ESPAÇO ABERTO
Construção civil protesta contra crise política
Paulo Safady Simão
Os 1.200 empresários da Indústria da Construção e do Mercado Imobiliário, reunidos no 77º Encontro Nacional da Indústria da Construção (ENIC), em Gramado na semana passada, representados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e por 68 entidades a ela filiadas, decidiram fazer à Nação o seguinte manifesto:
Diante da gravidade da crise política, que já começa a afetar a economia e paralisar o país, esperamos e confiamos que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário cumpram, rigorosamente, com a urgência possível, o dever de investigar os fatos denunciados e seus desdobramentos, identificando e punindo os responsáveis, na forma da lei, respeitando os princípios do Estado democrático de Direito.
Enquanto se processam as investigações, entendemos fundamental que o governo federal e o Congresso desempenhem suas regulares funções constitucionais, tendo em vista os malefícios que a letargia administrativa está causando à sociedade brasileira.
Defendemos a imediata adoção de medidas que ampliem os investimentos necessários ao desenvolvimento do país, mediante a eliminação dos gastos públicos espúrios, inúteis ou injustos.
Acreditamos que as condições macroeconômicas já permitem reduzir, substancialmente, as taxas básicas de juros estabelecidas pelo governo, sem comprometer o controle da inflação. Todavia, consideramos que a mudança que permitirá evitar a repetição de idênticas e cíclicas crises futuras e propiciar o desenvolvimento sustentável do país é a aprovação de pelo menos três reformas estruturais na Constituição: a reforma político-partidária, a reforma fiscal e tributária - vinculada a um novo pacto federativo - e a reforma da Previdência.
Entendemos que a única maneira de se aprovar essas reformas, com a qualidade, isenção e amplitude que o país necessita, é por meio da convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte exclusiva, com abrangência limitada a temas a serem definidos.
PAULO SAFADY SIMÃO é presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)
O cidadão honesto e o desarmamento
André Reinaldo Acorsi
Foi com alegria que li na Folha que já se iniciou a campanha oficial pró-desarmamento. Acredito que o bom-senso da população vai falar mais alto e todos votarão a favor da proibição do comércio de armas no Brasil no referendo do dia 23 de outubro. Esse é o primeiro passo para que o Brasil se torne uma nação mais pacífica e que valoriza o ser humano. Mas há ainda uma atmosfera hostil à campanha. Alegam alguns que se o cidadão honesto for desarmado, os bandidos perderiam o medo de entrar em qualquer casa. Como se fosse honesto receber um ser humano a balas, mesmo que seja um criminoso. Nessa hora, me pergunto onde foram parar os ideais cristãos?
Outro argumento utilizado é que essa campanha não vai desarmar os bandidos, que têm arsenais potentíssimos compostos por armas contrabandeadas e mantidos com o dinheiro do crime organizado. Até acredito que esse argumento seja, em parte, verdadeiro. Desarmar a população não vai evitar que o crime organizado continue a importar ilegalmente suas armas, mas por outro lado vai desarmar indiretamente aquele ladrãozinho barato que assalta com uma arma roubada de cidadão honesto porque não tem dinheiro para comprar armamento contrabandeado. Com que arma o cidadão honesto acha que um ser humano tira a vida do outro por um par de tênis ali na esquina? Com que arma o cidadão honesto acha que um menor mata o colega de escola na briga de gangues? Seria com esse armamento moderno advindo de contrabando e adquirido com dinheiro sujo? Não, com certeza essa arma foi roubada em um assalto, uma semana antes. Esses bandidos de armas roubadas serão desarmados gradativamente e isso já é um começo.
Há também aqueles crimes não premeditados como a discussão no trânsito, os vizinhos que brigam, a troca de ofensas no boteco e a violência doméstica. Todas essas situações e muitas outras transformam um cidadão honesto em assassino em potencial caso uma arma esteja ao alcance. E não adianta o cidadão honesto dizer que não vai usar sua arma para isso porque todos somos seres humanos falíveis. Atire a primeira pedra quem nunca se zangou com ninguém.
Mas quem seria a maior vítima de acidentes domésticos com arma de fogo? Ponto para quem respondeu as crianças. E não adianta o cidadão honesto argumentar que sua arma está bem escondida. Será que todas as crianças que morrem ou matam um coleguinha brincando com a arma dos pais encontraram o revólver em cima do sofá da sala? Claro que não. Criança é curiosa, mexe em tudo. O cidadão honesto pode perder um filho numa dessas explorações infantis pela casa. A única vantagem de se ter uma arma é receber a balas algum intruso em nosso território. O pior de tudo é imaginar que, depois de atirar, o cidadão honesto pode perceber que quem estava mexendo na fechadura de sua residência era um filho que esqueceu a chave.
ANDRÉ REINALDO ACORSI é jornalista em Londrina
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