ESPAÇO ABERTO
Paixão: sorte sua
Moacir Costa
A paixão é um estado de euforia incomparável. Quem está apaixonado fica com o coração a mil, os olhos vivos, o corpo mais ágil. Não é à toa que os apaixonados são mais bonitos. O casal quer estar junto o tempo todo. Vive de uma forma tão intensa essa união que o mundo ao redor não existe e a presença de amigos e familiares até atrapalha.
Há uma série de mecanismos inconscientes nessa atração intensa. Existem sentimentos que estão sendo resgatados, como o amor que se perdeu no passado, as carências não resolvidas, os desejos inconfessáveis. Às vezes, é possível alcançar um bom grau de sintonia e entrosamento, quando se encontra uma pessoa que tem os mesmos interesses, objetivos e projetos semelhantes aos seus. Nos estados de encantamento e paixão, a química entre os amantes motiva essa pseudo-loucura e a presença do feromônio torna o desejo quase insaciável.
A sexualidade nessa circunstância passa a ser uma fonte inesgotável de prazer, onde praticamente não existe espaço e nem chance para os problemas sexuais. Alguns autores dizem que a paixão tem um tempo de duração determinado: cerca de um ano. Outros afirmam que pode durar mais. Há ainda os que atribuem a ela um tempo máximo de seis meses. Infelizmente algumas pessoas passam a vida toda a espera da paixão que não acontece.
Deixando de lado o debate entre as diversas linhas de pensamento, o fato é que nos primeiros dois anos de relacionamento as trocas afetivas e sexuais são mais intensas, ou seja, há uma necessidade vital da presença do outro. Passado esse período, o casal não se enxerga mais pela lente cor-de-rosa da paixão. Gradualmente, começam a incomodar alguns aspectos que provavelmente já existiam, mas não eram percebidos. Surgem, então, toda sorte de incertezas e inseguranças, que provocam períodos de intolerância, irritabilidade e comprometimento da sexualidade e também levam à redução da freqüência sexual.
Na verdade, é possível comparar um romance à construção de um edifício. No decorrer da paixão, o relacionamento sobe 10, 15 andares de uma só vez, mas a base, que é o companheirismo, a amizade, o respeito, ainda não foi cimentada. Certamente, será preciso muito mais concreto para fortalecer a estrutura e, caso não haja sustentação suficiente, o prédio irá desabar. É só uma questão de tempo.
Muitas vezes, a paixão dura pouco devido à projeção que a pessoa faz sobre o ser amado. O homem, por exemplo, pode achar que finalmente vai ser a pessoa mais feliz do mundo com a mulher bonita ou inteligente que acaba de conhecer. E ela, por sua vez, acredita que finalmente encontrará o sucesso por causa daquele homem que transmite muita segurança e também tem muito destaque no seu grupo social. Consciente ou inconscientemente, as pessoas se relacionam por suas carências. Vêem no outro a solução. Mas a solução depende exclusivamente da própria pessoa e da sua capacidade de desenvolver atitudes de companheirismo e compreensão para se relacionar com respeito e amizade. São esses ingredientes que vão sustentar a relação e manter a chama acesa por mais tempo.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo e autor do livro Mulher - a conquista da liberdade e do prazer (Ediouro)
O que ocorre nas entrelinhas da crise
Daniel José Gonçalves
Em meio aos alardes de corrupção nos Correios, Roberto Jefferson e Cia., pouco ficamos sabendo dos projetos já em vistas de serem votados: o monopólio postal e a federalização do porto de Paranaguá. Muitos pensarão que bom!, ou vai haver disputa, empregos em outras empresas ou, ainda, é tanta corrupção nas empresas públicas que é até bom que quebrem o monopólio e privatizem tudo!.
Uma privatização jamais é boa para os interesses da população. Ela atende, na verdade, aos anseios dos grandes empresários aos lucros. Dinheiro para ser ganho aqui e mandado para fora do país. Dinheiro para pagar uma mixaria de salário aos empregados e engordar as contas bancárias dos patrões, para depois, poderem manipular as eleições injetando muito, mas muito dinheiro mesmo em determinados candidatos para terem privilégios depois que estes forem eleitos.
Não se iludam achando que é só com este ou aquele partido... Mas enfim, a quebra do monopólio postal, discutida no calor da revolta sobre a corrupção, trará sérias feridas à população, uma vez que denota uma possível privatização dos Correios, acarretando desemprego em massa, uma problematização dos serviços sociais prestados pela empresa, como banco social entre outros, além de abrir mais uma vez para o capital especulativo um ramo de mercado em que a soberania nacional, os sistemas de informação ficarão em mãos alheias.
Ora, o que aconteceu com a telefonia? Um dos piores serviços prestados nesse país. Sem contar que a Telebras foi vendida a preço de banana. No fim das contas, sabemos que os empresários pensam no lucro que os Correios têm, mas ninguém vai querer atender uma cidadezinha lá nos cafundó-do-judas porque tem alguém que mora lá e precisa do serviço. Não dá lucro? Não atendo! - dirá o empresário.
O porto segue um caminho semelhante. Primeiro eles tomam, depois vendem. E nós? Bem, nós vocês já sabem - seremos descartados. Embora digam que há crise, talvez não haja (pelo menos sob certo ponto de vista). O mercado financeiro, vai bem, obrigado. As universidades, escolas, hospitais, estes sim estão em crise. Há séculos. Nunca tivemos um governo que trabalhasse para nós, já afirmava Darcy Ribeiro. Até quando? A humanidade não é feita de mercado financeiro, mas de gente. E gente sonha, crê, idealiza, briga, chora, ri.
O dinheiro pelo dinheiro é estéril para uma alma. O desenvolvimento do país precisa de comprometimento com a população, ética com os excluídos, luta pelos miseráveis e rompimento com modelos que não visem o desenvolvimento de todos, mas de poucos. Abaixo à quebra do monopólio postal! Abaixo a qualquer privatização! E sim a um movimento em favor do Brasil!
DANIEL JOSÉ GONÇALVES é professor em Curitiba
- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].





