O real problema da CPMI

José Carlos da Rocha
  Oportuna e, ao mesmo tempo, preocupante, em razão das sempre muito bem colocadas posições deste Jornal ante os problemas que, a cada tempo, atingem nosso País. O teor do editorial da Folha de 1/8 referente à condução e destino das investigações do caixa 2 dos partidos políticos brasileiros - generosamente referenciada como ‘‘contribuições não-contabilizadas’’ -, uma vez que, diante do alastramento daquela conduta como uma prática normal de todos os partidos já estar se manifestando sinais de que tudo poderá ‘‘acabar em pizza’’, como sempre. Mas a preocupação maior, no caso, não decorre daquela possibilidade - que com certeza aconteceria -, de nossos mandatários se acobertarem pela prática comum do uso dessas ‘‘contribuições não-contabilizadas’’.
  A grande preocupação, e é o que se depreende daquele editorial, é a sociedade passar a admitir que seja este o grande crime que se está investigando no Parlamento, no Ministério Público e na Polícia Federal. Não é isto. Na verdade, isto seria mais um mero fato corriqueiro decorrente do nosso sistema político, que permite e, pior, aceita, declarações de gastos de campanhas muitas vezes inferior à realidade.
  Mas o fato que está vindo à tona neste imbróglio em que estão envolvidos alguns políticos brasileiros, não é o simples uso de caixa 2 para o custeio de suas campanhas. O que trouxe o deputado Roberto Jefferson (PTB) ao conhecimento da sociedade, sempre a última a saber, e que está causando perplexidade, é muito mais grave! É o uso de dinheiro, público e privado, para a compra e venda de consciências de parlamentares, para a compra do uso dos mandatos que lhes foram outorgados pelos eleitores que neles acreditaram, que neles confiaram, para representá-los como cidadãos brasileiros.
  E é com isto, não podemos tergiversar! E diante destes fatos é que não poderemos aceitar que os congressistas que cuidam das investigações transijam com os nossos direitos, com a ânsia do povo de ver tudo apurado e, mais importante, punido! Não importa o que custe! Não importa a que precisamos chegar. Como muito bem destacou o editorialista da Folha, as investigações devem continuar, os culpados terão que ser punidos e os males extirpados, sob pena de o próprio Congresso perder o seu respeito e a oportunidade de mostrar que ainda está à altura deste grande País.
  Por isso, fiquemos atentos e, por mais que se estendam as discussões e aflorem novas evidências, não se pode perder os objetivos iniciais para que foram instaladas as CPMIs, levando-as até final e, principalmente, mostrando que a cada momento, a cada fato novo dentro da política brasileira, a sociedade se aprimora, subindo mais um degrau na busca de melhores dias para os nossos descendentes.
JOSÉ CARLOS DA ROCHA é presidente da subseção Londrina da Ordem dos Advogados do Brasil


A transmutação de minha mangueira

Walmor Macarini
  Foi preciso minha mangueira morrer para eu conhecer melhor sua intimidade física, porque sua intimidade essencial eu já conhecia, porque dela conhecia os frutos, e eles eram bons. Pelos frutos se conhece a árvore, e pelas palavras boas se identifica a origem. Eu só tinha uma vaga idéia de como eram seus galhos, porque as folhas os encobriam em grande parte. Agora que se vai o meu pé de mangas, velho de trinta e tantos anos, vou assistindo ao seu processo de transmutação. Quantas mangas! Cada ano, mais de quinhentas!
  Eu desejaria vê-la, de novo, recoberta de folhas verdes, de flores e de frutos, mas sua missão cumpriu-se. Seria ingratidão pedir-lhe que produzisse ainda mais. Tenho que deixar que ela se vá, por livre vontade, no momento certo. Aconselham-me a cortá-la e dar seu tronco e seus galhos para uma pizzaria. Mas não a cortarei enquanto ela não der seu consentimento e seu último suspiro. Ela ainda está em pé, altaneira e elegante em suas formas. Os passarinhos ainda pousam em sua ramagem seca. Quem sabe ainda farão ali seus ninhos.
  Curioso é que um bando de pássaros novos apareceu. Eles pousam nos galhos secos às centenas, sempre no final das tardes. São negros e brilhantes em sua plumagem. Seriam chopins? Do alto eles assistem comigo ao quase meio milhar de aves aquáticas que no fim do dia recolhem-se lago acima (falo do Lago Igapó) e vão embora, não sei para onde, mas no rumo do poente. No dia seguinte, bem cedo, o fenômeno inverso se repete. Quisera ter asas para saber onde dormem essas aves. Certamente no colo das divindades guardiãs, que velam por elas.
  Uma árvore nunca morre, embora por falta de palavras mais adequadas dizemos que morreu. Minha mangueira apenas está se transformando. Ela ganhará nova forma a partir de sua materialidade em decomposição. Assim o homem. Ele não morre. Apenas seu corpo se decompõe, e sua essência alça vôo, para retornar em outro corpo, na hora aprazada, assim como as aves que vão e retornam no dia seguinte. Até que em dado momento não seja mais necessário voltar. Será quando terá vivido todas as vidas e todas as mortes, então ocorrerá a derradeira morte.
  Assim como minha mangueira traz revelações em sua decrepitude e nudez, também as pessoas mais velhas mostram às vezes facetas novas, que já estavam nelas mas não se manifestavam por inteiro. Não olho minha árvore com tristeza, mas com gratidão. Ela sempre foi generosa com sua sombra, seus frutos e seu oxigênio, e nada pediu em troca. Meu corpo físico tem um pouco dessa mangueira, porque dela hauri suas vitaminas.
  Se for do desejo dela servir ainda mais, talvez eu lhe aproveite a madeira para fabrico de algum móvel, ou mesmo para servir de lenha, assim como fazem os monges do Nepal ao doar seus corpos, após a morte física, às aves de rapina para que se alimentem. Seus espíritos iluminados assistem ao banquete e sublimam esse momento. Assim deve ser com minha mangueira. Mas não farei isto ainda. Vou esperar que ela esteja pronta e me dê um sinal.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


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