ESPAÇO ABERTO
Cooperativas não temem crises
Marcelo Cypriano
A estimativa de um crescimento de 2,8% para o Produto Interno Bruto (PIB), feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento, preocupa a todos os que pretendem continuar ou ingressar no mercado de trabalho. Sem um crescimento consistente, os índices de desemprego, na melhor das hipóteses, se estabilizam, mas tendem a crescer. Em lugar de assistir a tudo isso de braço cruzados, podemos agir rapidamente para evitar sofrimento maior a milhares ou milhões de brasileiros.
Os empresários represam seus investimentos em momentos de crises econômicas e políticas, porque temem assumir compromissos financeiros sem retorno, devido à redução de seus negócios. Um dos compromissos que costumam adiar é a contratação de pessoal, pois não há flexibilidade na legislação trabalhista, com suas mais de seis décadas de existência.
Ora, se os empresários puderem recorrer a cooperativas de trabalho, que oferecem trabalho formal - com desconto de 11% para a Previdência Social e de Imposto de Renda na fonte -, obviamente não serão tão drásticos no corte de projetos em função de crises.
Se há cooperativas, trabalhadores interessados em se associar a elas, e empresas que necessitam de seus serviços, por que não estimular seu desenvolvimento, ainda mais em uma das cíclicas crises por que passa o Brasil?
Essa pergunta deve ser feita a todos os fiscais, juízes, governantes e legisladores que não reconhecem, nas cooperativas de trabalho, opções formais e legais à contratação pela CLT.
Se eles mudassem de idéia, haveria inúmeras vantagens para os brasileiros. Porque, para quem está fora do mercado conta, acima de tudo, a possibilidade de ter trabalho formal e digno. As piores relações de trabalho são o desemprego e a informalidade. No primeiro caso, não há renda nem direitos. No segundo, há renda, mas sem qualquer segurança.
As cooperativas de trabalho podem ser rapidamente estabelecidas e ampliadas, para combater as crises periódicas que nos ameaçam. Basta receberem sinal verde para trabalhar em paz. Os brasileiros só pedem mais trabalho e dignidade. Por que não lhes oferecer esses dois direitos fundamentais?
MARCELO CYPRIANO é presidente da Central de Cooperativas de Trabalho e Serviços do Estado de São Paulo (Cootraesp)
Memorial: o descaso com nossa história
Ana Rosa Lunardelli
O prefeito Nedson Micheleti retirou o Memorial dos Pioneiros do Museu Histórico usando dois argumentos: o Memorial, se construído no Museu, estaria descaracterizando o prédio histórico - o que é discutível - e se construído na praça 1º de Maio estaria possibilitando a revitalização da praça - idéia no mínimo estranha, pois a praça é merecedora de revitalização com ou sem Memorial.
O belíssimo projeto arquitetônico vencedor do concurso público por nós organizado propõe um Memorial-Recinto ao lado da plataforma do Museu, abrigando o trem ali estacionado. Nada mais justo, pois esse trem é, também, personagem da história dos pioneiros contada pelo Museu. Mas não é só isso, há também um motivo prático: exposto ao sol e chuva como se encontra hoje, o trem sofre sério processo de deterioração; colocá-lo sob a proteção de um teto é uma forma inteligente de deter esse processo, a custo zero, pois os recursos para a construção do Memorial estão aí e serão usados seja qual for a localização do mesmo. Mas algumas pessoas foram contra nossa idéia, pois consideravam que estaria causando a descaracterização do prédio histórico.
Descaracterização? O Memorial por nós sugerido sequer toca no prédio histórico! Não lhe acrescenta nenhum tijolo, nenhum prego! Seu estilo arquitetônico é diferente, sim, como tem que ser, para que nunca possa ser confundido com o prédio histórico. É moderno, arrojado, digno da história arrojada de Londrina! É graças à coragem e arrojo de nossos antepassados que hoje podemos nos orgulhar de ícones como a antiga Estação Rodoviária, Cine Ouro Verde, Edifício Autolon, e a própria Estação Ferroviária.
Descaracterização? E o que são os totens que se pretende implantar no meio de uma via pública? Implantar autoritariamente, diga-se de passagem, pois não se ouviu falar de concurso público para a escolha do projeto arquitetônico e tampouco para a escolha do artista plástico que criará as obras de arte que irão decorá-los. À parte essa discussão, criou-se um dilema: se a construção do memorial no Museu descaracteriza o prédio histórico, nenhuma outra cobertura poderá ser feita no local. Portanto, para proteger o trem, restam duas alternativas: restaurá-lo periodicamente, ano após ano, como parece sugerir o secretário de Cultura, ou colocá-lo sob outro teto qualquer em outro lugar qualquer. A primeira solução é um descaso para com os londrinenses: como desperdiçar recursos públicos, em detrimento das inúmeras demandas do Município? A segunda é absurda e incoerente: a retirada do trem de seu lugar de direito, isso sim é uma tremenda descaracterização.
Diante do dilema criado, resta-nos esperar que a UEL venha defender esse trem que não é, mas está peça do acervo por força de um convênio firmado com a ferrovia, o qual poderá ser denunciado a qualquer momento, em vista do estado de abandono em que se encontram essas peças. Não fossem suficientes esses argumentos, seria importante lembrar que a emenda aprovada pela Câmara Federal é clara quando determina que os recursos sejam destinados à construção do Memorial no Museu e não na praça.
ANA ROSA LUNARDELLI é arquiteta e presidente recém-empossada da Sociedade Amigos do Museu Histórico de Londrina Pe. Carlos Weiss
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