ESPAÇO ABERTO
Defendendo o indefensável
Silvio Grimaldo de Camargo
Parece que os últimos eventos políticos - o desmascaramento dos gangsteres que tomaram o país e a conseqüente queda do mito da pureza e exclusividade ética do PT deixaram algumas pessoas tão desorientadas, tão perplexas que, para não abandonar a ideologia que dá sentindo às suas vidas, começaram dar piruetas retóricas para defender o indefensável. O argumento mais comum em defesa de Lula e sua gangue é que o verdadeiro responsável pela corrupção no governo não são os indivíduos que entregam e recebem malas de dinheiro, que guardam dólares na cueca ou que metem a mão na algibeira alheia, mas é, sim, pasmem, o capitalismo!
Ao se estabelecer uma relação de causa e conseqüência entre o sistema capitalista e a corrupção, sendo esta, conseqüência inevitável do primeiro, algumas perguntas me vêm à mente: antes da formação do capitalismo não havia corrupção? Se havia, qual era sua causa? Nas sociedades contemporâneas que aboliram o sistema capitalista de produção e consumo não há corrupção? China, Cuba e Coréia do Norte seriam exemplos de probidade administrativa? Mas se a resposta for negativa, repito a pergunta: qual a causa da corrupção nessas sociedades? Ainda, como explicar a existência de indivíduos não corruptos nas sociedades capitalistas? Ou eles não existem?
O homem age conscientemente orientado a fins determinados: almeja um fim e opta pelo melhor meio de alcançá-lo. No cálculo de meios e fins, os meios corruptos podem apresentar-se como os mais adequados ao fim último pretendido. Ao preferir os meios corruptos aos não-corruptos, o indivíduo está escolhendo, e deve ser responsabilizado pelas suas escolhas. A corrupção não é, portanto, intrínseca nem capitalismo nem à natureza humana, é apenas uma das infinitas possibilidades de agir do homem livre.
Não faz sentido falar em ética quando o homem não é responsável por suas ações, e ao transferir essa responsabilidade a um ente metafísico qualquer - como a Divina Providência, a Razão Histórica, as forças econômicas, o capitalismo ou a vontade geral - abre-se um precedente para todo tipo de crime e corrupção, pelo cínico expediente de vitimizar o culpado.
Defender uma nova ordem intelectual e moral em que os indivíduos são isentados de responsabilidade (algo nem tão novo assim) é ir contra uma vida intelectual sadia e fazer apologia da imoralidade. Como diria Max Weber, é o paradoxo das conseqüências.
SILVIO GRIMALDO DE CAMARGO é estudante de Letras na Universidade Estadual de Londrina
Corrupção: teoria e prática
Aguinaldo Pavão
Penso que uma coisa seja pretender explicar o fenômeno da corrupção, outra procurar fixar as condições da imputabilidade moral das ações corruptas. O que me interessa é o segundo ponto. Com respeito à primeira questão, não acredito que tenha alguma contribuição relevante a dar. É preciso ter em mente essa distinção de problemas a fim de entender o debate entre as teses sistêmicas do professor José Mario Angeli e a minha posição individualista. Com efeito, a réplica do professor José Mario ao meu artigo Corrupção e responsabilidade envolve os dois aspectos. Ou seja, o professor José Mario tanto apresenta subsídios para se explicar o fenômeno da corrupção, como aponta elementos para a discussão em torno da responsabilidade moral por atos corruptos.
Sobre a responsabilidade moral por atos de corrupção, José Mario não deixou exatamente claro se concorda com minha tese ou não. Ele alega que a ênfase no sujeito como senhor e responsável pelos seus atos é pertinente, mas insuficiente para compreender a complexidade da corrupção. Provavelmente esteja certo. Eu não pretendi oferecer qualquer aporte para se compreender teoricamente o fenômeno da corrupção. Insisto, quis e quero apenas enfatizar a responsabilidade moral do indivíduo pelo ato corrupto por ele praticado. Numa linguagem kantiana, poderíamos dizer que o meu ponto é prático e não teórico.
Dito isso, gostaria de afirmar que, na verdade, não defendi, como José Mario pensa, que a vida seja um princípio universal. É verdade que acredito em princípios morais, portanto, universais. Também não defendi que o sujeito é movido por esses princípios. Certamente, subjaz à minha tese a idéia de que ele deve ser movido por princípios universais. Que de fato seja movido, é algo que a experiência mostra não ser o caso.
Outra coisa, a minha tese não precisa, de modo algum, utilizar o conceito de uma sociedade ideal, a qual francamente não tenho clareza sobre o que possa significar. José Mario está certo, contudo, em alegar que nossas visões sobre o homem são diferentes e mereceriam um aprofundamento. Adianto que não acredito na conversão da natureza humana. Não penso que seja possível essa conversão. E se fosse possível não penso que seria desejável.
O professor José Mario diz que eu estaria a defender que a corrupção é apenas um desvio da justa conduta e por isso ela poderia ser consertada. Ora, não é esse precisamente o meu pensamento. Acredito que a corrupção, ou melhor, a tendência à corrupção constitui um traço da natureza humana que nenhum modelo de sociedade irá extirpar completamente. A corrupção, naturalmente, é desvio da conduta moral e legal, por isso deve ser punida. Agora, não há propriamente um conserto para ela. Ela resta sem conserto. Cabem apenas alguns expedientes que visem dificultar a sua exteriorização. Um desses expedientes, como salientei no artigo, é a estrutura política.
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina
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