ESPAÇO ABERTO
Homem certo, no lugar certo
Ary Benedito Silva
Há décadas, aprendi a ler nas entrelinhas. Fico muitas vezes estarrecido com a quantidade de inocentes úteis ou massa de manobra, como acharem melhor, que o país tem à disposição dos espertalhões de qualquer tipo de assunto, principalmente à disposição dos maus políticos, (os bons são raras exceções), daqueles que são mestres na arte de ludibriar. O pior é que não é só gente sem instrução que se deixa tapear, muita gente instruída, muitos empresários de posse foram ludibriados. O presidente Lula teve 61,27% do eleitorado a seu favor, contra 38,73% que não votaram nele. E estava mais que evidente que não poderia dar certo. Dentro de um raciocínio simplista, mas lógico, ninguém pode dar o que não tem, mesmo que tenha muita disposição, boa vontade e honestidade para tanto.
Será que os 52.793.363 eleitores que votaram no atual presidente estavam achando que um bom operário (bom dentro da sua especialidade) poderia governar um dos maiores países do mundo?
Se pegarmos um bom advogado e encarregá-lo de uma difícil cirurgia num paciente que esteja mal e, ao mesmo tempo, encarregar um bom médico de resolver um complicado problema na área jurídica, seríamos muito ingênuos em pensar que teriam qualquer êxito. Certamente o paciente atendido pelo advogado morreria, e o cliente atendido pelo médico teria sua ação perdida. Foi exatamente o que aconteceu nas últimas eleições presidenciais do nosso sofrido país. Nós, os 38,73% de eleitores, já sabíamos ou tínhamos plena certeza.
Agora, dentro dessa vergonhosa crise política (roubalheira mesmo), quando o publicitário Duda Mendonça e sua sócia Zilmar Fernandes declaram abertamente na CPI que receberam mais de 11 milhões de reais do PT, de um caixa 2, para crédito em conta em paraíso fiscal, é de ficar assustado com as conseqüências que poderão advir de fato tão grave.
Pior é que o presidente vai para televisão e apresenta um tímido pedido de desculpas: Não sei de nada, não vi nada... E parece que toda imprensa gostou. Pediu desculpas, era só o que se lia nos jornais de destaque do país. Aquele pronunciamento tíbio nada esclareceu, nada convenceu. É como penso: Para ter sucesso no empreendimento desejado, temos que ter o homem certo no lugar certo.
ARY BENEDITO SILVA é advogado em Londrina
Dispensável exibicionismo
Antonio Delfim Netto
O Ministério Público (MP) é uma instituição muito importante para a defesa da cidadania e não pode se deixar empolgar pelo exibicionismo que os meios de comunicação oferecem, permitindo-se divulgar denúncias que atingem a honra e a imagem das pessoas de forma muitas vezes irreparável. Quando membros do MP se comportam da forma como o país inteiro assistiu, no episódio circense do dia 19 último, em Ribeirão Preto (SP), correndo para cima e para baixo em meio ao depoimento de uma testemunha, para dar meias notícias alvejando a reputação do ministro da Fazenda, eles fogem à missão constitucional para a qual a instituição foi criada. A repercussão é maior porque se trata de personalidade pública, mas o cidadão comum precisa acreditar que existe um código de ética entre os procuradores segundo o qual eles devem apurar as denúncias a fundo e somente divulgá-las quando obtiverem as provas. No mundo inteiro é assim e essa é a maior força do Ministério Público.
Por se tratar do ministro da Fazenda, criou-se uma grande confusão política e um aumento da volatilidade nos mercados, com o dólar subindo 4% e a Bolsa caindo quase 3%, o que representa ganhos para alguns milhões e prejuízos para outros tantos. Pode-se dizer que é parte do jogo mas é inegável o prejuízo para nossa economia com a divulgação das acusações dando a volta ao mundo no final da semana, fortalecendo a especulação e a impressão que o país está dominado pela corrupção, porque ninguém se preocupa em ressalvar que ela é circunscrita a partes do Congresso e do Executivo e que está sendo combatida no âmbito das instituições que funcionam normalmente.
Passado este período de denuncismo, não tenho dúvida que o Brasil sairá mais forte da crise. Confio igualmente que o ministro Antonio Palocci, um homem honesto e decente, sairá fortalecido deste dramático episódio e continuará dirigindo a política econômica e merecendo o suporte do presidente. Ele foi absolutamente convincente na entrevista coletiva, respondendo com tranqüilidade às perguntas dos jornalistas e mostrando que as acusações são infundadas e foram divulgadas de forma irresponsável. Apresentou-se de forma impecável, deixando claro que não se considera indispensável ou que é o único em condições de conduzir a política econômica, o que, em minha opinião, vem fazendo com competência e probidade. Palocci passou, enfim, a mensagem correta: a blindagem da economia vem da disposição do presidente Lula de transmitir a segurança de uma política fiscal austera e de uma política monetária que produz resultados razoáveis, embora para meu gosto pudéssemos estar com o crescimento econômico mais acelerado.
ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PP-SP
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