Contato: emoção e erotismo

Moacir Costa
  A fantasia, o contato físico e as experiências passadas são essenciais para o aumento do interesse e da atração sexual entre duas pessoas. E todas elas estão alojadas no cérebro, que se conecta ao campo dos sentidos de uma forma muito suave, que pode ser representada por uma música, uma boa conversa, um filme de amor. Graças a essa experiência agradável de convivência, há uma cadeia de emoções prazerosas que são acompanhadas pela mente. O corpo, por sua vez, também acompanha esse movimento e os sentimentos vão germinando um relacionamento.
  Os hindus e outros povos orientais valorizam a aproximação, o ritual sensual e demorado que um relacionamento pode provocar. Já o mundo ocidental faz as coisas na base da pressa, do fast-food. Come-se e transa-se rapidamente. Quando as pessoas dedicam mais tempo aos sentimentos, à observação, ao conhecimento, a esse processo de aproximação, que é o verdadeiro encontro entre duas pessoas, a sexualidade fica muito mais evidenciada. Nesse contexto, inclui-se também, além do cérebro, que deve ser sempre estimulado com situações agradáveis e prazerosas, o poder da pele. Há quem acredite que o maior e mais importante órgão do corpo humano é a pele, um território enorme onde milhares de pontos são excitáveis quando tocados. Há uma sensibilização, um conforto, uma situação altamente agradável quando as pessoas se tocam.
  Infelizmente, poucas pessoas têm consciência disso. Muitos sequer se deixam abraçar ou se tocam, quase sempre porque tiveram uma educação repressiva, na qual há muita vergonha do corpo e da nudez. Ainda hoje, muitos pais desenvolvem desde cedo nos filhos esse tipo de sentimento. De fato, um dos fatores mais importantes no desenvolvimento do papel sexual do ser humano é a família, mais especificamente os pais, pois é neles que a criança irá encontrar o modelo do homem ou mulher que irá imitar e poder adotar ou não mais tarde.
  No entanto, a maioria das pessoas não tem consciência do poder que pai e mãe exercem sobre a vida emocional dos filhos. Na verdade, a sexualidade pode ser muito afetada pelas influências familiares. Desde a mais tenra idade, as crianças observam como os pais se relacionam entre si (de forma carinhosa ou não) e com o próprio corpo (de forma natural ou não). Essas informações ficarão registradas na sua memória afetiva e serão ativadas quando começarem a se relacionar com outra pessoa.
  Quanto ao cérebro, ele pode ser preparado para o bom relacionamento afetivo. Em vez do casal ficar sentado em frente à televisão, sem conversar ou trocar carinhos, existem mil possibilidades de filmes, concertos, shows, passeios, viagens, caminhadas, espetáculos, exposições acontecendo lá fora. Tudo isso representa excelente alimento para o cérebro. Ativa, inspira, estimula pensamentos positivos, animação, energia e vivacidade. E por esse caminho que você poderá experimentar crescimento na sua vida afetiva e sexual.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo e autor do livro ‘‘Mulher – a conquista da liberdade e do prazer’’ (Ediouro)


Educação e a fábrica de chocolates

Telma Gimenez
  Dois eventos aparentemente desconexos me fizeram refletir sobre o que significa educar crianças e adolescentes na atualidade. De um lado, o belíssimo ‘‘A fantástica fábrica de chocolates’’, dirigido por Tim Burton, com base na obra de Roald Dahl. De outro, a notícia de instalação de câmeras de vídeo nas salas de aula de um colégio da cidade. Ambos sinalizam caminhos - alternativas que ensinamos a nossos filhos para lidar com nossos relacionamentos, escolhas que fazemos na vida e suas conseqüências.
  Das várias lições do filme, a certeza de que sozinhos e isolados não somos nada. Da escola ‘‘big brother’’ aprendemos que é preciso inibir ‘‘atitudes erradas’’ dos alunos via monitoramento. Cresce o número de câmeras, agora lado a lado com o professor, a ensinar que falta de respeito se cura com vigilância tecnológica. Não posso deixar de admitir que se trata de um caminho. Mas, ao contrário da mensagem da trajetória de Charlie, a solução não se coloca como a do diálogo, a da necessidade de confronto com a diferença e o desenvolvimento da capacidade de lidar com a adversidade.
  Imagino que adultos se tornarão aqueles que hoje estão submetidos a um aparato tecnológico como forma de resolver seus conflitos. Nessa empreitada individualista, vamos aleijando a capacidade de nossos jovens de resolver diferenças, de buscar a causa comum, de refletirem em conjunto o propósito de se assistir aulas do ‘‘terceirão’’. Receio que, de quebra, vamos enfraquecendo nosso senso de coletivo, nossa necessidade de convívio democrático, de respeito ao outro. Vamos, em suma, abandonando a idéia de democracia.
  Algo parece estar errado quando os professores ‘‘precisam se concentrar no conteúdo’’ e não há tempo para ética e respeito. Se há alunos que atrapalham as aulas (os bagunceiros, a minoria) não seria o caso de se promover uma ampla discussão com os não-bagunceiros e inclusive com os pais para tentar se chegar a uma solução?
  Algo continua profundamente errado quando as instituições encarregadas da formação das novas gerações apostam na solução mais cômoda (como o pai que deixa o filho ver TV como e quando quiser, a mãe que encoraja a gula do filho ou a que quer ver a filha triunfar a qualquer preço, o pai que satisfaz todos os desejos da filha). Como nos mostra o filme, o resultado pode ser desastroso.
TELMA GIMENEZ é professora do departamento de Letras Estrangeiras Modernas na Universidade Estadual de Londrina


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