ESPAÇO ABERTO
Falsas verdades
Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
A verdade e a mentira são dois conceitos opostos entre si, sendo o primeiro caracterizado pela revelação das fragilidades humanas, enquanto o segundo exalta essas fraquezas. Assim, ser omisso perante os próprios atos é defender a cultura da ludibriação na sociedade.
O indivíduo que logra o outro, acreditando que tal atitude lhe é benéfica, está expondo a sua ausência de princípios. Isso mostra que sua opinião sobre um fato se forma a partir do oportunismo, ou seja, de uma chance repentina para o sucesso.
Esse tipo de pensamento contamina a coletividade, tornando as mentirinhas comuns na rotina. Finalmente, esse fenômeno se transforma no instrumento de manipulação, induzindo as pessoas a não se confrontarem com seus erros por meio da verdade.
Como o mentiroso não lida com seus demônios interiores, seu modo de agir continua baseado no erro, embora ele se sinta poderoso e seguro de suas convicções. Mas a verdade aparece, expondo as contradições do ser humano e determinando sua ruína. Políticos e juízes corruptos sabem perfeitamente disso. O homem, ao lado da verdade, não está se enganando.
O que é, realmente, a verdade? É aquela que surge do interior de cada um, sendo que não há uma verdade absoluta, mas várias que se complementam. Existem cidadãos que lutam por ela, apesar de esta ser uma mentira imposta como revelação divina.
Na sociedade, muitos querem convencer os outros de sua sinceridade e não são bem-sucedidos. Isso decorre do fato de esses profetas divinos não serem sinceros consigo mesmo. Uma verdade amarga é um conselho para a vitória; uma doce mentira é um discurso para a derrota.
Ser verdadeiro e falso é uma contradição, visto estes dois conceitos serem distintos radicalmente. Todavia, a cultura da ludibriação tem aproximado-os, contribuindo para que o homem tenha convicções verdadeiramente falsas. O exercício da verdade, portanto, é essencial para não ocultar os demônios interiores.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina na Universidade Estadual de Londrina
Fuga em ré maior
Gaudêncio Torquato
Nunca o Brasil exibiu um desfile tão aparvalhado de caras de paisagem como este a que se assiste no palco da CPI dos Correios. Discursos e indagações peripatéticas de parlamentares não conseguem abalar a performance calculista dos depoentes. A escassez de verdade só é comparável à abundância de sorrisos de Mona Lisa, se bem que o termo liso(a) não é o mais apropriado para designar bolsos polpudos e perfis sem compromisso com lisura. Signos de fuga e contorcionismo se misturam a sinais de deboche e cinismo, formando uma corrente infindável de negativas que sugestionam os ouvintes a um beliscão para descobrir se o que presenciam é sonho ou realidade. Impressiona a pancadaria no português, com socos que enchem o saco de esses rapidamente, tão grande é o número de plurais assassinados por períodos gaguejados. Olhos franzidos, lábios arqueados e dedos crispados só não causam mais constrangimento ao espectador porque uma leitura mais otimista aponta para um país mais limpo e menos pegajoso. A tênue esperança não elimina, porém, a impressão de que, naquele ambiente de verdades esfareladas, a política brasileira mostra o que tem de pior.
E o pior começa com a síndrome do transtorno psicótico compartilhado, um delírio místico, que a psicologia explica como pensamento ou atitude de uma pessoa transferido a outra, pelo fato de terem afinidade. Tal fenômeno, denominado folie à deux, é bem conhecido na área psiquiátrica e tem como referência, entre nós, um caso em que mãe e filha, em Minas Gerais, crendo na própria santificação, se imaginaram grávidas de Jesus, chegando até a se trancarem num quarto da casa para a realização dos partos. A mãe, dependente e fraca, entregou-se ao poder de sugestão/dominação/imitação da filha. Ora, o que estamos vendo no palanque das CPIs é algo tão semelhante que poderia ganhar o epíteto de folie à quatre. Marcos Valério, o agenciador dos recursos, Silvio Pereira, o piloto dos cargos no governo, Delubio Soares, o distribuidor do dinheiro, e Renilda de Souza, mulher de Valério e sócia das empresas, formam o grupo de síndrome do delírio repartido, que, infelizmente, parece ter encantado até o presidente Luiz Inácio.
O tom maior sonorizava a idéia de que os recursos tomados em bancos não se destinavam ao mensalão, mas ao financiamento de campanhas. O caixa 2 veio à tona. E o que disse o presidente da República na desastrada entrevista de Paris? Que todos os partidos usam sistematicamente o cofre escondido. Ao puxar a crise para si, Lula deu força à síndrome do delírio, agora um folie à cinq. Livrar o governo da sombra da corrupção e desviar o tiroteio para a arena partidária foi a fórmula engendrada para aumentar a blindagem em torno do presidente e dividir prejuízos. A artimanha, também usada pelo deputado Roberto Jefferson quando abriu o tiroteio, poderia dar certo, não fosse a seqüência de depoimentos sinalizando o mesmo ponto de fuga. Coisa arrumada demais gera desconfiança. Ameaça, assim, desmoronar a estratégia do gambá, pela qual o fedor do bicho se impregna nas pessoas que nele pegam.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da Universidade de São Paulo e consultor político
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