Por que o presidente não pediu desculpas?

Telma Gimenez
  Contrariamente às manchetes dos jornais, chego à conclusão de que o presidente Lula não pediu desculpas ao povo brasileiro no ‘‘pronunciamento’’ do último dia 12. Uma análise mais detalhada do texto revela que foi um discurso ambíguo, ora endereçado aos ministros presentes à reunião, ora aos espectadores.
  Inicia dirigindo-se a ‘‘amigos, amigas, querido companheiro José Alencar, companheiras ministras e ministros’’, esclarecendo que a sessão seria testemunhada pela população, ou seja, não foi um pronunciamento à nação. Salienta o que considera os avanços de seu governo, com amplo uso do pronome nós (‘‘voltamos a crescer, criamos 3 milhões, 135 mil novos empregos com carteira assinada, criamos um ambiente favorável para a volta dos investimentos’’) e, em menor escala, eu (‘‘tenho certeza de que o povo sente a diferença’’).
  Ao introduzir a crise política, dirige-se a ‘‘companheiros, ministros e ministras’’ dizendo sentir-se traído e indignado. Julgando-se incapaz de identificar e punir os responsáveis delega tal tarefa às instituições democráticas.
  É inacreditável que o presidente não se sinta responsável por nada do que está acontecendo (apesar de sua campanha ter sido paga com caixa 2, de ter conhecimento dos acordos com o PL). Ao introduzir a negativa ‘‘não tenho vergonha’’, parece revelar exatamente o sentimento que o leva a amenizar sua fala, identificando apenas quem tem a obrigação de pedir desculpas: ‘‘nós’’, ‘‘o PT’’ e o ‘‘governo’’.
  Quem seriam ‘‘nós’’? O presidente, certamente, não tem dificuldade em usar a primeira pessoa, especialmente em palanques (‘‘não existe ninguém mais ético do que eu’’). Por que, então, teria usado o plural ao invés do singular? E por que o ‘‘nós’’ seria diferente de ‘‘governo’’, que teria que pedir desculpas ‘‘onde errou’’ (e onde foi, afinal?)?
  O presidente não disse ‘‘eu peço desculpas’’, apenas identificou quem teria que pedir desculpas. Haveria algo de verdadeiro nas acusações? Lendo um texto do qual talvez não se sentisse autor, não olhou diretamente para as câmeras. Por que evitou o olhar?
  Tanto a oposição quanto os aliados consideraram o discurso insuficiente. Minha sensação é de que foi feito a contragosto. Não posso deixar de imaginar que o presidente Lula sabe mais do que quer dizer e age menos do que se esperaria do supremo mandatário traído.
TELMA GIMENEZ é professora do departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Estadual de Londrina


Por uma nova ordem intelectual e moral

José Mario Angeli
  Tenho defendido a tese de que a corrupção é sistêmica. Ela está no núcleo duro do capitalismo - relação de compra e venda - de tudo aquilo que outrora os homens consideraram inalienável, tornou-se objeto de troca, de tráfico, podendo alienar-se. Aquilo que outrora era valor moral - virtude, amor, ciência, consciência etc. - transmuta-se em venalidade universal, pois tudo passa pelo comércio.
  O professor Aguinaldo Pavão, em artigo recente publicado pela Folha de Londrina sobre a ‘‘Corrupção e responsabilidade’’ questionou essa tese. Em contrapartida defendeu a tese da ‘‘autonomia do agir humano’’ enfatizando o sujeito como senhor e responsável pelos seus atos. Tese pertinente, sem dúvida, mas que não parece ser suficiente, para compreender a complexidade da corrupção.
  Ao enfatizar a autonomia do sujeito, o professor entende que o sujeito é movido por princípios universais - vida - pressuposto racionalista transcedental, cuja relação entre a vontade-razão-liberdade, é o que garante o agir moral. Assim, o sujeito sendo tomado no contexto de uma sociedade ideal, não levaria em consideração as contradições no interior de uma sociedade real onde se destribui desigualmente poder e dinheiro.
  Vejamos, se se entende que a corrupção se radica na desonestidade pessoal, no agir humano e não no padrão capitalista de acumulação nas relações sociais daí decorrentes, os responsáveis por tais atos de desonestidade eram os corruptos, logo nesta forma de compreensão será necessário após uma investigação e identificação, eliminá-los, para que se possa reconstruir o reino da ética.
  Estar-se-ia enfatizando a responsabilidade do indivíduo perante um desvio qualquer, isto porque no entendimento do professor Aguinaldo: ‘‘A natureza humana é propensa à corrupção’’ e, por isso, ‘‘ele deve ser punido.’’ Logo, o problema do desvio moral não está no modelo, mas nos insensatos. A punição aos responsáveis garante um modelo de sociedade justo? A ‘‘tout court’’ são duas visões de homem que certamente mereceria um aprofundamento.
  Mas, insisto em colocar o fundamento da relação ético-política nos termos de uma ‘‘nova ordem intelectual e moral’’, cuja base ética está na construção do novo tipo de Estado, que garanta uma sociedade superior. Então, a superação da falta de igualdade do sujeito moral, seria um passo para que a ética fosse de fato o fim da vida política cuja moralidade, em última instância, busca a liberdade dos indivíduos.
  A tese do professor Aguinaldo defende que a corrupção é apenas um desvio da ‘‘justa conduta’’ e por isso ela pode ser consertada. Pois ela nada tem a ver com as condições de vida e de trabalho, muito menos com o capitalismo. Assim sendo a vida moral não resultaria do fim da vida política em geral e muito menos de nossa vida.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual Londrina


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