ESPAÇO ABERTO
Esperanças perdidas
René Ruschel
A crise ética brasileira atingiu uma dimensão jamais imaginada por qualquer cidadão. À medida que as vísceras do poder são expostas, a classe política - incluído o Congresso Nacional, partidos, governo e até o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva - sofre enorme desgaste. Em toda sua história o país não tinha assistido ainda uma avalanche de denúncias de corrupção como agora. Não bastassem os fatos já exaustivamente comprovados, ultrapassam as raias do bom-senso, do ridículo, o cinismo e a desfaçatez com que os envolvidos no mar de lama afirmam perante as CPIs desconhecer as causas e origens das falcatruas por eles praticadas. A sensação é que cada um dos depoentes faz questão de minimizar a capacidade de raciocínio e inteligência da sociedade. No entanto todos, por ação ou omissão, sentem as conseqüências do escândalo. Mesmo que nenhuma denúncia atinja o presidente Lula, sua popularidade, bem como a avaliação do seu governo, começam a despencar. Afinal, o sistema presidencialista dá e cobra do chefe de Estado o bônus e o ônus pelo poder.
No Brasil, a corrupção data de abril de 1500. Desde então nenhum governo passou incólume. Na gestão de FHC, por exemplo, estima-se que a negociata para a privatização do sistema Telebras foi de R$ 24 bilhões. Ou o que dizer sobre a venda da Cia Vale do Rio Doce por 3 bilhões de reais financiada pelo BNDES e que hoje vale 48 bilhões de dólares. À época os tucanos não permitiram a abertura de uma CPI. Agora, tudo poderia ser apenas mais um escândalo não fosse o envolvimento explícito do tesoureiro do PT com um empresário mineiro distribuindo milhões de reais a deputados, políticos e candidatos em época de eleição; não fosse o secretário-geral ter recebido um carro importado como presente de uma empreiteira baiana ou então o marqueteiro da campanha de admitir que recebeu, no exterior e através de uma offshore, dinheiro proveniente de caixa dois. O PT, durante um quarto de século, foi o paladino da moral pública, da ética política e quando chega ao poder põe tudo a perder em pouco mais de dois anos.
De todo o imbróglio fica uma certeza: o envolvimento do PT nesse escândalo pode se transformar num enorme retrocesso político. Pela primeira vez, em 2002, os brasileiros foram às urnas para votar num candidato que contrariava todo o status quo vigente. Era um sinal claro que a sociedade queria mudanças profundas. Movida por uma gigantesca onda de esperança - quem não se recorda do slogan A esperança venceu o medo - Lula foi eleito apesar da campanha sórdida, difamatória e preconceituosa por parte da oposição contra um operário nordestino e sem curso superior. Agora o que povão questiona nas esquinas e nas mesas de botequim é se de fato o presidente não sabia o que os áulicos de plantão arquitetavam nas ante-salas de seu gabinete. Ou se foi traído, quem é o Judas? Caso essas questões não sejam explicitadas a contento, muitos concluirão que todos os políticos, sem exceção, uma vez no poder tornam-se iguais nos métodos, na ética e na moral. E convenhamos que têm razões de sobra para pensar assim.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba
Política, poder e corrupção
Francisca Vergínio Soares
Há mais mistério entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia. Essa frase shakespeariana é pertinente para nos mostrar que o que imaginamos sobre os acordões que se faz em nome do poder, é pouco perto das revelações que a cada dia vem à tona. Em meio à perplexidade, a nação assiste estarrecida como a corrupção, de caráter endêmico, contaminou parte do Legislativo desde o Congresso Nacional, passando pelas Assembléias Legislativas estaduais, até as Câmaras de Vereadores. O Executivo também se torna alvo suspeito podendo vir a ser investigado.
A meu ver, o problema central é o modo como o financiamento das campanhas está estruturado. Pode-se constatar que o sistema de representação proporcional existente é carta marcada para aqueles que entram para a política não por vocação, mas visando interesses pessoais, leia-se profissionais, para lembrar a acepção weberiana. Assim, o modelo político inviabiliza, por exemplo, a inserção de indivíduos idealistas e com vocação para a vida pública, o que acirra as fileiras dos mal-intencionados que apenas vislumbram a possibilidade de se locupletar e fazer negócios no exercício dos mandatos.
A impressão que se tem quando nos deparamos com assombrosas declarações é que esses homens e mulheres eleitos por sufrágio não têm a dimensão do que é público e do que é privado. Parece que há um cinismo em torno do entendimento desses conceitos, ou seja, o que entendem por interesse público e bem comum?
O cientista político inglês Kenneth Minogue diz que é fácil desacreditar tais expressões mostrando que praticamente todo ato de governo tem tanto conseqüências boas quanto más para diferentes grupos de pessoas. Mas é equivocar-se quanto ao significado de interesse público pensar que ele pode ser julgado em termos de custos e benefícios pessoais, ainda segundo este autor. Em outras palavras, pode-se entender que a corrupção é fruto desta confusão entre o público e o privado que se manifesta especialmente nos detentores do poder.
É perspicaz citarmos Thomas Hobbes que a esse respeito diz em seu Leviatã (1651): Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda.
Há, portanto, uma ligação estreita entre poder e corrupção. Corrupção é usar do poder em benefício próprio. O benefício pode ser dinheiro, influência, projeção, tratamento especial, etc. Fundamental é o segredo das transações porque são imorais ou ilegais. Usam-se passiva ou ativamente presentes, pressões, fraudes, subornos e nepotismo. Corrupto é quem suborna ou aceita ser subornado para garantir benefícios para si ou para um partido ou para o governo.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina, do ISBL e Uninorte
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