Lula à Presidência da República, abandonou-se o projeto e as práticas generosas deram lugar aos apetites mesquinhos, parte da militância vagou impotente e aderiu marginalmente às campanhas eleitorais.
  A combinação de impotência e de poder foi fatal. A democracia e o socialismo partidário sucumbiu, o partido foi remetido para um terreno mítico e distante. Para se chegar ao poder ‘‘devia-se passar pelo lodaçal’’ dos profissionais da política mais abjeta. Como diria Trotsky: ‘‘Quando se buscam os fins aceita-se os meios’’. A cúpula do partido seguia o mesmo exemplo instituído na sociedade pelos outros partidos. Ela não é inocente quando fez a opção por essa prática administrativa. Ao constituir um sistema de poder que governa o partido, com apoio das bases, do grupo hegemônico, alimentando grandes ambições que por sua vez também alimentam pequenas ambições, se identificava aos partidos tradicionais.
  Formou-se uma rede de interesses materiais e de poder impermeável ao debate de idéias, transformando o partido numa caricatura. Falar agora de refundação do partido! Isto é, resgatar os antigos valores da ética. Quais? E com quem? Quando foi incorporado um contingente enorme de pessoas no seu interior, sem sequer saber de suas origens, de seus compromissos éticos e políticos, alguns profundamente duvidosos, mas para garantir o poder do grupo majoritário é no mínimo antiético.
  A impressão que se tem é que o PT poderá permanecer cambaleante enquanto muitos irão embora sem levar uma visão de mundo que os ajude a viver com dignidade e esperança. Não há solução para a crise do PT sem passar por uma solução moral, que é a recuperação da ética da militância, e por uma solução política que o restabelecimento de uma visão de mundo compartilhada, que devolva os fundamentos comuns: expurgar os indícios de corrupção, retornar ao trabalho de base e de formação política, abraçar as razões e os princípios que nortearam a fundação do partido. Lamentavelmente, o grupo majoritário não soube construir uma hegemonia ou a oposição interna fez ‘‘vistas grossas’’ a tudo aquilo que aconteceu no partido. Se isto for verdadeiro será muito difícil ‘‘recomeçar’’, até porque isto implica também no dever do governo de recomeçar. Isto é uma mudança de rota apresentando mesmo que tardiamente um projeto para o país. Estaria ele disposto a fazer isso?
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina


O crepúsculo do PT

Aguinaldo Pavão
  O Brasil vive uma grave e profunda crise política. Temos conhecimento, para nossa surpresa, que o PT, que se pretendia detentor exclusivo da virtude dentre os demais partidos políticos, está envolvido num mar de lama de desonestidade e mentiras. Há fortes evidências que esse partido agiu à margem da lei, praticando a corrupção a fim de auferir benefícios políticos.
  De fato, há surpresa, mas talvez ela não deva ser tão grande. É sabido que no PT há setores que nutrem um franco desprezo pela democracia representativa, pejorativamente denominada de democracia formal e burguesa. Daí ter alguma coerência o fato de dirigentes desse partido pretender aviltar o sentido mesmo da democracia representativa, que depende necessariamente do funcionamento de um parlamento livre. A compra pelo PT de deputados para votar de acordo com seus interesses, isto é, de acordo com os interesses do PT, representa um verdadeiro colapso da política. Com efeito, é próprio da política o diálogo, o debate, a tentativa de convencimento a partir de argumentos. Um deputado não pode votar a partir do pagamento que ele recebe de alguém - seja esse pagamento baseado numa regularidade mensal ou não, daí não ser importante o nome ‘‘mensalão’’. Mais escandaloso é quando o corruptor é um partido que também atua no parlamento. Fica claro, assim, o pouco apreço que o PT tem pelo parlamento. Isso me faz lembrar das palavras de Lênin no livro ‘‘O Estado e a Revolução’’ em que ele apregoa que a democracia proletária deve ser concebida sem parlamento. Para Lênin, a democracia proletária deveria acabar com a divisão de trabalho entre Executivo e Legislativo.
  Talvez se possa também levantar a hipótese de que o PT na verdade se considera, ou se considerava, moralmente superior devido ao seguinte raciocínio - que atinge a chamada esquerda de inspiração marxista de modo geral. O marxista pensa: sou contra as injustiças do capitalismo. Defendo uma sociedade justa. Logo, sou moralmente superior àqueles que defendem o capitalismo, a liberdade burguesa. Isso, naturalmente, é uma estupidez, pois é altamente contestável que o capitalismo implique necessariamente injustiça. Mas dentro de uma visão religiosa, a adesão não se funda em argumentos, mas sim na fé. E com base nessa fé, Marx é lido de joelhos e a corrupção é atribuída ao capitalismo. Afinal, o mal não pode ser jamais atribuído à justa causa dos bravos lutadores que militam por uma nova sociedade.
  O Brasil ganharia muito se essas mentes religiosas ponderassem um pouco mais o valor da liberdade. Para que a liberdade possa vicejar são necessárias instituições em que o pluralismo possa ser exercitado e não sufocado pelo dinheiro oferecido e dado para corromper um dos pilares da democracia moderna, que permite, dentre outras coisas, que não sejamos presos se quisermos criticar um governante, coisa que não acontece, por exemplo, na tão amada Cuba de tantos petistas.
AGUINALDO PAVÃO é professor do departamento de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina


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