Por desamor ao juízo
Todo o juízo implica em se opor a qualquer forma de existência e de comportamento. O juízo faz esquecer a afetividade humana, induz a abandonar o vivido, a vida, pois é um critério (o juízo) da práxis negadora do que é humano.
O juízo, como diz o filósofo Gilles Deleuze ''impede a chegada de qualquer novo modo de existência''. O importante é fazer as coisas existirem por elas mesmas, por sua própria natureza e não pelo julgamento (o juízo).
É que julgar é uma atitude arrogante, é uma verdade presumida que precisa ser combatida. Julgar é querer ser, é pretender ser por pura presunção. O julgamento se baseia nas coisas que seriam equivalentes, como se o ''ver'' fosse o ''ser'' - o que é, mas isso é pura contradição. Deleuze diz ainda que julgar é muito repugnante, por isso é preciso desafiar o juízo, não se deixar dominar por ele, que é uma invenção contra a vida.
O juízo é cruel por ser contra a vida. Não é um atestado de força, é uma força que desequilibra o ''espírito ', pois funda-se em princípios que seriam superiores (Nietzsche, em vários de seus textos desenvolve o tema do juízo, denunciando a pretensão de julgar a vida em nome de valores superiores). Ou seja, o que se julga não está na pessoa ou na coisa. Seria tão somente os presumíveis modos de ser que não corresponderiam aos princípios superiores.
O juízo é quase sempre uma espécie de sonho que funciona no vazio, que é apenas forma e não conteúdo. O problema é que o juízo cala forte e não encontra resistência, pois jamais se submete às exigências do conhecimento e da experiência.
Quem julga impõe limites, imobiliza e impõe apenas uma forma (que é verdade, que brilha como Apolo, deus grego de boa forma e de rara beleza, mas que se estilhaçou em mil pedaços se confrontado com a vida, com a experiência).
Todos nós padecemos do juízo à espreita do cotidiano da vida, que nos acusa, delibera e dá veredicto sobre isto e aquilo, confundindo-nos ao infinito, como diria Nietzsche em ''A Genealogia da Moral''.
PAULO ALVES é professor-adjunto do departamento de História na Universidade Estadual de Londrina


Até tu, Soraya?
Aprendi. A corrupção não se restringe ao Planalto Central. O que tenho visto todos os dias são pessoas comuns metidas em todo tipo de canalhagem. Pessoas dando um jeitinho, burlando o fisco, regateando favores, implorando uma vaguinha pro parentinho, uma distinção, um tratamento diferenciado. O que tenho visto são pessoas emporcalhando as ruas e as cabeças do Brasil todos os dias. Pessoas comuns que cruzam sinal vermelho, jogam lixo nas ruas, mentem, tripudiam, fraudam, roubam, traem, cospem no prato que comeram. O que estas pessoas fariam no poder?
Não há como negar, mesmo com todo constrangimento, que as pessoas que estão no poder são extensão do povo aqui embaixo. Claro, existem as minorias, mas uma grande parte vive dando as caras na imprensa capenga vomitando asneiras, mediocridades sem fim, pessoas que dariam tudo para ter ou pelo menos sentir o gostinho do poder. Pessoas que ao sentirem uma gosma de poder, uma poeira de supremacia, botam seus cascos para pisar, mandam, esfolam, traem sem a menor piedade.
Não são todos, mas vejam por exemplo o caso da senhora Soraya Garcia, ex-assessora financeira da campanha de reeleição do prefeito Nedson Micheleti (PT), que com seu olhar assustado e supostamente cândido dispara contra seus ex-parceiros de ''trabalho''. Dona Soraya sabia há muito tempo da existência de caixa dois, corrupção, desmando, mas calou-se e, pior, nada diria caso tivesse conseguido seu emprego no Sercomtel, como ela mesma afirmou à Folha de Londrina: ''Só queria meu cantinho''.
É o que o brasileiro quer. Um cantinho. Tendo um cantinho os olhos fecham-se pra corrupção, a boca cala-se aos desmandos, a vida segue num mar de rosas. Caso Soraya estivesse em seu cantinho, estaria neste momento calada, cúmplice solitária em uma salinha com ar condicionado, feliz. Não foi nenhum sentimento nobre que moveu esta senhora, não enganem-se: o que a moveu foi o ressentimento. Tornou-se útil. Ela toma a clássica postura do: ''Estava só cumprindo ordens!'' Todos sabemos que ela poderia ter recusado o ''trabalho'', protestado, denunciado, mas a promessa do cantinho justificava tudo, inclusive a omissão (parece-me que Lula pode perder o cargo por omissão). É a cultura do sujo falando do mal lavado.
Vamos limpar, vamos varrer, mas que seja uma limpeza pesada e geral, começando por identificar os pequenos corruptos ainda em crescimento, os omissos, cúmplices, de moral provisória, aqueles que por enquanto ''apenas'' emprestam seus préstimos às bandalheiras com a desculpa de garantir um cantinho. Aliás, dona Soraya já fez seu novo pedido aos novos ''parceiros'': quer proteção, ou seja, um cantinho seguro.
MÁRCIO AMÉRICO ALVES é escritor em Londrina, autor do livro ''Meninos de kichute'' e na última eleição justificou o voto


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