ESPAÇO ABERTO
Será que todos são exploradores?
Osvaldo Cardoso Ribeiro
Os cidadãos londrinenses que acreditam na honestidade ficaram perplexos lendo na Folha a carta de Fraterno Maria Nunes (6/8), cidadão aposentado com certa vivência, expressar que todos os grandes empresários, políticos e os religiosos são exploradores do povo. Usando o bom-senso jamais se deve colocar todos na mesma vala. Há em nosso país empresários que apesar de altas taxas tributárias, conseguem ser justos, cumprindo suas obrigações sociais, valorizando seus funcionários. Embora saibamos que tem muito empresário que massacra a classe trabalhadora.
Na política há uma parcela que se mascara de pessoas do bem, só que do bem mal, recebendo generosas propinas em reais ou dólares. Quase ninguém fica sabendo, pois os desonestos são cercados de toda segurança e, com ninguém por perto, pegam o dinheiro facilmente. Às vezes há alguns furos e interesses escusos e os desonestos são flagrados em gravações clandestinas e indiciados em processos que podem dar alguns resultados punitivos perante a lei. Outras vezes, forças superiores se sobrepõem aos processos e tudo acaba em pizza. Aí que tem que estar a justeza da lei, provar, julgar e penalizar realmente.
Os jornais, revistas, telejornais e rádios estão sendo invadidos por fatos estampando a corrupção em doses assombrosas. Desonestidade envolvendo deputados, CPI dos Correios, políticos denunciados no mensalão, caixa 2 nas eleiçoes municipais, fraudes em concursos públicos. Será que todos são culpados? Será que estamos ficando sem vergonha e a honestidade é coisa do passado? Não podemos achar que tudo está perdido e que nada tem jeito e levando nossas vidas como autômatos, enxergando e pensando nada poder fazer.
Vergonha, honestidade e respeito parece que estão em extinção. É preciso ter fé e jamais imaginar que a esperança morreu. Há um detalhe muito importante diante do que se é divulgado: não podemos sob hipótese alguma afirmar que todos os políticos são exploradores e agem desonestamente. O que há são denúncias envolvendo muitos, porém devemos esperar o julgamento judicial e não prejulgar todos. Muitos que estão sendo expostos como malversadores do dinheiro público podem ser inocentes e estar sendo injustiçados pelos sensacionalistas de plantão. Cuidado: o óbvio não é tão óbvio.
É uma pena que o sr. Fraterno ache que nem religiosos prestam, pois exploram o povo. Apesar de haver muitos falsos profetas cometendo crime ao usar a Bíblia para se enriquecer, abusar da ingenuidade das pessoas, pregar a prosperidade e transformar seus templos em coletores de fortuna e se tornar do dia para noite multimilionários, a realidade é que a maioria dos religiosos é honestíssima e prega o evangelho que evidencia as maiores verdades do mundo: a mensagem de Jesus que pode transformar a humanidade.
OSVALDO CARDOSO RIBEIRO é jornalista em Londrina
Você tem fé?
Paulo Nogueira
A confusão entre fé e crença é um dos maiores erros do protestantismo. Fé, em latim fides, quer dizer fidelidade, harmonia entre a alma do homem e o espírito de Deus, ou do Cristo. Esta atitude de alta fidelidade, é redenção, salvação, santificação, mas nada tem a ver com crer, crença, desejo, vontade etc. O substantivo latino fides não tem verbo derivado do mesmo radical e os tradutores latinos do texto grego empregam o verbo credere, que em português significa crer.
Em grego o substantivo pistis, correspondente ao latim fides, tem o verbo que poderíamos traduzir por fidelizar ou ter fé. Mas se dissermos crer, ao invés de ter fé, adulteramos profundamente o sentido. Crer, crença é algo incerto e vago, como quando dizemos: creio que vai chover ou creio que vai esfriar.
Crer em Deus, crer no Cristo, não é o mesmo que ter fé, ou fidelidade com Deus ou com o Cristo. Quem tem fé, fides, fidelidade com o Cristo, estabelece perfeita sintonia, sincronia e harmonia de pensamentos, palavras e obras entre si e o Cristo.
A teologia protestante é vítima de uma catástrofe pelo fato de não saber diferenciar o que é fé e o que é crença. Crer em Cristo é compatível com todos os erros, mas ter fé ou fidelidade põe termo final a qualquer erro.
Um jovem pregador protestante, mais criança que adolescente, e posteriormente mais adolescente que adulto, fala em seu sermão: Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer, já é ou será condenado, e toma o crer e o batizar, no sentido da teologia tradicional. E termina o sermão com a grandiosa exclamação: Todos nós cremos e fomos batizados, assim, somos todos salvos, aleluia, aleluia.
Bem, se a salvação fosse tão fácil como esse pregador supõe, não seria, certamente, caminho estreito e porta apertada, e Deus seria muito injusto. Porém, esse pregador eivado de teologismo bíblico nem sequer suspeitava que fidelizar ou ter fé não é um superficial ato transitório, mas sim uma profunda e permanente atitude de todo o nosso ser, que na realidade é antes um estado de ser do que um simples ato de fazer.
Também por batizar, entendia ele receber um copo dágua na cabeça ou um mergulho num rio ou numa piscina (vástia), quando na verdade a palavra grega baptizein quer dizer mergulhar, mas com sentido de entrega. A tradução exata do texto é esta: quem estabelecer alta fidelidade entre sua alma e o espírito do Cristo ou de Deus, pela experiência mística, e mergulhar (entregar) sua vida totalmente nessa fidelidade pela vivência ética, esse conseguirá a salvação.
O sentido real desse texto, é mais uma vez, a afirmação do primeiro e maior de todos os mandamentos, da mística divina, que é amar Deus sobre todas as coisas, e seu natural complemento pela ética humana, que é amar teu próximo como a ti mesmo.
PAULO NOGUEIRA é historiador em Londrina
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