Eu tenho esperança

Marcos Cesar Gouvea
‘‘Corra, porém, a justiça como as águas, e a retidão como o ribeiro perene’’. Amós 5.24
  De espanto em espanto nós vamos vivendo. Ontem tive mais um. Um artigo publicado nesta página 2 da Folha de Londrina, assinado pelo pastor e ex-vereador Gerson Araújo (PSDB), com o título ‘‘Eu tinha alguma esperança’’. O texto, como não poderia deixar de ser, aborda a atual crise do PT, fase que o ex-ministro Luiz Gushiken chama de uma ‘‘espécie de purificação’’. Araújo reclama da oposição impiedosa e sistemática do PT ao seu mandato. Fui repórter na Câmara, fui editor e não me lembro disso tudo, desta dramaticidade. Talvez eu não estivesse atento.
  Araújo diz que tanto fizeram (os petistas), tanto denegriram a imagem dos outros partidos que a população julgou que a ‘‘salvação da pátria’’ estava em experimentar ‘‘essa nova opção que sempre se intitulava a única’’.
  ‘‘Eis aí a minha ‘única esperança’’’, teria dito o vereador: com um novo governo, não haveria aquela oposição que teria impedido as reformas que FHC não pôde fazer. Descontemos a ingenuidade (ou o cinismo). Nenhuma palavra sobre os desmandos nos oitos anos de FHC, inclusive as privatizações que beneficiaram a poucos e cujos dividendos se dirigiram a descaminhos variados.
  O espaço aqui é pequeno para listar os escândalos da era tucana, inclusive o estelionato da âncora 1 real = 1 dólar para a reeleição e nem mesmo o preço de R$ 200 mil o voto por congressista para aprovação da própria reeleição.
  Depois Araújo faz uma análise simplista (o espaço é pouco mesmo) da atual crise do PT, E conclui que se o PT tivesse dado apoio às reformas que FHC queria hoje estaríamos no Primeiro Mundo. Isso não é verdade. As reformas de FHC visavam benefícios de grupos, tanto é que o seu segundo mandato inexistiu. E não foi por culpa do PT.
  Não tenho procuração de ninguém, muito menos do PT para defendê-lo. Hoje sou um eleitor, embora tenha sido militante do PT e, mais espanto, fiz as contas num destes dias e constatei que já faz 17 anos que deixei de militar naquele partido. Entendi que era incompatível com o exercício da profissão de jornalismo. Mas, se justiça tardia não é justiça, muito menos justiça precipitada. Nesta loucura toda que envolve a República há de tudo. Mas eu não esperava essa análise simplista da crise justamente de Araújo, pois, além dos petistas acusados, há acusados de todos os partidos, inclusive do PSDB.
  Me consolou mais ter lido o artigo ‘‘Corruptio optimi pessima est’’, de Leonardo Boff.
  PS: Mantenho minha confiança na integridade moral dos dois zés, o Dirceu e o Genoino.
MARCOS CESAR GOUVEA é cristão e jornalista


A vida difícil de político

Osvaldo Cardoso Ribeiro
  Você já imaginou o quanto é difícil ser político? Ser político é abocanhar sapo e não sofrer indigestão...Tem que agüentar tudo calado, pois muitos ‘‘sapos’’ fazem parte dos espinhos da profissão. Ele tem que agir de acordo com os interesses momentâneos. A ética recomenda jamais entregar, sempre negar. Acredita no diálogo em que o poder fala (a inverdade passa a ser verdade) e o eleitor escuta (desavisado, fora da realidade), e devagarinho começa a entender que tudo é boato, intriga da oposição, gente do mal que quer derrubar sua posição política.
  Assim este bravo patriota vai suportando as humilhações em diversas doses, presentemente fortes por causa das pesadas malas cheias de dinheiro que teve que carregar. Ele ganha pouco. Não sei como consegue viver com tão mísero salário! Até justificam-se os mensalões, as malas, senão como poderia viver sem acumular riquezas.
  O político verdadeiro, deste ou daquele partido, sofre diante das injustiças da mídia, registrando tantas inverdades, porém sabe que o povo esquece e logo fica completamente imune e limpo à ofensa global. Aí esfazia-se a tragédia atual, finge-se que nada houve de errado e toca seu barco em busca de benefícios para si, não enxergando a miséria do povo, não tendo religião e cortejando-a demonstrando ser cristão. Nessa degradante desonra encontra sempre uma saída honrosa. Ser político é rir do sem-graça quando o povo chora de raiva e perplexidade diante das coisas absurdas que ocorrem.
  É almoçar quatro vezes e jantar umas seis para resolver problemas da nossa subnutrição endêmica e tentar nobremente a redistribuição dos bens sociais, começando, é natural, por acumulá-los, pois não se pode distribuir o pão disperso, e é ser probo seguindo autocritério. O político conhece profundamente a causa pública e a natureza humana, suporta as provocações, em compensação advém as vantagens que o difere dos demais cidadãos. Se cada político desse país conhecesse a decência e importância que lhe é dada pelos votos dos trabalhadores não haveria tanta corrupção.
  Não se pode aceitar que com o alto salário que recebe, as mordomias que tem, ainda precisa ser desonesto e receber por fora em trambicagem e nos mensalões vergonhosos. Dizem que a esperança é a última que morre, só que foi a primeira a morrer de vergonha diante políticos inescrupulosos que estão jogando o Brasil um mar de lamas. Esteja certa ou não esta é a imagem do político brasileiro. Cabe a você ilustríssimo político ocupante de cargo em qualquer esfera nacional, desde vereador de Londrina a presidente da República, com suas ações morais e cristãs pintar outro quadro, modificando este perfil político. Que Deus ilumine os caminhos da política brasileira!
OSVALDO CARDOSO RIBEIRO é jornalista em Londrina


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