O livro é um espelho
Carlos Bobroff da Rocha

O grau de desenvolvimento de um país é influenciado pela quantidade de leitores, pois a leitura desenvolve as habilidades inatas dos indivíduos. Como uma nação é construída graças a esses indivíduos, vê-se que os livros têm o poder de transformar o homem em agente da transformação do mundo.
Ler é uma atividade que exercita o chamado raciocínio abstrato. Isso significa que aquele amontoado de palavras dispostas geralmente em páginas sem gravuras é visto pelos olhos como um enigma. Por fim, o cérebro se encarrega de solucioná-lo por meio do trabalho mútuo da criatividade, da intuição, da lógica, do emocional, de todas as áreas cerebrais que formam a identidade da pessoa. O ato da leitura acaba se constituindo, na realidade, em uma descoberta na qual cada um possui uma maneira particular de decifrar
o antigo enigma do mundo: de que modo deve agir o ser humano em sua vida para poder influenciar os outros? Percebe-se que os textos escritos ensinam o leitor a buscar as respostas dentro de si, porém sem desprezar os fatos ao seu redor.
Como resultado dessa prática, entende-se o motivo de um Estado desenvolvido apresentar uma população ávida pelo diálogo com os escritos. Cidadãos que não defendem apenas sua classe social, que enxergam certos programas populares como dominação subliminar das elites sobre os analfabetos, enfim, que desejam
solucionar o antigo enigma do globo, são o progresso. Diferentemente dos países pobres, cujo povo lê pouco e desconhece suas habilidades, uma população culta não aguarda a ação dos governantes. Ela ousa tomar a iniciativa.
O exercício da leitura, como foi exposto, contribui para a identidade do leitor, enriquecendo-a em sua autonomia em analisar os fenômenos. O resultado disso é que o homem, ao pôr em prática sua visão de mundo, beneficia a todos.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina da Universidade Estadual de Londrina

A Higienópolis do passado e do presente
Deise Maia

O Inventário e Proteção do Acervo Cultural de Londrina - IPAC/LDA, programa de extensão da Universidade Estadual de Londrina, desenvolve, desde meados dos anos 80, planos de ação que visam compreender, reconhecer e registrar bens materiais e simbólicos que constituem o Patrimônio da região norte-paranaense. Patrimônio este produzido por diferentes migrantes que vieram ao Norte do Paraná, em decorrência de uma frente pioneira, induzida pela Companhia de Terras Norte do Paraná, no final dos anos 20 do século passado, combinando um projeto imobiliário às práticas da agricultura do café.
As ações deste programa de extensão agregaram profissionais e acadêmicos das várias áreas do conhecimento, que discutem a questão do Patrimônio, aliando ensino e pesquisa. Ao mesmo tempo, é um trabalho de política cultural com a participação da moradores da cidade, que se tornam sujeitos da pesquisa e, entre as atividades, narram no presente suas trajetórias e histórias de vida, assim como fazem a leitura do material iconográfico de família, reconstruindo o passado e a memória local.
Desde 2004, uma ação do programa IPAC/LDA: Apropriação do Espaço e Lazer está voltada para os estudos sobre patrimônio em Londrina, considerando os usos dos espaços no passado por determinados moradores e no presente por outros atores sociais, em uma dinâmica urbana fundamentada na complexidade econômica que alia a agroindústria à prestação de serviços. Dentro de uma ótica antropológica, busca - por intermédio de um trabalho minucioso, de perto e de dentro - compreender as lógicas particularidades de diferentes grupos e desvendar o modo como a cultura é produzida no cotidiano, numa perspectiva do olhar que vê no local as tendências do urbano global.
A Av. Higienópolis constituiu-se o ponto de partida do trabalho, uma vez que retratou o desenvolvimento urbano em função do café. Significou o projeto de moradia e o estilo de viver de diferentes segmentos de elite - funcionários da empresa colonizadora, fazendeiros, comerciantes, políticos, entre outros - que testemunharam as transformações de Londrina. No presente, a avenida combina construções de madeira com as de alvenaria, a horizontalização com a verticalização, o tradicional com o moderno, o rural com o urbano, o popular com o erudito, o trabalho com o lazer.
Moradores antigos da rua têm se envolvido nesse projeto, contando suas histórias, e aos poucos vão reconstituindo a memória da família, da rua e da cidade. Neste mês, o IPAC/LDA estará realizando uma oficina na residência da sra. Margarida Machado, promovendo um encontro entre vizinhos que vivenciaram o passado na rua e provocando a recomposição da memória do cotidiano do passado da vizinhança. Os novos significados atribuídos à rua e à cidade são indicativos da dinâmica urbana e sócio-cultural de Londrina e da construção do patrimônio ambiental urbano por diferentes usuários, revelando muitas londrinas dentro de Londrina.
DEISE MAIA é professora de antropologia da Universidade Estadual de Londrina e coordenadora do projeto de extensão Patrimônio e Lazer IPAC/Londrina/UEL

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