ESPAÇO ABERTO
Talentos em ação
Eneida Maria Soares Rossi
O antídoto para a miséria política e social que tem povoado nossos dias, talvez esteja num sentimento: o amor. Nada que soe a pieguice, mas ao lado pragmático que envolve até mesmo ternas emoções. Combustível poderoso, intrínseco a cada um de nós, esse amor aguarda sinal verde para eclodir em forma de solidariedade e cidadania.
O clima faz-se extremamente propício a tal momento, já que nos últimos tempos vimos escancarada a vulnerabilidade dos valores éticos e morais de muitos daqueles que dizem conduzir os destinos deste país. Com o navio à deriva e a iminente ameaça de naufrágio, a hora pode ser agora! Se não podemos mudar o imutável, podemos sim sublimar o nosso inconformismo diante do que aí está, usando a energia dos talentos pessoais a serviço da comunidade.
Segundo Lao Tsé, filósofo chinês do século VI, grandes realizações são possíveis quando se dá importância aos pequenos pedaços. Antes de mais nada, precisamos crer na força do trabalho voluntário enquanto ação de qualidade, sistemática, baseada na determinação e na disciplina, elementos fundamentais à condução de resultados eficientes e eficazes.
O campo é fértil, o que significa que há demanda para diferentes perfis de doadores, assim como diversas são as áreas que deles necessitam: educação, saúde, assistência social, cultura, cidadania, meio ambiente, esporte, etc. O tempo a ser doado irá, obviamente, variar de uma pessoa para outra, visto que estará na dependência da disponibilidade de cada um, porém o mais importante será a qualidade impressa nessa ação e o comprometimento com a causa abraçada.
Pesquisa recente na internet revela que há em Londrina, aproximadamente, 400 ONGs - Organizações Não-Governamentais -, trabalhando com temas de interesse social, muitas das quais certamente abertas à mão-de-obra voluntária. Engajar-se em uma delas é o primeiro passo para uma nova experiência de vida que, além de propiciar o exercício da cidadania, poderá fazer de nós pessoas melhores e mais felizes.
ENEIDA MARIA SOARES ROSSI é professora e voluntária da Sociedade Amigos do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss
A transfiguração dos valores
Antônio Celso Mendes
A época atual é testemunha de uma crise de valores jamais sentida antes, em qualquer fase da história. Isto se deve a inúmeros fatores, mas nunca é demais assinalar suas causas principais, entre outras: a auto-suficiência, o terrorismo, a indiferença moral, o mundo globalizado. Com vistas a superar tal desacerto naquelas atitudes que têm sido consideradas benéficas para todas as pessoas, em qualquer tempo e lugar, faz-se necessário processar uma transfiguração nos valores reconhecidos pelos direitos humanos e confirmados na longa evolução espiritual da humanidade.
Esta será uma nova maneira de ver o mundo e avaliá-lo, como condição de uma forma diferente de agir, diante dos problemas aparentemente contraditórios que a toda hora enfrentamos. Para tanto, são oferecidos alguns aspectos dessa transfiguração:
1) As aparências não são reais, pois possuem diversas formas de interpretação. Sua verdade só pode surgir de um processo pessoal de vivência transfigurada.
2) Sou dualidade de matéria e espírito, corpo e pensamento. Sua interação, harmônica e feliz, deve refletir a mesma Fonte de onde provêm.
3) O Eu, identificado com tudo, é o princípio de superação de todas as diferenças e de todos os paradoxos: Tu és aquilo!
4) A felicidade é um estado de espírito, que não depende de nada, por ser a comunhão do Eu com o Todo. O inferno ou a desgraça é o isolamento do Eu, a sua separação de tudo o mais.
5) Os valores ditos negativos, resultantes da polaridade axiológica (bem/mal, feliz/infeliz, riqueza/pobreza) devem ser vistos como oportunidades de provação e esperança.
6) Os fracassos não devem ser considerados definitivos. Eles se constituem em oportunidades concretas para alcançar mais ricos objetivos, pois nada é irreversível.
7) Os sacrifícios só serão valiosos quando contribuírem para elevar nossa auto-estima, ou quando resultarem em benefícios para outros.
8) Não nos cabe fazer julgamentos, pois todos somos iguais em méritos e deméritos. Deus não é juiz, pois não tem contas a acertar com ninguém.
9) A morte é a transformação perene do fluxo da vida. Se tudo morre a cada noite, saibamos viver cada manhã como se fosse a derradeira.
10) O amor é onipresente e não impõe condições. Como doação absoluta, não deve depender de retribuição.
ANTÔNIO CELSO MENDES é professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná em Curitiba e membro da Academia Paranaense de Letras
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