As cuecas públicas

Sérvio Borges da Silva
  Enquanto alguns poucos privilegiados têm muito e quase tudo neste nosso país, como casas belíssimas, apartamentos suntuosos, sítios principescos, cavalos de raça e até animais engalanados de estimação, melhor cuidados do que as pessoas, outros seres humanos abandonados à própria sorte têm as ruas das cidades como morada, numa inequívoca demonstração da omissão e do desprezo que temos para com o próximo. Enquanto isso, em Brasília, o ‘‘mensalão’’ continua a ser discutido, sem solução, e os escândalos se sucedem.
  São malas de dinheiro com o dízimo de igrejas; sigilos bancários quebrados mostrando dinheiro em contas, quantias enormes e incalculáveis, não se sabem de onde, ou melhor sabe-se sim, porém não querem dizer, sem falar nos ‘‘dólares na cueca’’ dos apaniguados dos políticos bem situados. Aqueles que vieram em nome da decência, da ordem pública e da defesa do patrimônio público, são os primeiros a se deliciarem com os bens públicos, na incontável orgia de dinheiro público, ao ponto de carregarem o dinheiro roubado em malas, sacolas de lixo, cuecas, roubando o erário público e o dinheiro que seria destinado aos mais necessitados.
  A cegueira de uns, a inépcia de outros e a vergonha nacional dos homens presdestinados, os que se julgam intocáveis no quesito ‘‘moral’’ e ‘‘ética na política’’, estão transformando a coisa pública em escândalo nacional. Graças ao trabalho incansável da imprensa e, é preciso dizer, de alguns poucos parlamentares abnegados, além do depoimento e das denúncias de pessoas simples, até das secretárias, temos diante dos nossos olhos toda a vergonha nacional, transformada em roubalheira desbragada.
  Os responsáveis pelo ‘‘mensalão’’, vão depor na CPI dos Correios e mentem o tempo todo, apresentando desculpas esfarrapadas, sorrindo dos parlamentares, gozando do país inteiro e vilipendiando o trabalho honesto, a luta diária do nosso povo. Existe uma farsa enorme em andamento, no meio de tudo isso, promovida pelos algozes da população que não temem a Deus, que submetem o país inteiro aos seus desígnios animalescos, brutais e criminosos.
  Há toda uma artimanha grotesca, uma farsa dantesca e um delírio de grandeza dos ladrões do dinheiro público. Eles não param de roubar o nosso dinheiro, não param de rir do Brasil e sempre acham que estão certos e continuam sendo os defensores da moral e dos bons costumes. A pergunta que não quer calar, no coração dos brasileiros: será que vão conseguir cassar os deputados corruptos? E os comparsas da imensa quadrilha que usurpou poderes no governo, vão ser extirpados da administração pública?
SÉRVIO BORGES DA SILVA é advogado em Londrina


Cortina de fumaça

Marcos Colli
  Tem sido observado por todos os brasileiros atentos ao processo político diário noticiado pela imprensa, um movimento que, - diante de todos os escândalos mais atuais, recheados por somas estratosféricas de dinheiro, envolvendo as maiores lideranças do governo federal, e dirigentes nacionais do PT, - tem por finalidade isentar o presidente da República de qualquer tipo de relação ou mesmo de conhecimento sobre os fatos.
  O suposto movimento, vem sendo sustentado por expressões como: ‘‘preservação das instituições’’, ‘‘preservação do Estado Democrático de Direito’’, ‘‘preservação da credibilidade da classe política’’, ou mesmo ‘‘... da história e da ascensão da oposição ao poder no Brasil’’. Tais expressões podem ser ouvidas em importantes programas de rádio e TV, lidas em importantes jornais, e, ouvidas nas ruas, sendo reproduzidas pelas pessoas que compraram a idéia.
  Por outro lado, é forçoso lembrar as palavras da senadora Heloísa Helena, em entrevista num programa de TV (24/7), em que afirmou que o presidente do Brasil é ‘‘homem de uma extraordinária inteligência, e profundo conhecedor do processo político’’, dizendo não acreditar que Lula desconhecesse os fatos e os denunciados mecanismos de pagamento a deputados federais para garantir sua governabilidade.
  Sem dúvida, é um momento tão infeliz, quanto importante para a história do país, para o crescimento da cidadania e da própria democracia. Inevitável e necessário, agora, é refletirmos sobre o que faremos, enquanto povo, eleitores e cidadãos, e, sobre o que queremos que aconteça diante do quadro de corrupção escancarada e instalada em algumas das principais instituições da nação.
  Além de recuperar a capacidade de indignação do povo, toda essa exposição vergonhosa de métodos e procedimentos entre corruptores e corrompidos, deverá servir, ao menos, para entendermos que, para separar o joio do trigo, não poderemos ser acometidos de receios ou de apressados instintos de preservação. Cada cidadão brasileiro, hoje, espera um aprofundamento rigoroso das investigações e apurações, exatamente para ver sobrar apenas a parte das instituições, do Estado Democrático, etc., que merecer crédito. A própria classe política não poderá temer tal resultado. Que venham as cassações. Que venha a decepção e o menosprezo da população nas eleições que se seguirem.
  Cabe, por outro lado, perguntar qual o real interesse daqueles que pretendem minimizar as apurações sobre a responsabilidade e conhecimento do corrupto procedimento de manutenção da governabilidade junto à Camara de Deputados Federais. Quem serão os beneficiados? Qual será o prêmio para os isentados e como deverão retribuir aos isentadores?
  Com o devido respeito, um processo de amenização do resultado das CPIs em curso, aproxima-se do efeito de uma cortina de fumaça que tem a finalidade de confundir e impedir a visão da coletividade, enquanto se escondem os meliantes, mudando-se apenas o cenário e os personagens. Não será possível limpar um fio de cabelo da política, se não chegarmos ao fundo do poço. Pelo bem da democracia, estejamos preparados.
MARCOS COLLI é advogado em Londrina


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