ESPAÇO ABERTO
Um susto em boa hora
Moacir Costa
Até alguns anos atrás, a disfunção erétil, popularmente chamada de impotência sexual, era um flagelo na vida de muitos homens. Na verdade, em função de uma cultura machista e preconceituosa, a maioria acabava convivendo com o problema sem buscar qualquer tipo de ajuda, afinal não foram educados para admitir que falham na cama. No entanto, quem se mostra inseguro sexualmente, também acaba agindo como uma pessoa insegura ou incapaz de enfrentar diversas situações no seu cotidiano, inclusive a sexual. Geralmente, são homens tristes, angustiados e com grande probabilidade de ter muitas frustrações no seu relacionamento amoroso.
Esse quadro vem mudando radicalmente nos últimos anos, em grande parte graças a uma mudança de mentalidade que começou com a emancipação da mulher, e com a sua preocupação em investir e se dedicar ao casamento. Hoje, cada vez mais o homem procura se informar e ouvir a sua companheira. Mas isso ainda é pouco. Boa parte deles evita o exame prostático devido a um medo infundado do toque retal. O câncer prostático é o vice-campeão em óbitos no Brasil e no mundo. Também não fazem check-ups regulares e cultivam péssimos hábitos alimentares, fumam e habitualmente demoram a procurar ajuda medica quando doentes. Todos esses comportamentos tornam o indivíduo mais fragilizados e menos viril. Segundo as estatísticas mais recentes, existem cerca de 10 milhões de homens com problemas de disfunção erétil no Brasil. Uma pesquisa feita em Salvador pela Fundação Osvaldo Cruz do Ministério da Saúde, com 3 mil homens, entre 40 e 70 anos, revela que 46% deles já apresentou algum tipo de disfunção erétil. Na verdade, o grupo mais atingido é aquele cuja faixa etária se situa entre os 60 e 70 anos. Nos jovens, as complicações na área sexual não passam de 10%. Já a partir dos 40 anos, o número de pessoas com disfunções começa a aumentar. E no grupo mais idoso, entre 70 e 75 anos, 80% têm distúrbios da potência.
Felizmente, nessa virada de milênio a medicina tem feito novas descobertas e, na realidade, só continua com problema sexual quem tem vergonha ou medo de procurar ajuda. Há quase sete anos surgiu o Viagra que tem ação por 4 a 6 horas e algumas restrições à alimentação e bebida alcoólica, mais tarde surgiu o Levitra cujos efeitos são semelhante. Recentemente, apareceu o Cialis que oferece um período de eficácia por até 36 horas, mediante estímulo erótico. Isso possibilita o casal a escolha do melhor momento para a relação sexual, sem a pressão do tempo e com menor restrição a bebida alcoólica e aos alimentos. É importante esclarecer que o ejaculador rápido não tem nenhum ganho com esses medicamentos, já que ele possui uma ereção vigorosa. Já os indivíduos que apresentam ejaculação rápida e falhas de ereção simultaneamente, podem ser ajudados com esse medicamento, porque ejaculam rápido justamente por sentirem medo de perder a ereção. Seja qual for o grau de freqüência em que a disfunção erétil se apresente, o importante é evitar que ela se instale definitivamente.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo
Os chimpanzés e Maquiavel
Gaudêncio Torquato
O conceito de animal político se ajusta bem ao corpo do chimpanzé. A vida desse primata é uma contínua relação de dominação-submissão, luta pelo poder, busca de alianças e coalizões transitórias e instrumentais, tudo pelo comando do bando. Na política, a situação é semelhante. O ator mobiliza potenciais para conquistar o poder. E luta permanentemente para ampliar influência. Vende apoios, faz pressões, passa por cima do ideal coletivo. O fim sou eu mesmo, esse é o ideário dessa classe de políticos. Em nome dele, estamos assistindo ao maior desfile de eventos escabrosos de nossa contemporaneidade, tornados públicos porque os políticos-chimpanzés se agridem cegamente no conflito para ver quem leva o pedaço maior do território. Infelizmente, a política no País deixou de ser missão a serviço da sociedade para ser profissão a serviço de fulanos e beltranos.
O animal político também ganha o corpo de Maquiavel, formado para preservar o poder do Príncipe sob a égide de um projeto de Estado. Quando isso ocorre, os chimpanzés usam inteligência mais desenvolvida, ajustam valores ao projeto de um grupo, subordinando, portanto, os interesses individuais ao ideário social. Os ciclos autoritários por que passamos foram pontuados pela visão maquiavélica de defesa social. Naqueles instantes, a força do chefe personificava um projeto mais amplo da coletividade, como bem o demonstram o ciclo getulista, voltado para a implantação das bases do nacional-desenvolvimentismo, e o ciclo militar (1964-1985), inspirado na defesa de dois pilares: segurança e desenvolvimento.
Os governos pós-ditadura militar procuraram, cada um a seu modo, implantar programas de amplo espectro social, mas foram atropelados pela estratégia-primata de dividir as fatias do poder pelos bandos. Os tucanos liderados por Fernando Henrique pensavam ficar no poder durante 20 anos. Não conseguiram. Os petistas imaginavam dominar a cena com um projeto eterno pilotado por José Dirceu. Estão sendo fragorosamente estraçalhados por primatas que começaram a se engalfinhar no próprio abrigo. O PT não atinou para a idéia de que a cultura egocêntrica no Brasil se sobrepõe à cultura sociocêntrica, esta fincada sobre as estacas da negociação coletiva e da solidariedade. Para satisfazer a competição feroz da classe política a gestão maquiavélica faz permanentes concessões ao estilo chimpanzé, e este acaba ditando as páginas dos capítulos de nossa História recente.
A crise sistêmica que percorre as veias da Nação, desde os tempos das capitanias hereditárias, ganha intensidade à medida que se expandem os fatores internos - hipertrofia da burocracia estatal, imobilização e desmotivação de quadros, apadrinhamento político - e os fatores externos, como pasteurização dos partidos, fulanização política e tensões entre Poderes. O País ressente-se da falta de um projeto nacional de longo prazo, com definições de eixos, espaços estratégicos a serem ocupados, linhas de ação, recursos e formas de aplicação. A administração está acampada na vereda do varejo.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da Universidade de São Paulo e consultor político
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