ESPAÇO ABERTO
Pai: medo ou amizade
Moacir Costa
É mais comum que se pensa ouvir pessoas que passaram dos 40 anos ter dificuldade em identificar qual sentimento predomina dentro deles em relação ao pai: medo, confundido com respeito ou amizade e admiração. As dificuldades do pai, se manifestaram desde o simples contato físico do abraço caloroso até a conversa mais descontraída ou intima. Os pais mais antigos, acreditavam que a educação de bons resultados deveria estar baseada em atitudes disciplinadoras e imposição de limites. As cobranças constantes e amedrontadoras não davam espaços para o elogio e boa conversa. Os homens tentam justificar que o seu território ou campo de luta sempre foi o ambiente social, o local de trabalho, em fim a vida fora de casa.
Isso desenvolveu em muitos homens, comportamentos observados ainda em pais jovens com sentimentos de poder, acreditando muitas vezes que a ultima palavra deverá ser deles, passando para os filhos a falsa sensação de todo poderoso que resolverá todos os problemas. Nesses últimos 20/30 anos, esse quadro começou a mudar com a rápida ascensão e emancipação de muitas mulheres, que tem contribuído para o pai despreparado e omisso na educação dos filhos, prestar mais atenção nessa mulher que está ao seu lado, participando ativamente sobre todos os problemas e suas soluções que beneficiam a família.
É motivo de alegria poder observar que esse novo pai, está atento e acompanha a gravidez da parceira, percebe o crescimento emocional e afetivo dos filhos, participa das reuniões na escola e que não tem vergonha de reconhecer suas inseguranças e já não acredita mais que homem forte é aquele que suporta a dor sem mostrar sentimentos e sabe que precisa de muita coragem e apoio para enfrentar seus insucessos e inseguranças.
O novo pai já não tem tanta facilidade em posar de machão e demonstra mais facilidade em conversar com a mulher sobre seus conflitos e começa a procurar ajuda inclusive para suas dificuldades sexuais. Ele enfrenta as dificuldades no campo profissional e financeiro mas não esquece da importância das suas participações na vida familiar.
Estamos enfrentando períodos de preocupações e angústias intermináveis diante dos problemas psicológicos dos filhos em virtude do uso de drogas e da violência, desencadeando depressões e contribuindo para a desagregação familiar. Passa a ser urgente que cada pai reavalie na sua intimidade qual tem sido o caminho utilizado para reduzir as distâncias na sua relação familiar. Somente assim será possível uma convivência mais agradável e confiante, onde a boa conversa e as trocas afetivas tenham sempre uma via de mão dupla.
Ao conseguir perceber a importância desses laços de confiança, você irá perceber que o seu destaque profissional e o conforto material adquirido com muito trabalho, tem algum significado se estiver associado a uma parceria e amizade sincera com os filhos. É através dessa convivência que você reduzirá as suas angústias e terá a certeza de ser mais admirado e valorizado, com melhora da sua auto-estima, e feliz por ser considerado um pai amigo.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo
Iniciação sexual precoce: uma saída
Mary Neide Damico Figueiró
Complementando a reportagem publicada pela Folha no domingo dia 8, gostaria de acrescentar algumas reflexões. Creio que não há como não indignar-se diante de depoimentos de adolescentes que se iniciaram sexualmente entre os 10 e 14 anos. Este é um problema preocupante, que pode trazer sérias repercussões, não apenas a eles, particularmente, mas à dinâmica da vida social. Não caberia aqui discuti-las.O ponto que quero chamar a atenção é: precisamos tomar atitudes urgentes, para que a iniciação sexual se dê mais tarde. Em casa, por meio do diálogo, que deve abranger mais o ouvir que o falar. Na escola, ou em outros ambientes educacionais, por meio de oportunidades para refletir muito sobre a questão. O caminho não pode ser o de ditar regras, dizendo não faça ou faça apenas a partir de tal idade. Temos que ir muito além do ensino dos conteúdos básicos da Fisiologia e Biologia; isto cansa e desmotiva os alunos. Temos que levá-los a pensar sobre o namoro, a iniciação sexual, a gravidez precoce etc.
Os professores podem contar com muitas estratégias, como por exemplo: dramatização, debate de filmes, dinâmicas de grupo e leitura (acompanhada de discussão com os colegas, em sala) sobre obras de literatura e notícias de jornal que tenham relação com o mundo deles e com as problemáticas da adolescência. Se for lhes dada as chances para pensar, muitos perceberão, por si próprios, que a escolha exige responsabilidade.
Nessa forma de fazer Educação Sexual, que deve ser agravável e não amedrontadora, os alunos terão espaço para expressarem os seus sentimentos, angústias e dúvidas e é isto, muito mais que as informações, que vai assegurar que amadureçam para serem capazes de tomar decisões com autonomia. Temos que ajudá-los a entender que quando são estimulados para fazerem sexo pelo sexo, e eles obedientemente seguem, não estão agindo com liberdade. Precisam descobrir que podem se auto-governar.
Paralelo a tudo isto, precisamos assegurar às crianças, adolescentes e jovens, oportunidades de realização pessoal, seja através do estudo, do desenvolvimento de habilidades sociais, intelectuais, artísticas e esportivas, como meio de elevar a auto-estima e a alegria de viver. Não penso nestes investimentos como forma de desviar ou reprimir o desejo sexual.
Acho que a sexualidade e o prazer sexual devem ser vividos, mas pode ser de outras formas, como abraços, beijos, masturbação, carícias íntimas, seja no ficar ou namorar, sem que necessariamente se pratique a relação sexual, pelos menos, quiçá, até os 16, ou 17 anos, ou... mais um pouco. Sobretudo, precisamos assegurar formação ética (justiça, respeito, amor, igualdade...) pois ela é o alicerce maior da formação da personalidade e da capacidade de tomar de decisões.
MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é psicóloga, doutora em Educação e professora do departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina
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